A rotina brutal das ‘mulas’: 30 horas de silêncio, cápsulas e prisão no Japão – Parte Final

Tóquio – Uma viagem do Brasil para o Japão pode durar mais de 30 horas, dependendo da rota. E esse é o tempo — ou até um pouco mais — que as chamadas "mulas", pessoas que contrabandeiam drogas, são obrigadas pelos traficantes a ficar sem beber água ou se alimentar. A informação é do intérprete judicial Luiz Nakano, com base em mensagens obtidas do WhatsApp dos detidos na Alfândega.
Antes do embarque, no Brasil, as mulas tomam um medicamento que, de alguma forma, prende o intestino, como é o caso de Loperamida ou Lactase, segundo o intérprete. Em seguida, engolem cápsulas com cocaína e recebem ordens explícitas para não ingerirem água nem comida durante o voo, incluindo a escala também, podendo fazê-lo apenas ao chegarem ao hotel já determinado no Japão onde irão evacuar.
“Os comissários de bordo também são agentes de segurança treinados para situações emergenciais. Ao atender os passageiros durante o voo, observam tudo o necessário para um voo seguro. Assim, aqueles que recusam as ofertas de água, bebidas e refeições podem despertar preocupações. Às vezes, trata-se apenas de alguém indisposto. Na dúvida, o passageiro passa pelo raio-X.
“Mas se o oficial da Alfândega notar inconsistência ou contradição nas declarações, ele solicitará que passe pelo raio-X. Se nada for encontrado, é liberado. Caso contrário, se “corpos estranhos” forem detectados, a pessoa é notificada do grave risco de vida que corre e é sugerido que acompanhe os oficiais imediatamente ao hospital com consentimento da própria pessoa”, esclarece Nakano.
“Mula como boi de piranha”
"As organizações de narcotráfico internacional não toleram prejuízos, traidores e pessoas que lhes causem problemas. Eles podem delatar uma mula para proteger muitas outras", diz o intérprete. Foi o caso da senhora Ana (nome fictício para preservar sua identidade), mencionada na primeira parte desta matéria. Nakano diz que ela, da forma como foi divulgado pela TV TBS, pode ter sido vista como uma “mula descartável” pela organização.
Em princípio, Ana negou todas as suspeitas e acusações, porém após ser entrevistada pelo seu advogado de defesa e o próprio Nakano, decidiu confessar os verdadeiros fatos, chegando a mencionar que aquela não foi a sua primeira viagem como mula.
Penas severas e a realidade na prisão
Uma mula que traz até 1 kg de cocaína pode pegar até 10 anos de prisão e pagar multa de ¥ 3 milhões, se o juiz seguir a recomendação da Promotoria.
A defesa geralmente tenta reduzir a pena com atenuantes: mostra o arrependimento da mula, apresenta atestado de bons antecedentes e depoimentos emocionados da família. “Esses elementos podem ajudar a aliviar a sentença no tribunal”, aponta Nakano.
Mesmo com uma pequena quantidade de droga apreendida, o Ministério Público atua com rigor. “O promotor indicará a quantidade de cápsulas que a mula contrabandeou, seu valor de mercado e o número estimado de pessoas que poderiam ser afetadas por aquele volume de droga”, explica.
Muitas mulas acham que se forem pegas no aeroporto, serão detidas por apenas 20 dias e depois serão deportadas. “Mas, ao passar pela zona de controle do aeroporto, já estão importando droga. Isso configura o crime”, esclarece Nakano.
Ao cumprir a pena, elas saem extremamente magras. A alimentação nas prisões é baseada em arroz, missoshiro (sopa de miso) e nattou (soja fermentada), servidos três vezes ao dia, com carne apenas ocasionalmente. “Mesmo com o acordo de extradição entre Brasil e Japão, nenhuma das mulas optou por cumprir a pena no Brasil”, comenta Nakano.
Outro ponto citado por Nakano é que as mulas não sabem falar japonês e na penitenciária obviamente não haverá intérpretes para ajudá-las. "Lá as mulas vão ter que aprender tudo com os oficiais gritando com elas, até entenderem o que têm que fazer. É mais uma experiência traumática", garante.
Ao fim do julgamento, além da pena de prisão, o juiz impõe uma multa — por tentativa de entrada ilegal de droga, que é crime fiscal. Se a mula não tiver como pagar, deverá continuar presa, trabalhando em oficinas da penitenciária até quitar o valor.
Quem é Luiz Nakano?
Luiz Sussumu Nakano é referência em interpretação judicial no Japão. Atua há mais de 30 anos na Corte Superior de Tóquio, com mais de 1.500 processos envolvendo estrangeiros, especialmente brasileiros.
Certificado pelo Instituto de Pesquisa de Assuntos Jurídicos de Tóquio, ligado ao Ministério da Justiça japonês, Nakano lançou recentemente o livro "O Colecionador de Crimes", no qual compartilha sua vasta experiência no sistema judiciário do país e analisa casos emblemáticos envolvendo estrangeiros.
A obra aborda, com sensibilidade e profundidade, os desafios culturais e legais enfrentados por não japoneses no arquipélago. Adquira o seu aqui: https://portaljapao.com/produto/o-colecionador-de-crimes-luiz-nakano/
Além de escritor, Nakano também realiza palestras sobre criminalidade, cultura e sistema judiciário, com destaque para os latino-americanos no Japão.
Foto: Banco de Imagens







































