Calor recorde derruba tabu francês contra o ar-condicionado

2026/06/26 15:17
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Paris — Muitos franceses decidiram abandonar a crença tradicional de que o ar-condicionado faz mal ao meio ambiente e estão procurando o equipamento para enfrentar o forte calor que afeta o país.

Na França, os sistemas de refrigeração em geral são vistos como prejudiciais ao meio ambiente. Porém, com cientistas afirmando que as mudanças climáticas tornam os verões cada vez mais extremos, os aparelhos de ar-condicionado começam a sumir das lojas, noticiou o CNA.

Um homem de 35 anos, residente nos arredores de Paris, contou que era contra o uso do ar-condicionado, mas foi convencido por sua esposa americana a comprar um aparelho para aliviar o calor em casa, onde vivem com a filha de 2 anos e um cachorro. Sem o equipamento, o apartamento registrava 36°C.

Na quarta-feira (24), a França registrou seu dia mais quente desde o início das medições, em 1947, de acordo com o serviço meteorológico nacional.

Apesar do aumento da procura, a fama negativa dos aparelhos de ar-condicionado continua forte. Segundo uma pesquisa feita com mais de mil pessoas e publicada em junho, oito em cada dez franceses veem o equipamento como prejudicial ao meio ambiente.

Quem assume essa postura costuma dizer que os aparelhos consomem muita energia para refrigerar um cômodo ou edifício. No entanto, especialistas afirmam que o impacto ambiental depende da fonte de energia usada para operar o equipamento.

Um dos que defendem essa avaliação é François Gemenne, especialista do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Ele disse em entrevista à televisão francesa neste mês que, hoje, o ar-condicionado não representa um problema ambiental na França, porque o país não depende tanto de combustíveis fósseis para produzir eletricidade.

As usinas nucleares responderam por quase 70% da eletricidade da França no ano passado.

Já o urbanista Clément Gaillard observou que o problema não está no ar-condicionado em si, desde que ele não seja usado como única solução. Para ele, a questão central é que muitos projetos de construção não levam em conta as mudanças climáticas.

Entre os exemplos estão edifícios modernos com grandes janelas de vidro e residências relativamente novas com isolamento eficiente no inverno, mas inadequado para o verão.

Os aparelhos de ar-condicionado também têm desvantagens. Eles usam fluidos refrigerantes potencialmente poluentes e expulsam ar quente para fora dos ambientes.

Esse ar quente não aquece a atmosfera em escala global, mas pode agravar o calor localmente em alguns décimos de grau ou até em vários graus em áreas urbanas densas e mal ventiladas, segundo Vincent Viguié, do Centro Internacional de Pesquisa sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CIRED).

Uma simulação feita em 2025 em um bairro densamente povoado de Lyon mostrou que aparelhos instalados nas fachadas dos edifícios poderiam elevar a temperatura local do ar em 1,75°C.

Entretanto, as alternativas para conter o calor sem ar-condicionado estão chegando ao limite. Em uma simulação recente de uma onda de calor extrema na região de Paris entre 2070 e 2100, o CIRED concluiu que substituir todos os aparelhos por outras medidas, como áreas verdes e renovação de edifícios, ainda deixaria moradores expostos durante seis horas por dia a temperaturas percebidas acima de 32°C.

Por isso, especialistas recomendam soluções simples, como persianas e ventiladores de teto, não para eliminar o uso do ar-condicionado, mas para reduzir a dependência dele.

O tema se tornou tão quente na França que deve aparecer nos debates entre os candidatos à sucessão do presidente Emmanuel Macron. A principal figura da extrema direita, Marine Le Pen, já defendeu ar-condicionado para todos. Por sua vez, o líder da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, é contra a expansão generalizada do equipamento.

Resta saber como os franceses lidarão com o calor cada vez mais extremo: se manterão a resistência ao ar-condicionado por causa de seus efeitos ambientais ou se aceitarão o conforto que o equipamento já garante em muitos países.

Foto: Esta é uma imagem gerada por IA criada exclusivamente para fins ilustrativos. Não representa um evento ou pessoa real

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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