Robôs correm mais rápido que Bolt, mas ainda estão longe de superar os humanos

2026/08/28 10:39
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China — Os robôs humanoides já conseguem superar o recorde mundial de Usain Bolt nos 100 metros rasos em competições próprias para eles, como ocorreu no Mundial de Robôs Humanoides, realizado recentemente em Pequim, na China. Apesar disso, as máquinas ainda estão longe de se situar acima dos seres humanos quando se considera o conjunto de capacidades físicas, cognitivas e de adaptação.

Nas eliminatórias dos 100 metros, o Tiangong Ultra (天工 Ultra), desenvolvido pelo Beijing Humanoid Robot Innovation Center, ligado à X-Humanoid, registrou 9,39 segundos, sendo mais rápido do que os 9,58 segundos do jamaicano Usain Bolt, em seu recorde mundial masculino dos 100 metros desde 2009, noticiaram a NHK e o Yomiuri.

O resultado chama ainda mais a atenção porque, na primeira edição dos Jogos, em 2025, o Tiangong Ultra havia vencido os 100 metros com 21,50 segundos. Em apenas um ano, portanto, o melhor desempenho caiu para menos da metade desse tempo.

No Mundial de Pequim, o robô Lightning, desenvolvido pela fabricante chinesa Honor, também foi mais rápido que a marca registrada por Bolt em outras competições, com 9,47 segundos. Pouco antes da abertura dos Jogos, ele havia percorrido os 100 metros em 9,32 segundos durante um teste preparatório, atingindo velocidade máxima de 14,5 metros por segundo, o equivalente a cerca de 52,2 km/h.

Apesar dos números, nenhum deles tomou oficialmente o recorde mundial de Bolt. As marcas humanas reconhecidas pela World Athletics são obtidas sob regras, equipamentos, condições e critérios próprios do atletismo. Assim, o correto é dizer que os robôs percorreram 100 metros em tempos inferiores ao recorde mundial humano, e não que quebraram oficialmente o recorde de Bolt.

O desempenho nas pistas mostrou também uma das atuais limitações das máquinas: desacelerar depois de atingir altas velocidades. Depois de completarem a prova, alguns robôs avançaram contra grandes proteções acolchoadas instaladas no final da pista.

Um deles pegou fogo depois de terminar uma eliminatória dos 100 metros, enquanto outros quebraram. Fotografias da Reuters mostram funcionários e um bombeiro utilizando extintores para apagar as chamas.

Os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides chegaram neste ano à segunda edição. Organizada pelo governo municipal de Pequim e por outras entidades, a competição ocorre no Estádio Nacional de Patinação de Velocidade, utilizado nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim de 2022.

Mais de 2 mil robôs de 666 equipes e 16 países participam das disputas. Foram 51 modalidades e tarefas, incluindo corridas, levantamento de peso, cabo de guerra, futebol, tênis de mesa e atividades que simulam situações de trabalho. O número de participantes foi cerca de quatro vezes maior que o registrado na edição anterior.

Outros feitos de robôs

Um dos feitos mais impressionantes ocorreu fora dos atuais Jogos. Em 19 de abril de 2026, o humanoide Lightning (闪电, Shǎndiàn, “Relâmpago”), da Honor, venceu a categoria de navegação autônoma da meia maratona para robôs humanoides de Pequim com o tempo de 50min26s nos 21,0975 quilômetros.

Na época, o recorde mundial masculino entre humanos era de 57min20s, estabelecido pelo ugandense Jacob Kiplimo em Lisboa, em 8 de março.

Essa marca humana, porém, foi superada em 23 de agosto. O etíope Yomif Kejelcha correu a meia maratona de Buenos Aires em 56min51s, resultado anunciado pela World Athletics como novo recorde mundial, ainda sujeito ao procedimento habitual de ratificação. Mesmo em comparação com essa nova marca, o Lightning foi 6min25s mais rápido.

Existe uma particularidade importante nessa comparação. Na prova de Pequim, havia duas categorias: navegação autônoma e controle remoto. O robô controlado remotamente mais rápido cruzou a linha em 48min19s, mas recebeu um coeficiente de 1,2 no resultado por causa das regras. Assim, o título ficou com o Lightning de navegação autônoma, com 50min26s. Cerca de 40% das equipes competiram com navegação autônoma.

A evolução em um ano foi enorme. Em abril de 2025, o Tiangong Ultra venceu a primeira meia maratona do gênero em 2h40min42s. Em 2026, o melhor robô autônomo precisou de apenas 50min26s.

Embora a distância seja a mesma percorrida pelos atletas humanos, as condições e regras não são equivalentes. O feito demonstra principalmente avanços em velocidade, equilíbrio, navegação, autonomia, gerenciamento de energia e controle térmico.

Salto de 2,88 metros

Outro número chamou a atenção na abertura dos Jogos deste ano. Um humanoide da X-Humanoid atingiu 2,88 metros em uma prova de salto vertical parado. Na edição anterior, o melhor resultado de um robô na mesma modalidade havia sido de apenas 0,95 metro.

A marca foi imediatamente comparada aos 2,45 metros do recorde mundial masculino do salto em altura, estabelecido pelo cubano Javier Sotomayor em 1993. Mas as duas provas não são equivalentes.

No salto em altura do atletismo, o competidor corre, impulsiona-se e precisa ultrapassar um sarrafo colocado horizontalmente sem derrubá-lo. A prova dos robôs é um salto vertical parado, com outro método de medição.

Assim, não significa que um humanoide tenha realizado um salto em altura regulamentar de 2,88 metros. O que se pode afirmar é que a altura registrada numericamente na prova dos robôs foi superior aos 2,45 metros do recorde humano do salto em altura.

Robôs entrando na faixa dos atletas humanos

O desenvolvimento da velocidade dos humanoides já vinha ocorrendo antes dos resultados registrados neste ano.

Em 2024, a chinesa Unitree anunciou que seu H1 havia atingido a velocidade de deslocamento de 3,3 metros por segundo, considerada na época pela empresa um recorde para um humanoide de tamanho completo. A fabricante indicava ainda potencial superior a 5 metros por segundo.

Posteriormente, a Unitree informou que o H1 chegou a superar os 5 metros por segundo.

Os robôs deste ano estão em outra categoria de velocidade. No teste em que percorreu os 100 metros em 9,32 segundos, o Lightning chegou a 14,5 metros por segundo, cerca de 52,2 km/h.

Para efeito de comparação, Bolt teve velocidade média de aproximadamente 10,44 metros por segundo nos 100 metros de seu recorde de 9,58 segundos. Sua velocidade instantânea máxima durante a corrida foi maior que essa média.

Acrobacias semelhantes às humanas

Outro avanço menos fácil de transformar em recorde, mas bastante significativo, está nos movimentos acrobáticos.

O Atlas, desenvolvido pela norte-americana Boston Dynamics, já demonstrou capacidade de correr, saltar obstáculos, executar parkour e realizar saltos mortais para trás.

A empresa explica que essas demonstrações não têm apenas objetivo visual. O parkour é utilizado para desenvolver locomoção dinâmica, percepção do ambiente, equilíbrio, controle do corpo e capacidade de transição entre diferentes movimentos.

Apesar disso, ginastas e praticantes de parkour ainda apresentam variedade de movimentos, adaptação ao ambiente e improvisação muito superiores às dos robôs.

Tênis de mesa chega ao nível humano amador

Em um trabalho realizado por pesquisadores do Google DeepMind, um sistema robótico enfrentou 29 jogadores humanos de diferentes níveis no tênis de mesa.

O robô venceu todas as partidas contra jogadores classificados como iniciantes, 55% das disputas contra adversários de nível intermediário e 13 das 29 partidas no total, o equivalente a 45%.

Contra os jogadores mais avançados, porém, perdeu todas as partidas. Os próprios pesquisadores classificaram o resultado como desempenho equivalente ao “nível humano amador”.

Há uma ressalva: esse sistema não é um humanoide completo. Ele utiliza um braço robótico montado sobre uma estrutura capaz de movimentá-lo diante da mesa.

Mais recentemente, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley desenvolveram o HITTER, um sistema que utiliza um robô humanoide de uso geral para jogar tênis de mesa.

Em testes, ele chegou a realizar uma sequência de 106 golpes consecutivos com um adversário humano e também conseguiu manter trocas de bola com outro robô humanoide. O sistema combina previsão da trajetória da bola, planejamento da rebatida e controle do corpo inteiro. Mesmo assim, não está no nível dos melhores jogadores humanos.

Robôs humanoides na Copa do Mundo?

Em partidas de futebol, os robôs já conseguem identificar e perseguir a bola, fazer passes, chutar, marcar gols, atuar coletivamente e levantar depois de quedas.

Mas continuam muito abaixo dos jogadores humanos em velocidade de reação, improvisação, controle corporal, capacidade de interpretar situações inesperadas e estratégia.

A própria RoboCup mantém como objetivo de longo prazo desenvolver, até 2050, uma equipe de robôs humanoides totalmente autônoma e capaz de derrotar a seleção humana campeã mundial de futebol.

O fato de esse objetivo ainda estar projetado para 2050 ajuda a mostrar a distância que permanece entre as demonstrações atuais e a capacidade geral de uma pessoa.

Atividades humanas ainda são um desafio

Filmes de ficção científica há décadas mostram humanoides convivendo com as pessoas, realizando tarefas domésticas e profissionais e liberando os seres humanos para outras atividades. Mas longe das telas, a realidade ainda é bastante diferente.

Mesmo robôs capazes de correr em velocidades impressionantes podem encontrar dificuldades diante de tarefas aparentemente simples para uma pessoa, principalmente quando precisam manipular objetos variados, enfrentar situações que não estavam previstas ou alternar rapidamente entre várias atividades.

Essa diferença revela uma característica importante do atual estágio da robótica. Uma máquina pode ser extraordinariamente eficiente quando projetada e treinada para executar uma tarefa específica e, ao mesmo tempo, ser muito inferior a um ser humano diante de uma situação nova.

Assim, apesar do avanço acelerado da tecnologia e dos resultados surpreendentes alcançados nas pistas, ainda não é possível afirmar que os robôs humanoides trabalham ou funcionam melhor que os seres humanos de maneira geral.

Por enquanto, eles já conseguem nos superar em algumas tarefas muito específicas. A versatilidade, a adaptação e a capacidade de lidar com situações inesperadas continuam sendo uma enorme vantagem humana.

Foto: Reprodução/NHK

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