Após décadas de trabalho, máquinas recebem cerimônias de despedida no Japão

Tóquio – A empresa Sanko Seisaku, de Hamamatsu, na província de Shizuoka, realizou em julho uma cerimônia para sua antiga linha de produção de cobre, que operava havia mais de 45 anos. Pode soar incomum para os ocidentais, mas no Japão existe uma antiga tradição de agradecimento e despedida de objetos, conhecida genericamente como dōgu kuyō (道具供養, cerimônia memorial ou de agradecimento aos instrumentos) ou mono kuyō (モノ供養, cerimônia memorial ou de agradecimento aos objetos).
Algumas empresas japonesas mantêm ou adaptaram essa tradição em relação aos instrumentos de trabalho, realizando cerimônias quando máquinas que funcionaram durante décadas são retiradas de operação.
De onde vem essa tradição?
A tradição tem várias raízes. Uma das manifestações mais antigas e conhecidas é o hari kuyō (針供養, cerimônia memorial das agulhas). Agulhas quebradas, tortas ou enferrujadas deixam de ser usadas e recebem uma despedida. Tradicionalmente, são colocadas em algo macio, como tofu ou konnyaku, para que, simbolicamente, possam “descansar” depois de uma vida perfurando tecidos duros.
A cerimônia também expressa agradecimento pelo trabalho realizado e pode incluir pedidos de aperfeiçoamento profissional.
Não há consenso sobre a origem do hari kuyō (針供養, cerimônia memorial das agulhas). Há registros e tradições que ligam o costume ao período Heian. No templo Hōrinji, em Kyoto, por exemplo, a cerimônia é associada à tradição segundo a qual o imperador Seiwa mandou construir um local para depositar agulhas. Atualmente, o templo realiza o hari kuyō (針供養, cerimônia memorial das agulhas) nos dias 8 de fevereiro e 8 de dezembro.
Outra corrente relaciona sua difusão ao culto de Awashima, especialmente durante o período Edo. Com o tempo, o hari kuyō (針供養, cerimônia memorial das agulhas) espalhou-se por templos, santuários e escolas de costura em diferentes regiões do Japão.
Há ainda um elemento cultural interessante: as histórias dos tsukumogami (付喪神, objetos antigos que se transformam em seres sobrenaturais).
O Tsukumogami Emaki (付喪神絵巻, Pergaminho Ilustrado dos Tsukumogami) conta a história de utensílios descartados que se transformam em criaturas sobrenaturais e buscam vingança contra os humanos.
A Biblioteca Nacional da Dieta do Japão conserva cópias dessa obra e explica que o original mais antigo conhecido é considerado do período Muromachi. A própria instituição ressalta, porém, que o autor e a data exata da obra original são desconhecidos.
A cerimônia das máquinas é antiga?
As raízes culturais são antigas, mas a aplicação desse tipo de cerimônia a máquinas industriais é uma adaptação moderna.
Uma pesquisa acadêmica sobre dōgu kuyō (道具供養, cerimônia memorial ou de agradecimento aos instrumentos) e mono kuyō (モノ供養, cerimônia memorial ou de agradecimento aos objetos) analisou 822 matérias publicadas no jornal Asahi Shimbun, envolvendo 104 tipos de objetos.
O estudo constatou que as cerimônias modernas são muito variadas e que muitas não possuem uma forma ritual fixa. A pesquisa também identificou forte crescimento das referências a esse tipo de cerimônia a partir da década de 1990.
Entre os objetos encontrados no levantamento estavam agulhas, bonecas, pincéis, facas, óculos e diversos instrumentos ligados a profissões e atividades humanas.
O elemento recorrente é o sentimento de kansha (感謝, gratidão) por aquilo que serviu às pessoas durante determinado período.
Como é uma cerimônia de despedida de uma máquina?
Não existe uma única fórmula. Em uma cerimônia xintoísta mais formal, porém, podem ocorrer ritos semelhantes aos realizados recentemente em Hamamatsu:
- Monta-se um pequeno altar próximo ao equipamento.
- São colocadas oferendas no altar.
- O sacerdote realiza o shubatsu (修祓, rito de purificação dos participantes, do local ou do equipamento).
- É feita a leitura ritual de uma oração xintoísta.
- Representantes da empresa realizam o tamagushi hōten (玉串奉奠, oferenda ritual de um ramo de sakaki diante da divindade).
- O equipamento pode receber ritos adicionais de purificação.
- A empresa agradece pelos anos de funcionamento e pelo trabalho realizado.
- Também pode ser feita uma oração pela segurança das pessoas responsáveis pela desmontagem ou retirada da máquina.
Na Sanko Seisaku, de Hamamatsu, houve ainda o kaitai kiyoharai (解体清祓い, purificação antes da desmontagem), realizado depois da cerimônia principal.
O ritual, portanto, não significa necessariamente realizar um “funeral para a máquina”. Ele pode reunir três elementos: gratidão pelo serviço prestado, purificação do equipamento e do local, e oração para que sua retirada ou desmontagem ocorra sem acidentes.
O caso da Sanko Seisaku
Em julho de 2026, a Sanko Seisaku realizou a cerimônia para sua antiga linha de produção de cobre, que havia operado por mais de 45 anos.
Segundo a própria empresa, um altar foi montado no local onde normalmente predominavam os sons das máquinas.
Um sacerdote realizou o shubatsu (修祓, rito de purificação dos participantes, do local ou do equipamento) e o tamagushi hōten (玉串奉奠, oferenda ritual de um ramo de sakaki diante da divindade).
Depois da cerimônia principal, foi realizado o kaitai kiyoharai (解体清祓い, purificação antes da desmontagem). Funcionários se revezaram para purificar a antiga instalação com saquê.
A empresa explicou que a cerimônia tinha dois objetivos principais: expressar gratidão à instalação pelos mais de 45 anos de funcionamento e pedir segurança durante os trabalhos de desmontagem.
O sacerdote destacou que a instalação havia funcionado por muitos anos, contribuindo para o desenvolvimento da empresa e para o trabalho e a vida das pessoas.
Funcionários relataram que a cerimônia os fez perceber que a substituição de um equipamento não representava apenas uma atualização técnica, mas também um importante marco na história da empresa.
Uma impressora que trabalhou 33 anos
Outro caso ocorreu na Tenri Jihosha, empresa de impressão da província de Nara.
Em 2025, a companhia aposentou uma impressora rotativa que funcionava desde 15 de março de 1992 e havia completado 33 anos de operação.
O presidente da empresa apertou pessoalmente, pela última vez, o botão que interrompeu o funcionamento da máquina.
Depois disso, foi realizada internamente uma cerimônia de kiyomebarai (清め祓い, rito de purificação).
O presidente utilizou sakaki (榊, árvore considerada sagrada e utilizada em rituais xintoístas) para purificar a máquina. Em seguida, outro executivo espalhou sal, e os demais participantes repetiram o gesto.
A própria empresa informou que o ritual foi realizado como expressão de gratidão e respeito pela máquina.
Nesse caso, não houve a participação de um sacerdote. A cerimônia de kiyomebarai (清め祓い, rito de purificação) foi conduzida pelos próprios funcionários.
Antes da instalação da nova impressora, a empresa realizou posteriormente outro ritual de purificação no espaço onde a antiga máquina havia funcionado.
Máquinas novas também recebem cerimônias
Os rituais relacionados a máquinas não ocorrem apenas quando equipamentos antigos são aposentados.
Há também cerimônias realizadas antes de uma máquina nova começar a funcionar, geralmente com pedidos de segurança para os operadores e de funcionamento sem acidentes.
Em 2022, por exemplo, a Motoe Tekko, empresa de Toyama especializada em usinagem de grandes componentes, chamou um sacerdote quando instalou um novo centro de usinagem de cinco eixos.
A companhia informou ter realizado um kikai kiyomebarai (機械清め祓い, rito de purificação de máquina) para pedir segurança durante a operação do equipamento e proteção aos trabalhadores.
Durante o kikai kiyomebarai (機械清め祓い, rito de purificação de máquina), o sacerdote espalhou kirinusa (切麻, pequenos pedaços de papel e fibras utilizados em determinados ritos de purificação), e o presidente e o chairman da empresa realizaram o tamagushi hōten (玉串奉奠, oferenda ritual de um ramo de sakaki diante da divindade).
Santuários oferecem esse tipo de cerimônia
O Kameyama Jinja, em Kure, província de Hiroshima, lista entre seus ritos externos o shin-kikai dōnyū harai (新機械導入祓い, purificação pela introdução de uma nova máquina).
Segundo o santuário, um altar é montado próximo ao equipamento, são colocadas oferendas e é realizado o ritual de purificação. Dependendo do tipo de máquina, a cerimônia pode terminar com sua primeira partida, acompanhada de uma oração para que opere com segurança.
O Minatogawa Jinja, de Kobe, na província de Hyogo, também oferece kikai, setsubi kiyoharai (機械・設備清祓, purificação de máquinas e equipamentos).
O santuário informa ainda que realiza cerimônias antes da retirada de grandes máquinas. Nesse caso, agradece-se pelo período em que o equipamento pôde ser utilizado sem problemas e comunica-se ritualmente sua retirada, ao mesmo tempo em que se pede segurança para os trabalhos seguintes.
Que máquinas podem receber esse tratamento?
Não há uma categoria específica de equipamentos que obrigatoriamente receba esse tipo de cerimônia.
Os exemplos documentados incluem linhas industriais de produção, impressoras rotativas, centros de usinagem e outros equipamentos de grande porte.
Santuários que realizam o kikai kiyoharai (機械清祓い, rito de purificação de máquinas) indicam que o ritual pode ser adaptado ao tipo e à função do equipamento.
Em alguns setores, máquinas permanecem em operação durante décadas. Várias gerações de funcionários podem aprender a operá-las, fazer manutenção e depender delas para a produção diária.
Nessas circunstâncias, a retirada de uma máquina pode adquirir um significado que ultrapassa a simples substituição tecnológica. O equipamento passa a fazer parte da memória da empresa e dos trabalhadores.
E robôs?
Um dos casos mais famosos ocorreu com os cães-robôs AIBO, da Sony.
Em janeiro de 2015, o templo budista Kōfukuji (光福寺, Templo da Luz e da Felicidade), na cidade de Isumi, província de Chiba, realizou a primeira cerimônia memorial coletiva para AIBOs. Participaram 17 robôs.
A iniciativa surgiu da A-Fun, empresa especializada na reparação de equipamentos eletrônicos antigos. Como algumas unidades do AIBO já não podiam ser consertadas, elas eram doadas para fornecer peças usadas no reparo de outros robôs.
Antes da retirada dessas peças, porém, os AIBOs recebiam uma cerimônia memorial budista.
Na primeira cerimônia, foram utilizadas oferendas tradicionais, como flores e frutas. A partir da segunda, ferramentas de trabalho, como alicates e instrumentos de medição, também passaram a ser colocadas no altar.
O Kōfukuji (光福寺, Templo da Luz e da Felicidade) continuou realizando cerimônias desse tipo nos anos seguintes. Em julho de 2023, por exemplo, a A-Fun informou que realizou no templo a 12ª cerimônia memorial para AIBOs, com 56 unidades.
O caso ganhou repercussão internacional porque evidencia o vínculo emocional que algumas pessoas desenvolvem com objetos tecnológicos capazes de interagir e apresentar comportamentos semelhantes aos de seres vivos.
Que tipo de empresa faz isso?
Não há evidência de que esse tipo de cerimônia seja uma prática comum em todas as empresas japonesas nem de que esteja restrita a determinado setor industrial.
Os casos documentados aparecem principalmente em ambientes nos quais máquinas e equipamentos ocupam posição central na produção e podem permanecer em funcionamento durante muitos anos.
Há exemplos em metalurgia, usinagem, impressão e outras áreas da manufatura.
Em uma fábrica, uma máquina pode trabalhar durante 20, 30 ou 40 anos. Diferentes gerações de funcionários aprendem a operá-la, realizam manutenção, resolvem problemas e dependem dela para produzir.
Por isso, a antiga ideia de agradecer aos instrumentos de trabalho encontra espaço também dentro de instalações industriais modernas.
E a ideia de que “a máquina tem alma”?
Há uma tradição cultural japonesa na qual objetos antigos podem adquirir significado espiritual ou até personalidade.
As histórias dos tsukumogami (付喪神, objetos antigos transformados em seres sobrenaturais) são uma manifestação histórica dessa ideia.
O Tsukumogami Emaki (付喪神絵巻, Pergaminho Ilustrado dos Tsukumogami) mostra utensílios descartados que se transformam em criaturas sobrenaturais.
Isso, porém, não significa que as atuais cerimônias industriais devam ser interpretadas simplesmente como prova de que os japoneses acreditam que máquinas possuem alma.
Uma pesquisa acadêmica sobre dōgu kuyō (道具供養, cerimônia memorial ou de agradecimento aos instrumentos) e mono kuyō (モノ供養, cerimônia memorial ou de agradecimento aos objetos) alerta justamente para o risco de explicar práticas tão diversas a partir de uma única concepção religiosa.
Um elemento que aparece repetidamente nas cerimônias contemporâneas é kansha (感謝, gratidão).
Isso significa que não é necessário que um trabalhador acredite literalmente que um torno, uma impressora ou outra máquina possui uma alma.
O sentimento pode ser simplesmente de reconhecimento: aquela máquina funcionou durante décadas, sustentou o trabalho diário e ajudou a empresa e seus funcionários a produzir.
Antes de desmontá-la, algumas pessoas consideram adequado agradecer.
Uma tradição que se adapta à tecnologia
A evolução dessas práticas mostra como uma ideia antiga pode acompanhar mudanças tecnológicas.
Cerimônias originalmente relacionadas a instrumentos simples continuam existindo, como o hari kuyō (針供養, cerimônia memorial das agulhas).
Ao mesmo tempo, surgiram formas contemporâneas de dōgu kuyō (道具供養, cerimônia memorial ou de agradecimento aos instrumentos), mono kuyō (モノ供養, cerimônia memorial ou de agradecimento aos objetos) e kiyomebarai (清め祓い, rito de purificação) aplicadas a máquinas industriais e até robôs.
A tecnologia mudou, mas em alguns ambientes japoneses permanece o princípio de reconhecer e agradecer àquilo que sustentou o trabalho durante muitos anos.
Foto: Canva






































