Japão registra recorde histórico de 141 bilhões de ienes em ‘fraudes especiais’

2026/02/20 09:17
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Tóquio – O Japão é um dos poucos países referidos pelos estrangeiros como um dos mais seguros no mundo. Mas a polícia do país ainda trabalha para combater uma prática criminosa que no ano passado arrecadou 141,4 bilhões de ienes. É a chamada fraude especial. Você sabe como ela funciona? Ou conhece os tipos de golpes mais aplicados no país?

Embora o relatório divulgado pela Agência Nacional de Polícia (ANP) seja preliminar, os dados são expressivos e representam o dobro do total registrado em 2024.

Mas o que é a fraude especial?

É a prática criminosa conhecida como “tokushu sagi”, e consiste na aplicação de golpes principalmente por telefone ou internet. O mais famoso é o “ore ore sagi”, em que o criminoso liga para a vítima fingindo ser um filho ou parente em apuros, pedindo dinheiro urgente para resolver um suposto acidente ou problema judicial.

Os golpistas costumam atuar em grupos organizados, com divisão clara de funções. Há quem faça as ligações, quem recolha o dinheiro e quem administre contas bancárias usadas para receber as transferências. Muitas vezes utilizam listas de dados pessoais compradas ilegalmente.

Eles criam situações de emergência para impedir que a vítima confirme a história com familiares. Também orientam a pessoa a manter segredo, alegando que a situação é delicada ou envolve a polícia.

Grande parte das vítimas tem mais de 65 anos. Muitos vivem sozinhos, o que facilita a manipulação emocional.

A polícia japonesa realiza operações frequentes contra quadrilhas de fraude especial. Diversos grupos já foram presos em Tóquio, Osaka, Fukuoka e outras províncias.

Em alguns casos, os líderes comandavam as operações a partir do exterior, inclusive do Sudeste Asiático. Houve operações conjuntas com autoridades das Filipinas e do Camboja para prender suspeitos que operavam call centers ilegais voltados exclusivamente para vítimas no Japão.

O governo do Camboja tem atuado para eliminar grupos golpistas. As autoridades interditaram 190 centros de fraude e detiveram mais de 2.500 estrangeiros suspeitos, provenientes de sete países, desde o início deste ano.

Essas quadrilhas recrutam jovens por meio de redes sociais, com promessas de ganho rápido. Alguns anúncios usam termos vagos como recebimento de encomendas ou serviço de atendimento. Muitos jovens acabam atuando como recolhedores de dinheiro, chamados de ukeko, responsáveis por buscar valores em espécie na casa da vítima.

Nos dados de 2025, em cerca de 70% dos casos os criminosos se passaram por policiais, alegando que a vítima realizou alguma operação ilegal e que precisava transferir um certo valor para uma conta bancária designada por eles. Houve casos até em que os bandidos ligavam para as vítimas, mas o número que aparecia no visor era o de delegacias reais.

O total que os bandidos levantaram em 2025 foi de cerca de 17 milhões de ienes de pessoas na faixa dos 70 anos, e de 16 milhões de ienes entre vítimas na casa dos 60 anos de idade.

Curiosamente, 75% das chamadas telefônicas, incluindo aquelas em que os impostores se passaram por policiais, foram feitas do exterior. Pessoas na faixa dos 20 aos 40 anos representaram 51% das vítimas de impostores que dizem ser da polícia.

Fraude envolvendo investimentos

É um golpe que cresceu com a popularização de plataformas online e de criptomoedas. Os criminosos costumam enviar mensagens para suas vítimas para ganhar confiança. Então começam a falar sobre investimentos que garantem altos retornos. Alguns se passam por consultores financeiros, representantes de corretoras ou especialistas em investimentos, utilizando imagens de investidores famosos.

Quando a vítima cai no golpe, ela aceita fazer transferência de valores altos para os supostos investidores aplicarem o valor por ela. Para isso, vão a um banco e costumam ser orientadas pelo celular pelos criminosos sobre como proceder. Felizmente já houve casos em que outras pessoas perceberam que idosos ao telefone diante do caixa eletrônico estavam sendo vítimas de um golpe e interromperam o processo, alertando-as.

A vítima costuma fazer várias transferências, até que, ao pedir para retirar os ganhos prometidos, os bandidos pedem o pagamento de mais uma taxa. Então ela consulta a polícia e descobre que caiu em um golpe. Muitas das vítimas perdem boa parte das economias que tinham.

Assim como na fraude especial, este crime também tem divisão de tarefas. Alguns integrantes atuam como falsos analistas, outros cuidam da parte técnica, como criação de sites e gerenciamento de contas bancárias ou carteiras digitais. Parte dessas operações também é coordenada do exterior.

Golpe do romance

O crime é conhecido internacionalmente como romance scam e também tem crescido no Japão. Ele mistura manipulação emocional com promessa de relacionamento amoroso.

O criminoso cria um perfil falso em redes sociais ou aplicativos de namoro. Muitas vezes se apresenta como militar estrangeiro, médico em missão internacional ou empresário que trabalha fora do Japão.

Após semanas ou meses de conversa, cria um vínculo afetivo com a vítima. Em seguida, surge um pedido de dinheiro, normalmente para cobrir custos de viagem, taxas alfandegárias, investimentos conjuntos ou emergências médicas.

Os criminosos visam homens e mulheres de diferentes perfis e idades, mas em geral atacam mulheres de meia-idade que acreditam estar em relacionamento sério com alguém no exterior.

Alguns grupos operam verdadeiros escritórios com vários perfis falsos ativos ao mesmo tempo. Fotos são roubadas de redes sociais de pessoas reais. Em certos casos, há ligação entre golpes de romance e fraudes de investimento, quando o suposto parceiro convence a vítima a aplicar dinheiro em uma plataforma falsa.

Assim como em outros esquemas, parte dos envolvidos é atraída por promessas de ganhos rápidos. Jovens podem ser usados para abrir contas bancárias, alugar imóveis ou receber cartões SIM em nome próprio.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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