Japão adota medidas para conter excesso de turistas estrangeiros

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Tóquio – O governo japonês planeja reformular sua política de turismo, afetando diretamente milhões de visitantes estrangeiros. Além de mudanças nas regras para compras duty-free, as autoridades introduzirão preços mais altos para turistas internacionais em diferentes atrações. O objetivo é conter o chamado excesso de turismo.

Em 2024, o Japão recebeu cerca de 37 milhões de turistas estrangeiros, segundo o Travel and Tour World. O fluxo beneficiou a economia, mas, ao mesmo tempo, a presença numerosa em pontos turísticos gerou irritação entre moradores locais, levando governos regionais a elaborar estratégias para controlar o overturismo.

No ano passado, a EY Strategy and Consulting (EY Japan) publicou um relatório sobre o problema e apresentou contramedidas já aplicadas em outros países.

Para Tomotaka Hirabayashi, da área de Impacto Estratégico da EY Japan, o setor de turismo está se consolidando como uma grande indústria de exportação, equiparando-se à indústria automobilística. “Mas o excesso de turistas é um desafio para o país impulsionar o crescimento do setor”, afirmou.

Três contramedidas principais contra o excesso de turismo

As propostas destacadas pela EY Japan incluem:

  1. Cobrança de taxas adicionais para turistas estrangeiros – a exemplo de Veneza, que criou uma taxa de 5 euros para visitantes de um dia.
  2. Restrição física das estadias – com novas regras, como a limitação de aluguel de casas por curto prazo ou restrições a cruzeiros, já adotadas em Amsterdã (Países Baixos) e Barcelona (Espanha).
  3. Sistema de reservas antecipadas – implementado em pontos turísticos como a Sagrada Família (Barcelona) e o Parque Nacional de Yosemite (EUA). No Japão, as províncias de Yamanashi e Shizuoka já exigem reserva para quem deseja subir o Monte Fuji.

A opinião dos moradores

Pesquisas revelam como os japoneses percebem o excesso de turistas. Em levantamento feito pela EY Japan com 1.860 pessoas em 10 cidades, 40% disseram receber bem os visitantes e, somando os que afirmaram “não se importar com turistas”, aproximadamente 70% demonstraram atitude positiva.

Porém, cerca de 50% afirmaram sentir os impactos negativos do excesso de turismo: 9% disseram “sentir fortemente” e 13% “sentir fortemente em parte das áreas”. As cidades mais citadas foram Kyoto, Taito (Tóquio, região de Asakusa) e Hatsukaichi (Hiroshima, região de Miyajima).

As principais queixas foram: presença excessiva de estrangeiros (59%), seguida pelo crescimento combinado de turistas internacionais e domésticos (24%), desrespeito às normas de convivência, superlotação do transporte público e congestionamento em bairros próximos a atrações turísticas.

Entre os pontos positivos apontados, destacam-se: maior conscientização dos turistas quanto às normas de comportamento (61,6%), melhoria no transporte público (31,3%), cobrança de taxas dos visitantes (24,4%) e percepção real dos benefícios econômicos (22,2%).

O governo japonês mantém a meta de atrair 60 milhões de turistas internacionais e alcançar 15 trilhões de ienes em gastos até 2030.

Medidas já anunciadas

Duty-Free

A partir de 1º de novembro de 2026, o sistema de compras duty-free para estrangeiros será reformulado e passará a funcionar em modelo de reembolso. Atualmente, turistas compram em lojas designadas e são isentos do imposto de consumo de 10% no ato da compra, mediante apresentação do passaporte.
Com a mudança, os visitantes pagarão o imposto no ato e deverão solicitar o reembolso ao deixar o país. Desde abril de 2024, itens enviados por remessa internacional já não são elegíveis para isenção.

Preços mais altos em atrações

Será adotado o sistema de preços duplos: um valor para japoneses e outro, mais caro, para quem vem de fora em atrações culturais, museus, estações de esqui e parques. Segundo o Tragento, a renda adicional será usada para preservar o patrimônio e controlar multidões.
Na província de Hyogo, o Castelo de Himeji aplicará ingressos escalonados a partir de março de 2026: moradores locais continuarão pagando 1.000 ienes, enquanto turistas e não residentes pagarão entre 2.000 e 3.000 ienes, conforme o Time Out. Jovens de até 18 anos terão entrada gratuita.
No parque temático Junglia Okinawa, turistas estrangeiros já pagam 8.800 ienes, mais de 2.000 ienes acima do valor para japoneses.

Hospedagens mais caras

A prefeitura de Kyoto aumentará o imposto sobre hospedagem em março de 2026, como forma de controlar a chegada de turistas. Desde 2018, hotéis, pousadas tradicionais (ryokan) e outros tipos de hospedagem já cobram valores entre 200 e 1.000 ienes por noite.
Com a revisão, os maiores aumentos recairão sobre o setor de luxo. Turistas estrangeiros em acomodações de altíssimo padrão, com diárias acima de 100.000 ienes, pagarão imposto de 10.000 ienes por noite — dez vezes a taxa atual.

Essa não é uma medida inédita: Tóquio aumentou a taxa em 2002, seguida por Osaka em 2017. Até abril deste ano, 13 municípios já aplicavam impostos semelhantes, e outros 50 analisavam medidas parecidas, especialmente em destinos como Hokkaido, Nagano, Okinawa, além do Monte Fuji (Yamanashi e Shizuoka) e Ise-Shima (Mie).

Segundo as autoridades, turistas de baixo e médio orçamento sentirão apenas um leve aumento nas despesas, enquanto os que optarem por hospedagens de luxo terão custos significativamente mais altos.

Foto: Banco de Imagem

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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