Como tornar água segura para beber após um desastre no Japão

2026/11/06 07:56
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Tóquio – Um grande terremoto, enchente ou outro desastre pode interromper não apenas o fornecimento de água, mas também comprometer a qualidade da água que ainda chega às residências. Por isso, além de manter garrafas de água e outros suprimentos para pelo menos três dias, e preferencialmente uma semana, conhecer formas de tratamento da água pode fazer a diferença em uma situação extrema.

No Japão, governos locais recomendam como referência cerca de 3 litros de água potável por pessoa por dia. A cidade de Yokohama, na província de Kanagawa, por exemplo, orienta manter pelo menos três dias de abastecimento, ou 9 litros por pessoa, e recomenda, quando possível, uma reserva para uma semana.

A primeira opção após um desastre deve ser sempre água engarrafada que permaneça lacrada ou água distribuída oficialmente pelos serviços de emergência. A purificação de água de rios, lagos, poços, piscinas, reservatórios ou mesmo da banheira deve ser considerada uma solução alternativa quando a água potável não estiver disponível.

Também é necessário compreender que água transparente não significa necessariamente água segura. Vírus, bactérias e protozoários são invisíveis a olho nu.

E há outro princípio fundamental: filtrar a água não significa necessariamente torná-la potável.

Um pano pode retirar areia e terra. Um filtro mais sofisticado pode eliminar bactérias. Outro pode reter protozoários. Mas ainda podem permanecer vírus ou substâncias químicas dissolvidas. Por isso, dependendo da origem da água, o método mais seguro pode envolver duas ou mais etapas de tratamento.

Primeiro, escolha a melhor água disponível

Mesmo quando for tratada, deve-se procurar a fonte de água menos contaminada possível.

Água de chuva coletada de forma relativamente limpa, água armazenada, água de uma piscina sem contaminação química incomum e água de rios ou lagos podem, em algumas situações, servir como fontes emergenciais.

Água de banheira também pode ser aproveitada por determinados equipamentos de purificação, desde que não contenha sais de banho, produtos de limpeza ou outras substâncias incompatíveis com o filtro. Alguns fabricantes japoneses indicam expressamente esse tipo de utilização.

Já a água de enchente deve ser tratada com grande cautela. Ela pode conter esgoto, produtos químicos, combustível, óleo, metais e outros contaminantes.

Se houver cheiro de gasolina, solvente ou produtos químicos, coloração anormal ou suspeita de contaminação industrial, a recomendação é não tentar tornar essa água potável com os métodos domésticos comuns.

Ferver não remove combustível, metais pesados ou substâncias radioativas. A desinfecção com cloro também não resolve esse tipo de contaminação.

Deixar a sujeira decantar

Quando a água estiver turva, o primeiro procedimento pode ser simplesmente deixá-la parada durante algum tempo.

Partículas mais pesadas, areia e barro tendem a se depositar no fundo. A parte mais clara deve então ser retirada cuidadosamente, sem revolver o sedimento.

Esse procedimento não torna a água potável. Ele apenas facilita as etapas seguintes.

Passar por pano ou filtro de café

Outra possibilidade é passar a água por um pano limpo dobrado várias vezes, papel-toalha ou filtro de café.

A Organização Mundial da Saúde e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, recomendam retirar partículas visíveis antes da fervura ou da desinfecção química quando a água estiver turva.

Também é possível improvisar um pré-filtro utilizando recipientes com camadas de tecido, cascalho, areia e carvão ativado.

Mas existe uma diferença importante: esse sistema pode melhorar bastante a aparência da água e retirar partículas, porém não deve ser considerado suficiente para produzir água potável.

Depois dessa filtragem preliminar, a água ainda deve ser fervida, desinfetada ou tratada por equipamento apropriado.

Fervura é um dos métodos mais seguros

Para contaminação por microrganismos, a fervura continua sendo um dos métodos domésticos mais confiáveis.

O CDC recomenda levar a água a uma fervura completa, mantendo-a fervendo por pelo menos um minuto. Depois disso, ela deve esfriar naturalmente e ser armazenada em recipiente limpo e fechado.

Se a água estiver turva, deve primeiro ser decantada ou filtrada.

A fervura é eficaz contra bactérias, vírus e parasitas. Por isso, em uma emergência, ter um fogareiro portátil, como os conhecidos fogões a cartucho utilizados no Japão, e reserva suficiente de gás pode ter outra função além da preparação de alimentos.

Entretanto, ferver não retira sal, metais pesados, pesticidas, combustíveis ou diversas substâncias químicas.

Filtros portáteis

Uma alternativa cada vez mais utilizada em kits de emergência são os filtros portáteis.

Muitos utilizam membranas de fibra oca, chamadas 中空糸膜, chūkūshi-maku, membrana de fibra oca. Os pequenos poros impedem a passagem de diversos microrganismos.

O tamanho do poro é importante. Segundo o CDC, um filtro precisa apresentar poros absolutos de 1 mícron ou menores para reter protozoários como Giardia e Cryptosporidium e de aproximadamente 0,3 mícron ou menos para remover bactérias. Muitos filtros portáteis, porém, não eliminam vírus.

No Japão existem vários equipamentos desse tipo.

Um exemplo produzido no país é o mizu-Q PLUS, da Karihana Seisakusho. O aparelho é conectado a uma garrafa PET e utiliza membrana de fibra oca de 0,1 mícron combinada com carvão ativado.

Segundo o fabricante, um cartucho consegue tratar aproximadamente 350 litros de água quando utilizado com água da rede. A empresa informa que o aparelho pode ser utilizado com determinadas águas armazenadas, rios, lagos, piscinas e água de banheira sem aditivos.

Há, porém, uma limitação importante. O próprio fabricante afirma que o aparelho não deve ser utilizado para água com possível contaminação por vírus, pesticidas, substâncias tóxicas, solventes orgânicos ou metais pesados. Também não dessaliniza água do mar.

Página do fabricante: mizu-Q PLUS, Karihana Seisakusho

O produto também aparece no comércio japonês, inclusive na rede Cainz.

Página da Cainz: mizu-Q PLUS na Cainz

Filtros maiores para uma família

Também existem equipamentos destinados à produção de volumes maiores.

A empresa japonesa Miyasaka Kogyo fabrica a linha コッくん飲めるゾウ, Kokkun Nomeru Zō, desenvolvida especificamente para situações de desastre.

Há modelos que utilizam membranas de fibra oca, carvão ativado e, nas versões mais sofisticadas, membrana de osmose reversa, conhecida pela sigla RO, de Reverse Osmosis.

A empresa informa que alguns equipamentos podem tratar água de rios, lagos, piscina, chuva, reservatórios e água de banho. Alguns modelos são manuais, característica importante quando há interrupção no fornecimento de eletricidade.

Página oficial: Linha Kokkun Nomeru Zō

Osmose reversa

A osmose reversa oferece um nível de tratamento muito mais elevado do que filtros portáteis convencionais.

A membrana RO consegue retirar partículas extremamente pequenas e reduzir várias substâncias dissolvidas, incluindo alguns sais, metais e compostos químicos.

Por isso, equipamentos desse tipo podem ser interessantes para condomínios, empresas, escolas, associações e abrigos.

Mas é necessário verificar exatamente o que cada aparelho consegue remover. Mesmo entre equipamentos de osmose reversa existem diferenças de pressão, membranas e pré-filtros.

Também não se deve assumir que qualquer aparelho RO possa transformar água do mar em água potável. O fabricante do Kokkun Nomeru Zō, por exemplo, esclarece que seus equipamentos de emergência convencionais não devem ser usados para dessalinização de água do mar porque a pressão disponível não é suficiente.

Carvão ativado

O carvão ativado aparece em muitos purificadores porque consegue adsorver diversas substâncias responsáveis por odor, gosto e alguns compostos químicos. Entretanto, carvão ativado sozinho não deve ser considerado um sistema completo de desinfecção.

Ele normalmente funciona melhor como uma etapa de um sistema, combinado com membrana filtrante, desinfecção ou outros tratamentos.

Desinfecção com cloro

Produtos à base de cloro também podem ser utilizados para desinfecção de emergência.

O CDC recomenda, quando não for possível ferver a água, o uso de solução de hipoclorito de sódio simples, sem perfume e sem outros produtos de limpeza.

Para uma solução contendo entre 5% e 9% de hipoclorito de sódio, a orientação do CDC para água clara é de aproximadamente 2 gotas para cada litro de água. Após misturar, deve-se esperar pelo menos 30 minutos antes do consumo. Para água turva, muito fria ou colorida, a quantidade indicada pelo órgão é dobrada.

Essa orientação exige muito cuidado no Japão.

Produtos vendidos como 漂白剤, hyōhakuzai, alvejante, podem ter concentrações diferentes e conter detergentes, perfumes ou outros ingredientes.

Não se deve utilizar qualquer produto simplesmente porque contém cloro.

É necessário verificar a concentração do hipoclorito de sódio e confirmar que não existem fragrâncias, detergentes, espessantes ou outros aditivos. Sempre que um produto específico trouxer instruções para desinfecção de água potável, essas instruções devem ter prioridade.

Também não se deve confundir 次亜塩素酸ナトリウム, jia ensosan natoriumu, hipoclorito de sódio, com 次亜塩素酸水, jia ensosansui, água de ácido hipocloroso. O Ministério da Saúde japonês alerta que são substâncias diferentes.

Comprimidos para purificação

Existem ainda comprimidos e gotas específicos para tratamento de água, muito usados em camping, viagens e kits de sobrevivência. Os princípios ativos mais comuns incluem cloro, dióxido de cloro e iodo.

A grande vantagem é a facilidade de armazenamento. Um pequeno pacote pode tratar dezenas ou centenas de litros.

Nesses produtos é fundamental seguir exatamente a quantidade de água e o tempo de espera determinados pelo fabricante.

O dióxido de cloro apresenta uma vantagem sobre alguns outros desinfetantes porque, utilizado corretamente, pode ser eficaz inclusive contra Cryptosporidium. Já comprimidos comuns à base de cloro ou iodo não são igualmente eficazes contra esse protozoário.

O iodo também tem restrições. O CDC recomenda que grávidas, pessoas com problemas de tireoide ou hipersensibilidade ao iodo evitem água tratada dessa maneira. O órgão também não recomenda seu uso contínuo por mais do que algumas semanas.

Luz ultravioleta

Há ainda pequenos aparelhos de luz ultravioleta, conhecidos como purificadores UV. Eles podem inativar microrganismos presentes na água, mas apresentam uma condição importante: a água precisa estar clara.

Barro e partículas em suspensão podem criar sombras microscópicas que impedem a luz UV de atingir os organismos.

Por isso, água turva deve primeiro ser filtrada ou decantada. O equipamento também depende de bateria ou outra fonte de energia.

Desinfecção solar

Existe ainda um método de último recurso que utiliza a radiação solar.

O CDC informa que água relativamente clara pode ser colocada em garrafas plásticas transparentes e deixada horizontalmente sob sol forte por aproximadamente seis horas. Em tempo nublado, o período indicado aumenta para cerca de dois dias.

O método reduz microrganismos, mas é menos confiável do que fervura ou sistemas adequados de purificação e não resolve contaminação química.

Destilação

Outra técnica possível é a destilação. A água é fervida e o vapor é capturado e novamente condensado em outro recipiente.

Como sais e muitas outras substâncias ficam no recipiente original, o processo consegue produzir água de elevada pureza.

Porém, improvisar um destilador em uma situação de desastre exige energia, recipientes adequados e tempo. Além disso, algumas substâncias químicas voláteis podem evaporar juntamente com a água e voltar a se condensar, portanto destilação improvisada também não deve ser considerada uma solução universal para água contaminada por produtos químicos.

E a água do mar?

Beber água do mar é extremamente perigoso porque a concentração de sal pode provocar desidratação em vez de hidratar o organismo.

Ferver água do mar simplesmente concentra ainda mais o sal.

Para torná-la potável é necessário separar a água dos sais por destilação ou utilizar equipamento de dessalinização por osmose reversa projetado especificamente para água salgada.

Filtros portáteis comuns não fazem isso.

Uma combinação oferece maior segurança

Em uma situação extrema, uma estratégia particularmente útil para água de origem duvidosa pode ser combinar várias barreiras.

Primeiro, deixar sedimentos decantarem. Depois, passar a água por pano ou filtro de café. Em seguida, utilizar um filtro de membrana adequado. Finalmente, dependendo das características do filtro e da água, ferver ou realizar uma desinfecção química complementar.

O CDC recomenda justamente considerar tratamento adicional depois de determinados filtros portáteis porque muitos deles não eliminam vírus.

Também é preciso evitar a recontaminação. Água já tratada deve ser colocada em recipiente limpo, com tampa, e não deve receber novamente utensílios ou mãos que tiveram contato com a água original.

Água armazenada antes do desastre continua sendo a melhor opção

Apesar da existência de todos esses recursos, nenhuma dessas técnicas elimina a importância de armazenar água antes do desastre.

A Agência de Água de Tóquio recomenda colocar água diretamente da torneira em recipientes limpos e fechados, sem passar pelo filtro doméstico e sem fervê-la antes do armazenamento.

A razão é que o cloro residual presente na água da rede ajuda a impedir o crescimento de microrganismos. Em condições adequadas e protegida da luz solar, a água da torneira armazenada dessa forma mantém o efeito de desinfecção por cerca de três dias à temperatura ambiente e cerca de dez dias na geladeira.

Uma família de quatro pessoas que pretenda manter água para uma semana precisaria, usando a referência japonesa de 3 litros por pessoa por dia, de aproximadamente 84 litros apenas para beber e preparar alimentos.

Por isso, um filtro portátil ou um purificador de emergência não deve necessariamente substituir a reserva de água.

Ele pode funcionar como uma segunda linha de defesa.

Ao lado de garrafas de água, alimentos, fogareiro e botijões de gás, lanterna, rádio e baterias, um filtro apropriado e recipientes dobráveis para buscar água podem ampliar consideravelmente a capacidade de uma família permanecer em casa durante uma interrupção prolongada do abastecimento.

O mais importante é conhecer o equipamento antes da emergência.

É preciso saber quais contaminantes o filtro realmente remove, qual o volume máximo que consegue tratar, quando o cartucho precisa ser substituído e quais tipos de água o fabricante proíbe.

No momento de um desastre, descobrir essas limitações pode ser tarde demais.

Fontes: Tokyo Metropolitan Government Bureau of Waterworks, Prefeitura de Yokohama e Centers for Disease Control and Prevention (CDC)

Foto: Canva

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