Falta de trabalhadores leva 225 empresas à falência no Japão

2026/10/09 08:47
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Tóquio – A falta de trabalhadores continua derrubando empresas no Japão. Entre abril e setembro deste ano, 225 companhias entraram em processo de falência tendo a escassez de mão de obra entre os fatores que contribuíram para o encerramento das atividades, segundo levantamento divulgado pela Teikoku Databank.

O número é o maior já registrado para o primeiro semestre de um ano fiscal desde o início da série, em 2013.

Foram 11 casos a mais que no mesmo período do ano fiscal anterior, quando foram registradas 214 falências. Com isso, o Japão bateu recorde pelo quarto ano consecutivo nesse tipo de levantamento.

A pesquisa considera empresas com dívidas de pelo menos 10 milhões de ienes que entraram em processo legal de falência entre 1º de abril e 30 de setembro.

O que significa “falência por falta de mão de obra”?

O termo não significa necessariamente que a empresa ficou literalmente sem funcionários.

A Teikoku Databank inclui nessa categoria casos em que problemas relacionados à mão de obra contribuíram para tornar o negócio inviável.

Isso pode acontecer, por exemplo, quando:

• funcionários importantes deixam a empresa e não há quem os substitua;

• a companhia não consegue contratar profissionais suficientes;

• faltam trabalhadores com qualificações ou licenças específicas;

• a empresa não consegue treinar novos funcionários;

• os salários necessários para atrair ou manter trabalhadores ficam altos demais para a capacidade financeira do negócio.

Em outras palavras, uma empresa pode ter clientes e serviços disponíveis, mas não conseguir executar o trabalho porque faltam pessoas capazes de realizá-lo.

Um exemplo prático

Considere uma pequena empresa de construção com dez funcionários. Ela recebe serviços suficientes para continuar funcionando, mas dois empregados experientes deixam a companhia. Um deles possuía uma qualificação necessária para determinados tipos de obra.

A empresa tenta contratar substitutos, mas não encontra candidatos com a mesma experiência. Para atrair profissionais, precisaria aumentar os salários, mas seus contratos atuais não permitem repassar todo esse custo aos clientes.

Ao mesmo tempo, como há menos funcionários, a companhia consegue atender menos obras e começa a perder faturamento. Os custos continuam chegando, mas a receita cai.

Se essa situação se prolongar e a empresa não conseguir pagar fornecedores, salários ou empréstimos, ela poderá acabar entrando em falência.

Esse é o tipo de situação que a Teikoku Databank classifica como falência relacionada à falta de mão de obra.

Construção lidera

O setor da construção foi o mais afetado no primeiro semestre fiscal, com 70 falências. Foram 17 casos a mais que no mesmo período do ano anterior.

Segundo a Teikoku Databank, a construção continua enfrentando uma falta crônica de trabalhadores especializados.

Um caso citado no levantamento ocorreu justamente em Shizuoka. Uma empresa de serviços de telhados já enfrentava dificuldades financeiras quando perdeu funcionários importantes.

Um dos empregados que coordenava vários locais de trabalho deixou a empresa para abrir seu próprio negócio. Além disso, outros trabalhadores que possuíam qualificações necessárias para realizar determinados serviços também saíram.

Sem essas pessoas, a empresa passou a ter dificuldade até para manter suas operações comerciais e acabou entrando com pedido de falência.

O exemplo mostra que a falta de mão de obra não se resume à quantidade de pessoas.

Em determinados setores, perder um funcionário com experiência, licença ou conhecimento técnico específico pode ser muito mais grave do que simplesmente perder um trabalhador comum.

Serviços ficam em segundo lugar

O setor de serviços teve 63 falências relacionadas à falta de mão de obra, seis a mais que no mesmo período do ano passado.

Dentro dessa categoria, chamou atenção o setor de desenvolvimento de software sob encomenda. Foram oito falências, aumento de seis casos em relação ao ano anterior. Nesse caso, o problema é diferente daquele observado na construção.

Não faltam apenas trabalhadores em quantidade. Faltam profissionais com conhecimentos técnicos capazes de acompanhar mudanças rápidas, como inteligência artificial, automação e ferramentas conhecidas como no-code, que permitem desenvolver determinados sistemas com pouca ou nenhuma programação tradicional.

Caso em Aichi

A Teikoku Databank também cita uma empresa de Aichi que desenvolvia sistemas de gestão de vendas. A companhia enfrentava dificuldades financeiras e, por isso, não conseguia investir adequadamente na contratação e formação de funcionários.

Ao mesmo tempo, tecnologias como inteligência artificial e ferramentas no-code avançaram rapidamente. A empresa não conseguiu acompanhar essas mudanças com seus próprios produtos e sistemas.

A dificuldade de contratar e desenvolver profissionais com as competências necessárias tornou-se um dos fatores que levaram ao encerramento das atividades.

Falta de trabalhadores e salários maiores

Outro problema é que a escassez de mão de obra força as empresas a oferecer salários maiores para conseguir contratar ou manter funcionários.

Isso pode ser positivo para o trabalhador, mas representa um desafio para pequenas empresas com margens de lucro reduzidas.

Segundo a Teikoku Databank, foram observados vários casos em que o aumento das despesas com pessoal pressionou o caixa das empresas até que elas desistissem de continuar o negócio.

A situação poderá ficar ainda mais difícil para algumas companhias com o aumento do salário mínimo.

No ano fiscal de 2026, o salário mínimo médio ponderado do Japão aumentou 56 ienes, chegando a 1.177 ienes por hora.

Em Aichi, o valor passou para 1.195 ienes por hora em 1º de outubro. Em Shizuoka, o novo mínimo de 1.154 ienes entrará em vigor no dia 15.

Isso não significa que o aumento do salário mínimo provoque automaticamente falências.

O problema aparece quando uma empresa já está com situação financeira frágil, enfrenta custos elevados de matéria-prima, energia e transporte e, ao mesmo tempo, precisa aumentar salários para não perder trabalhadores.

Se ela não conseguir elevar sua produtividade ou repassar parte dos custos aos preços cobrados dos clientes, a situação financeira pode se deteriorar.

Tokai também bate recorde

A situação também merece atenção na região Tokai. Em levantamento anterior, referente ao primeiro semestre de 2026, de janeiro a junho, a Teikoku Databank havia registrado 22 falências relacionadas à falta de mão de obra nas quatro províncias de Aichi, Shizuoka, Gifu e Mie. Foi o maior número já registrado para um primeiro semestre desde o início da série regional.

Naquele levantamento, mais de 40% dos casos estavam ligados ao setor da construção. No ano fiscal de 2025, as quatro províncias haviam registrado 34 casos, também um recorde e o terceiro aumento anual consecutivo.

Falta de mão de obra não significa falta de vagas

Os números também mostram uma aparente contradição no mercado de trabalho japonês.

Enquanto algumas empresas fecham porque não conseguem trabalhadores, o país continua recebendo mais estrangeiros justamente para aliviar a falta de pessoal em setores como construção, indústria, alimentação, agricultura, cuidados de idosos e transporte.

Isso acontece porque a falta de mão de obra não significa simplesmente que não existam pessoas procurando trabalho.

Há também problemas de localização, qualificação, salários, condições de trabalho e compatibilidade entre o perfil do candidato e a vaga oferecida.

Uma empresa pode ter vagas abertas por meses sem encontrar candidatos dispostos ou qualificados para ocupá-las.

Ao mesmo tempo, trabalhadores podem estar procurando emprego em outra cidade, outro setor ou por salários e condições diferentes.

O que preocupa para os próximos anos

A Teikoku Databank avalia que a capacidade de contratar e formar profissionais qualificados será cada vez mais importante para a sobrevivência das empresas.

Além disso, o aumento contínuo dos salários tende a elevar a competição entre companhias pelos trabalhadores disponíveis.

O governo estabeleceu como objetivo elevar o salário mínimo médio nacional para 1.500 ienes por hora o mais cedo possível no início da década de 2030.

Por isso, empresas que não conseguirem aumentar a produtividade, repassar custos aos preços ou melhorar sua rentabilidade poderão enfrentar dificuldades maiores.

Para os trabalhadores, especialmente estrangeiros, a situação tem dois lados.

De um lado, a falta de mão de obra pode aumentar oportunidades de emprego e pressionar salários para cima.

Do outro, quem trabalha em pequenas empresas financeiramente frágeis pode enfrentar redução de atividades, atraso de salários ou até perda do emprego caso o negócio não consiga suportar os custos crescentes.

Fonte: Teikoku Databank.

Foto: Canva

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