Sul-coreanos criam esporte de não fazer nada em meio à pressão por produtividade

2025/11/04 08:34
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Coreia do Sul – Na Coreia do Sul existe um esporte no qual vence quem não fizer absolutamente nada. Os competidores ficam sentados em um parque, onde devem se manter imóveis por 90 minutos. O participante que apresentar o melhor desempenho nesses requisitos é o vencedor.

O evento é chamado “Space-out competition” ou “Do nothing competition”, que significa competição de não fazer nada. A atividade, ou ausência dela, teve início em 2014. O novo “esporte” também passou a ser realizado em outros países e teve uma edição em Tóquio em 2023.

A competição foi criada em resposta à cultura extrema de produtividade, ao ritmo acelerado da vida nas cidades sul-coreanas e ao estresse que isso provoca nas pessoas.
O vencedor neste ano foi Byung-jin Park, de 36 anos, empresário da área de tecnologia e baterista de uma banda punk.

Entenda o jogo

Os participantes se inscrevem e, no dia da competição, sentam-se sobre esteiras no gramado de uma área ao ar livre.

O vencedor é aquele que mantiver a frequência cardíaca mais baixa e estável, monitorada pela organização.

As regras são simples, mas desafiadoras:
• Os participantes devem permanecer imóveis, sem dormir, por 90 minutos.
• Nenhuma atividade é permitida — é proibido usar telefone ou qualquer outro aparelho eletrônico.
• Em algumas versões, monitora-se a frequência cardíaca ou outros sinais fisiológicos para identificar o participante mais “estável” ou “quieto”.
• Quem se mexer, dormir ou usar o celular é desclassificado.

Como a disputa ocorre em locais públicos, como parques, o evento atrai espectadores. Muitas pessoas conversam, tiram fotos e observam os competidores, que permanecem imóveis e silenciosos.

Contexto sul-coreano

Assim como no Japão, o ritmo de vida na Coreia do Sul é marcado por longas jornadas de trabalho e baixos índices de lazer em comparação com outros países desenvolvidos. Nesse cenário, o esporte de “não fazer nada” surge como uma forma de protesto ou antídoto simbólico.

O evento foi criado em 2014 pelo artista Woopsyang, que buscava questionar a ideia de que descanso ou inatividade representam perda de tempo em uma sociedade altamente competitiva.
Em 2016, a revista Vice relatou que 70 pessoas participaram de uma edição da competição em um parque de Seul.

Embora pareça incomum, a proposta convida à reflexão sobre aspectos do cotidiano que muitas vezes passam despercebidos.

Um deles é a importância de desacelerar em um mundo em que a mente salta de tarefa em tarefa sem pausas. O simples ato de sentar-se sem um objetivo aparente pode ajudar a reduzir a ansiedade e, em alguns casos, estimular a criatividade e a calma.

A sociedade tende a pressionar as pessoas a fazerem sempre mais, e o esporte de não fazer nada pode abrir espaço para que os participantes busquem sua própria essência, em vez de seguir as regras impostas pela produtividade constante.

Outro ponto é o desafio físico e mental, já que permanecer imóvel por 90 minutos, sem dormir nem olhar o celular, exige disciplina.

Por não demandar esforço físico nem habilidades comuns em competições esportivas, muitos questionam o uso do termo “esporte” para descrever o evento. Seus defensores, no entanto, afirmam que o verdadeiro desafio está dentro de cada participante — em manter o controle dos pensamentos e permanecer indiferente ao que acontece ao redor.

Alguns especialistas consideram que o “não fazer nada” também pode ser entendido como uma performance social. O simples ato de ficar parado por 90 minutos, diante do olhar do público, provoca uma reflexão coletiva sobre como cada um usa o próprio tempo.

Foto: Reprodução/Space out competition

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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