Alertas de terremoto não aumentaram preparação da população no Japão, revela pesquisa

Tóquio – Os alertas emitidos pelo governo japonês sobre a possibilidade de um grande terremoto na Fossa de Nankai não provocaram mudanças duradouras nos hábitos de prevenção da população. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Kansai revelou que, mesmo depois das advertências oficiais, grande parte dos moradores não reforçou de maneira permanente os preparativos domésticos para enfrentar um desastre.
O estudo, divulgado na quinta-feira (5) pela agência Kyodo News, foi conduzido por uma equipe liderada pelo professor Yoshinari Hayashi, especialista em prevenção de terremotos da Universidade de Kansai.
Os pesquisadores realizaram cinco levantamentos entre julho de 2023 e dezembro de 2025, reunindo aproximadamente 14 mil respostas de moradores de diferentes regiões do Japão, incluindo as províncias de Shizuoka, Aichi e Osaka.
A pesquisa acompanhou a evolução de 18 medidas preventivas, entre elas o armazenamento de água potável e a fixação de móveis para impedir que tombem durante um terremoto.
Os resultados mostraram que, apesar da preocupação provocada pelas advertências, o percentual de moradores que adotaram medidas de segurança apresentou poucas mudanças duradouras.
Estoques de água aumentaram, mas depois diminuíram
Um dos exemplos identificados pelos pesquisadores foi o armazenamento doméstico de água potável.
Antes da emissão do alerta especial de agosto de 2024, 53,8% dos entrevistados afirmavam manter reservas de água para situações de emergência.
Depois da advertência, o percentual ultrapassou 60%, indicando que parte da população havia reagido ao comunicado governamental. Mas, nos levantamentos posteriores, a proporção diminuiu para 57,2%.
Embora o resultado final ainda seja superior ao registrado inicialmente, a redução indica que parte dos moradores não manteve os preparativos realizados durante o período de maior preocupação.
A pesquisa também considerou as advertências emitidas em janeiro de 2025, quando a Agência Meteorológica do Japão voltou a divulgar informações extraordinárias relacionadas à atividade sísmica na região da Fossa de Nankai.
Para Hayashi, um dos problemas está na maneira como as autoridades transmitem as informações à população.
O pesquisador considera que as orientações oficiais podem ser vagas e defende que o governo indique de maneira mais objetiva quais medidas devem ser priorizadas para proteger vidas.
Alertas foram emitidos em 2024 e 2025
O primeiro alerta extraordinário relacionado à Fossa de Nankai foi emitido em 8 de agosto de 2024, depois de um terremoto de magnitude 7,1 atingir a região de Hyuga-nada, na costa da província de Miyazaki.
Na ocasião, a Agência Meteorológica do Japão informou que a possibilidade relativa de ocorrência de um grande terremoto na região havia aumentado em comparação com as condições habituais.
A advertência provocou preocupação em diversas províncias, levou moradores a comprar água e alimentos e motivou a adoção de medidas preventivas por empresas e autoridades locais.
O governo encerrou o período especial de atenção uma semana depois, mas ressaltou que o risco de um grande terremoto não havia desaparecido.
Em janeiro de 2025, outro terremoto na região de Hyuga-nada levou à divulgação de informações extraordinárias. Entretanto, a avaliação das autoridades não identificou condições que justificassem a emissão de um alerta de aumento do risco de um megaterremoto.
A Fossa de Nankai é uma região de encontro de placas tectônicas que se estende pelo fundo do Oceano Pacífico, ao longo da costa sul do Japão.
Historicamente, essa região produziu grandes terremotos, alguns acompanhados de tsunamis devastadores.
Entre as áreas consideradas vulneráveis estão Shizuoka, Aichi, Mie, Wakayama, Tokushima, Kochi e outras províncias do litoral japonês.
Governo faz novo pedido à população
A divulgação da pesquisa ocorre poucos dias depois da inauguração da Agência Nacional de Gestão de Desastres, em 2 de novembro, criada para fortalecer a prevenção e a resposta a grandes emergências.
Na ocasião, o ministro responsável pela prevenção de desastres, Goshi Hosono, divulgou uma solicitação especial para que os moradores reforcem os preparativos antes da ocorrência de terremotos e outras catástrofes.
O governo considera que, em desastres de grandes proporções, as equipes de socorro poderão enfrentar dificuldades para chegar rapidamente a todas as regiões atingidas.
Por isso, recomenda que cada residência mantenha alimentos e água suficientes para pelo menos três dias, preferencialmente para uma semana.
A quantidade de água recomendada é de três litros por pessoa diariamente, considerando tanto o consumo direto quanto o preparo de alimentos.
Dessa maneira, uma família de quatro pessoas precisaria armazenar pelo menos 36 litros para três dias ou 84 litros para uma semana.
Também são recomendados alimentos de longa conservação, medicamentos, lanternas, rádios portáteis, baterias, banheiros de emergência e outros produtos indispensáveis.
Além dos estoques, o governo orienta os moradores a fixar armários, estantes e aparelhos que possam tombar, verificar as condições de segurança das residências e conhecer antecipadamente as rotas de evacuação.
Preparação precisa ocorrer antes dos alertas
A Agência Meteorológica do Japão ressalta que os terremotos podem ocorrer sem que seja possível emitir uma advertência antecipada.
As informações extraordinárias sobre a Fossa de Nankai não representam uma previsão da data ou do local de um grande terremoto.
Elas são divulgadas quando determinados fenômenos sísmicos ou alterações na crosta terrestre exigem uma avaliação especial.
Dependendo dos resultados, as autoridades podem recomendar maior atenção ou, nas áreas mais vulneráveis a tsunamis, a evacuação preventiva por determinado período. Entretanto, a ausência de um alerta não significa que o risco seja inexistente.
Por isso, a orientação é manter os preparativos permanentemente, em vez de começar a armazenar alimentos e água apenas quando uma advertência for divulgada.
Brasileiros também precisam estar preparados
A questão é especialmente importante para a comunidade brasileira residente em Aichi, Shizuoka e outras regiões que poderão ser afetadas por um grande terremoto na Fossa de Nankai.
Além dos preparativos domésticos, os estrangeiros precisam conhecer os procedimentos de evacuação estabelecidos pelas prefeituras onde vivem.
É importante verificar antecipadamente a localização dos abrigos, as áreas sujeitas a tsunamis, os caminhos para chegar a locais seguros e os meios de comunicação disponíveis durante uma emergência.
Famílias com crianças, idosos ou pessoas que necessitam de medicamentos contínuos devem considerar essas necessidades ao organizar os estoques.
Outro cuidado é estabelecer um plano de comunicação entre familiares, principalmente porque os serviços de telefonia e internet poderão apresentar interrupções depois de um terremoto de grande magnitude.
O levantamento da Universidade de Kansai mostra que o desafio das autoridades japonesas não consiste apenas em alertar a população sobre os riscos, mas também em conseguir que as medidas preventivas sejam mantidas ao longo do tempo.
Fontes: Kyodo News, Agência Meteorológica do Japão, Agência Nacional de Gestão de Desastres.
Foto: Canva







































