Sanseito, estrangeiros e liberdade de expressão dividem estudantes da Universidade de Tóquio

2026/06/12 10:39
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Tóquio - O cancelamento de uma palestra do líder do partido Sanseito na Universidade de Tóquio, após uma ameaça anônima de bomba no campus, expôs uma discussão maior do que o próprio incidente de segurança. Apesar do susto e da irritação provocados pelo episódio, a reação de estudantes japoneses revelou uma posição mais complexa: eles não parecem defender a censura ao polêmico partido, mas também rejeitam que a liberdade de expressão seja usada como pretexto para transformar estrangeiros em ameaça coletiva.

A palestra de Sohei Kamiya estava programada para o dia 16 de maio, no tradicional Festival de Maio (五月祭, Gogatsusai). A comissão organizadora do evento informou que recebeu uma ameaça de bomba contra os campi de Hongo e Yayoi e contra o grupo estudantil responsável pela palestra, o 右合の衆 (Ugo no Shū), algo como “grupo da direita reunida”. Após consulta à direção da universidade e à polícia, a palestra e outras atividades previstas para o dia foram canceladas.

O jornal estudantil Todai publicou que não havia indícios de relação entre os estudantes que fizeram um protesto contra a presença de Kamiya e a ameaça de bomba.

Opinião dos alunos

O caso foi relatado pelo Gendai Business, que destacou que em termos políticos a comunidade universitária não aparece como um bloco homogêneo. As opiniões se dividiram entre estudantes que criticam duramente o Sanseito e outros que defendem a realização da palestra como princípio de liberdade de expressão. Mesmo entre os críticos, não surgiram propostas de bloquear ou intimidar o líder do partido.

Apesar de a palestra não ter sido realizada, as posições do Sanseito são amplamente conhecidas, especialmente após a eleição antecipada de fevereiro deste ano, na qual o partido conquistou mais cadeiras na Câmara dos Representantes, no Parlamento. A partir daí, o Gendai Business questionou: “É apropriado oferecer espaço para uma palestra ao Sanseito, partido criticado por repetir discursos considerados discriminatórios? Por outro lado, excluir o Sanseito não significaria prejudicar a liberdade de expressão?”

O site ouviu estudantes sobre o assunto. Um deles comentou que “o Sanseito levanta questões que tocam a base da própria forma de existência do país e força a população a um debate profundo. Não parece ser algo que se possa apenas observar ou ignorar.”

Um aluno do quarto ano de Economia comentou: “Não gosto do Sanseito porque sua postura é anticientífica, mas acho positivo que ele faça uma palestra”, enquanto outro disse: “É valioso poder ouvir a opinião de un político, seja de que forma for.”

Já na Faculdade de Letras, os comentários foram: “Tenho a impressão de que o Sanseito une ocultismo e xenofobia sob o nome de direita, incitando pessoas conservadoras.” Outro aluno disse: “Uma pessoa que brandisse sua lança de forma indiscriminada sem deixar que as críticas dos outros penetrassem em sua própria pele não está no palco do debate, nem sequer tenta estar. Por isso, tenho muita dúvida sobre qual seria o significado ‘educacional’ de colocar alguém assim no palco por curiosidade. Ainda assim, ao menos como um evento dentro do Festival de Maio, acho que conseguiu, ou acabou conseguindo, gerar assunto.”

Outro estudante também comentou sobre o assunto: “Como opinião pessoal, sou contra. No entanto, também sou contra tentar impedir a palestra por meios radicais.”

O Gendai concluiu que, após ouvir os alunos, ficou claro que cada um lida com o assunto de forma individual, mas que o ponto em comum foi a ausência de vozes defendendo oposição à palestra por meios radicais.

Discurso contra estrangeiros?

Kamiya nega que ele ou o partido tenham uma posição discriminatória. Após o cancelamento da palestra, ele concedeu uma entrevista coletiva na qual afirmou que o tema dos estrangeiros quase não faria parte da apresentação. Ele acrescentou que o Sanseito não defende a exclusão de estrangeiros, mas sim regras e limites para a entrada de mão de obra estrangeira, considerada excessiva pelo partido.

O problema é que o próprio material oficial do Sanseito usa a expressão “problema dos estrangeiros” (外国人問題, gaikokujin mondai) e lista propostas como a criação de uma Agência de Política Geral para Estrangeiros (外国人総合政策庁, gaikokujin sōgō seisakuchō), regulação da aquisição de imóveis por estrangeiros, endurecimento do controle de imigração, revisão dos status de residência e de vistos, medidas contra a “piora da segurança pública”, proibição do pagamento de assistência social (生活保護, seikatsu hogo) a estrangeiros, revisão dos requisitos de uso do seguro médico por estrangeiros e discussão sobre subsídios a escolas privadas e bolsas para estudantes estrangeiros (留学生, ryūgakusei).

O partido apresenta a proposta de “Japoneses em primeiro lugar” (日本人ファースト, Nihonjin fāsuto) como uma agenda de revisão do globalismo, de prioridade à soberania nacional e de defesa da vida dos cidadãos japoneses. Mas críticos do Sanseito veem nessa retórica o risco de associar estrangeiros, de forma generalizada, a problemas de segurança, custo social e perda de ordem pública.

O slogan “Japoneses em primeiro lugar” funciona politicamente porque é simples, emocional e fácil de adaptar a diferentes discursos. Para apoiadores, pode significar prioridade nacional. Para críticos, pode soar como hierarquização de direitos e como tentativa de colocar estrangeiros em posição inferior dentro da sociedade japonesa.

Dados para analisar

O Sanseito cresceu na eleição antecipada de fevereiro, e o discurso do partido encontrou espaço entre eleitores insatisfeitos, especialmente ao associar imigração, segurança pública, custo social e identidade nacional.

Mas a realidade japonesa é mais complexa do que esse discurso sugere.

A Agência de Serviços de Imigração informou que, no fim de 2025, o Japão tinha mais de 4,12 milhões de estrangeiros residentes (在留外国人, zairyū gaikokujin), uma alta de 9,5% no ano e recorde histórico.

O Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar informou que, em outubro de 2025, o país tinha 2,57 milhões de trabalhadores estrangeiros, também um recorde. A presença de estrangeiros também cresceu na área da educação. Em maio de 2025, o Japão tinha 408.069 estudantes estrangeiros, alta de 21,2% em relação ao ano anterior. A maioria veio de China, Nepal, Vietnã, Mianmar e Sri Lanka.

Mas a crise demográfica no Japão projeta um déficit de 11 milhões de trabalhadores até 2040. Para sustentar a atividade econômica anual planejada pelo governo, o país precisará de mais 6,74 milhões de trabalhadores estrangeiros nos próximos 15 anos. Ou seja, além dos atuais 2,57 milhões, necessitará de mais 4,17 milhões.

Os setores mais críticos são manufatura, que concentra o maior volume de mão de obra estrangeira, cuidados de saúde e enfermagem, construção civil, logística e transportes. Essa lógica é defendida pela Federação de Negócios do Japão, a poderosa Keidanren, que lidera a pressão política para que o governo ofereça caminhos claros de residência permanente e integre o talento estrangeiro como parte da estratégia econômica de longo prazo.

Estudos feitos pelo Jica Ogata Sadako Research Institute mostram que, mesmo com investimentos maciços em automação e inteligência artificial, o país não terá pessoas em idade ativa suficientes para ocupar as vagas no mercado. Mesmo usando essas tecnologias, elas seriam capazes de resolver apenas 41% do déficit.

Compromisso da universidade

A Universidade de Tóquio tem em sua própria carta institucional o compromisso de garantir que seus membros não sejam discriminados por nacionalidade, idioma, religião, opinião política, origem, condição familiar, deficiência, doença ou histórico. A instituição também afirma defender um espaço intelectual aberto ao mundo e livre de discriminação.

Essa posição ajuda a explicar a tensão criada pelo episódio. A universidade valoriza a liberdade acadêmica e a diversidade, mas se viu diante da presença de um político acusado por críticos de normalizar suspeitas contra estrangeiros. Kamiya só não palestrou por causa da ameaça de bomba.

Apesar do avanço de discursos contra estrangeiros no debate político japonês, o país tem a Lei de Eliminação do Discurso de Ódio (ヘイトスピーチ解消法, Heito Speechi Kaishōhō), que declara que falas discriminatórias contra pessoas de origem estrangeira não são aceitáveis e devem ser combatidas por meio de educação e conscientização. O Ministério da Justiça considera problemáticos discursos que incitam expulsão, agressão ou inferiorização de grupos por nacionalidade ou etnia.

Estrangeiros e segurança pública

Um dos discursos que colocam estrangeiros no centro do problema é o da segurança pública. A lógica é simples: quanto mais estrangeiros vivem no país, maior seria a insegurança. Mas os dados exigem uma análise mais cuidadosa.

A Agência Nacional de Polícia registrou aumento nos crimes praticados por estrangeiros em 2024, especialmente furtos envolvendo vietnamitas e cambojanos, além de delitos relacionados a drogas envolvendo filipinos e tailandeses.

Mas dizer que estrangeiros estão destruindo a segurança do Japão é uma simplificação perigosa.

Segundo o Japan FactCheck Center, os números variam conforme a base usada, a entrada de estrangeiros também cresceu muito após a pandemia e a sensação de insegurança pode ser influenciada por mídia e redes sociais, mesmo quando a experiência local não muda na mesma proporção.

Ou seja, uma política pública séria sobre segurança precisa lidar com crimes reais sem criminalizar nacionalidades inteiras.

Apoio de jovens

Há indícios de que o Sanseito ganhou apoio entre jovens eleitores e setores conservadores descontentes. Uma pesquisa com 2.041 pessoas revelou que os eleitores do partido se concentram mais entre 20 e 40 anos, e que a variável mais evidente não é sexo, renda ou escolaridade, mas idade e posição conservadora, segundo análise de Tatsuo Tanaka, da Universidade de Comércio de Yokohama.

O cenário mostra que o Sanseito tenta ampliar sua presença também em ambientes acadêmicos e entre jovens politicamente engajados. O partido parece explorar canais e temas que partidos tradicionais muitas vezes tratam com mais cautela, como imigração, identidade nacional, segurança e crítica ao globalismo.

O episódio na Universidade de Tóquio mostra que parte dos universitários japoneses não quer simplesmente silenciar o Sanseito. Ao mesmo tempo, também não aceita que o debate sobre liberdade de expressão seja usado para normalizar a ideia de que estrangeiros são uma ameaça coletiva.

No fundo, a polêmica revela uma disputa maior dentro do Japão atual: como discutir imigração, segurança e identidade nacional sem transformar trabalhadores, estudantes e famílias estrangeiras em bode expiatório para problemas que o próprio país ainda não conseguiu resolver.

Foto: Reprodução/Japan Forward
Sohei Kamiya, líder do partido Sanseito

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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