Por que o Japão, que odeia desperdício, ainda joga fora tanta comida e tanto plástico?

Tóquio - Neste dia 5 de junho é celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente (世界環境デー, Sekai Kankyō Dē), data definida pelas Nações Unidas a partir de uma proposta do Japão. Os japoneses não celebram apenas o dia, mas também o Mês do Meio Ambiente (環境月間, Kankyō Gekkan), período em que órgãos públicos, prefeituras, empresas e entidades privadas realizam ações de conscientização ambiental até o dia 30. Porém, o mesmo país que valoriza a ideia de evitar desperdícios também é o da embalagem individual, da prateleira impecável e da comida descartada antes de estragar.
Neste ano, a campanha do Dia Mundial do Meio Ambiente será sediada no Azerbaijão, com foco nas ações climáticas, nas mudanças do clima, nos sinais de emergência ambiental e na necessidade de acelerar respostas práticas.
Um ponto cultural importante desta época do ano é o período da semeadura dos grãos (芒種, Bōshu), um dos 24 períodos solares do calendário tradicional japonês. Neste ano, ele começa neste sábado (6). A data reforça a relação histórica do Japão com a natureza, a agricultura, os ciclos das estações e a vida cotidiana.
O Ministério do Meio Ambiente japonês também se vale de campanhas nas mídias e nas redes sociais, pregando ações que tenham impacto no cotidiano de quem reside em áreas urbanas, como manter uma sacola reutilizável nas idas ao supermercado, preferir produtos com vencimento mais próximo quando forem consumidos logo (てまえどり, temaedori), reduzir o desperdício de comida, economizar água no banho e diminuir o consumo de energia.
Outro exemplo de medida ambiental que ganhou força no Japão são as garrafas raberuresu (ラベルレス), ou garrafas sem rótulo. A iniciativa não ficou apenas como ação simbólica, pois virou tendência comercial, principalmente em vendas por caixa, avançando depois para vendas unitárias, como têm feito várias fabricantes de bebidas, como Asahi, Suntory, Kirin e outras.
A relação do mottainai e o desperdício
Mas esse não é o ponto principal. O Japão preserva o discurso de evitar desperdício (勿体ない, mottainai), mas construiu um sistema de consumo baseado em conveniência, frescor extremo, embalagem excessiva e descarte administrado. É um paradoxo viver os dias evitando, no discurso, o desperdício, enquanto a economia cotidiana desperdiça muito com excesso de embalagens, excesso de exigência visual, excesso de conveniência e regras rígidas de circulação de alimentos.
O governo japonês costuma usar o termo mottainai ao explicar o problema do desperdício alimentar. Segundo a Agência de Assuntos do Consumidor, o país descartou 4,64 milhões de toneladas de alimentos ainda comestíveis no ano fiscal de 2023, o equivalente a cerca de 102 g por pessoa por dia, aproximadamente “um onigiri por dia”.
É como se alguém ensinasse as pessoas a não desperdiçar nem um grão de arroz, mas aceitasse um sistema no qual cada biscoito vem protegido por plástico, frutas embaladas individualmente e caixas de bentō que usam camadas de materiais descartáveis.
Quase tudo tem plástico
Quando a pessoa compra uma caixa de bolachas de chocolate, ao abrir a embalagem em casa, muitas vezes verá que cada item vem protegido por outro plástico. Em 2023, o Japão gerou 7,69 milhões de toneladas de resíduos plásticos. A Associação Japonesa de Circulação de Plástico informa que a taxa de “uso efetivo” foi de 89%, mas o dado esconde um ponto crítico: 64% foram reciclagem térmica, isto é, recuperação de energia por queima; apenas 22% foram reciclagem material, e 3%, reciclagem química.
Quando a pessoa ouve dizer que o plástico que ela descartou será reciclado, ela tende a imaginar que o item voltará como material em futuras embalagens. Mas, no Japão, uma grande parte do “uso efetivo” do plástico significa queima com recuperação de energia. Não é simplesmente descarte em aterro, mas também não é retorno pleno do material ao ciclo produtivo.
Outro ponto é que, no lixo doméstico comum, as embalagens e recipientes representam uma grande parcela dos resíduos plásticos gerais. Isso reforça que o problema não é apenas “as pessoas que não separam o lixo”; o problema nasce antes, no modelo de venda e embalagem.
É tanto plástico que o Plastic Atlas Asia indicou que o Japão estava entre os maiores emissores mundiais de resíduos de embalagens plásticas por pessoa, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, e estimou o consumo médio de 183 garrafas PET por pessoa ao ano, com 23,2 bilhões de garrafas PET no país. Mesmo considerando que são dados de referência de 2022 e não o retrato mais recente, eles ajudam a mostrar a dimensão cultural e comercial do consumo embalado.
Muitos turistas adoram publicar vídeos na internet mostrando que o Japão é um país extremamente limpo, com cenas do tipo andar de meia branca na rua e ver que ela não ficou suja. O país é visto como um lugar limpo porque o lixo desaparece rapidamente da paisagem urbana. Mas uma cidade limpa não significa baixo desperdício. Pode significar apenas que o desperdício foi bem coletado, bem separado e bem queimado.
Desperdício de alimentos
Voltando ao desperdício de alimentos, no ano fiscal de 2023 o país estimou em 4,64 milhões de toneladas a perda e o desperdício de alimentos ainda comestíveis (食品ロス, shokuhin rosu). Desse total, 2,31 milhões de toneladas vieram de empresas e 2,33 milhões de toneladas vieram de domicílios.
Não são apenas alimentos que poderiam ter sido consumidos. Também representaram uma perda econômica brutal. A Agência de Assuntos do Consumidor calculou que essa perda foi de cerca de ¥4 trilhões por ano, ou ¥31.814 por pessoa. Em emissões, esse desperdício representa cerca de 10,5 milhões de toneladas de CO₂, ou 84 kg de CO₂ por pessoa. O governo japonês compara esse desperdício ao ato de jogar fora um onigiri por pessoa todos os dias.
Conhece a regra de um terço?
O desperdício não acontece só porque consumidores ou as empresas jogam comida fora. Ele também é produzido por regras comerciais.
Existe no Japão a chamada regra de um terço (3分の1ルール, sanbun no ichi rūru). Nessa lógica, o período entre fabricação e validade é dividido em três partes, e fabricantes ou atacadistas precisam entregar o produto ao varejo antes do fim do primeiro terço. O Ministério da Agricultura japonês afirma que, sob essa regra, produtos que ainda têm muitos dias até a validade podem ficar sem destino e acabar descartados se não forem entregues dentro desse prazo inicial.
Vamos supor que um produto tenha 6 meses de prazo. As lojas no varejo podem exigir que ele seja entregue nos primeiros 2 meses. Caso passe disso, mesmo faltando 4 meses para chegar à validade, ele pode ser recusado.
Outro ponto é que muitos produtos têm prazo de melhor qualidade ou sabor (賞味期限, shōmi kigen), o que não significa necessariamente que o alimento fica perigoso no dia seguinte. Mas, quando a data é exibida em ano, mês e dia, o varejo pode rejeitar produtos por inversão de datas (日付逆転, hizuke gyakuten), isto é, quando o produto novo chega com data anterior à mercadoria já em estoque. Por isso, o governo incentiva a indicação apenas por ano e mês (年月表示, nengetsu hyōji) ou o agrupamento de datas para reduzir rejeições logísticas.
Nesse cenário, a Agência de Assuntos do Consumidor aponta outro fator cultural: no varejo, o desperdício ocorre por descompasso entre demanda e oferta e por produtos não vendidos após o prazo de venda. Além disso, consumidores internacionais e locais japoneses tendem a buscar produtos mais frescos, mesmo quando entendem a diferença entre melhor antes de (賞味期限, shōmi kigen) e consumir até (消費期限, shōhi kigen).
No aspecto geral, o desperdício não vem apenas da falta de consciência das pessoas, mas de um sistema que premia aparência, frescor máximo, prateleira cheia e segurança reputacional.
Empresas corrigindo o sistema
Em outubro de 2025, havia 377 varejistas relaxando ou planejando relaxar prazos de entrega, 365 fabricantes adotando indicação de validade mais ampla e 393 fabricantes trabalhando na extensão do prazo de validade. Isso mostra que a própria indústria reconhece que o sistema antigo produzia perdas desnecessárias.
A Seven & i, grupo da Seven-Eleven, trocou a regra de um terço pela regra de metade em certas categorias desde 2012, e expandiu essa política para alimentos processados não refrigerados no ano fiscal encerrado em fevereiro de 2023. O grupo também mudou parte dos produtos Seven Premium de validade por dia para validade por ano e mês.
A empresa também estendeu prazos de venda de produtos diários como bentō refrigerado, onigiri, massas, sanduíches e pratos prontos e acompanhamentos (惣菜, sōzai). Até fevereiro de 2025, cerca de 87% dos seus produtos originais diários tinham prazo de venda superior a 24 horas.
Já a FamilyMart criou o adesivo de olhos lacrimejantes (涙目シール, namidame shīru) para produtos próximos do prazo, usando uma mensagem emocional como “por favor, me ajude” (たすけてください, tasukete kudasai). A empresa afirma que a compra desses produtos aumentou. Após a expansão nacional, verificou aumento da compra em lojas testadas e cerca de 5% de redução no descarte em comparação anual entre abril e setembro de 2025.
A Lawson também estabeleceu a meta de reduzir o desperdício alimentar em 50% até 2030, em relação a 2018. A empresa também adotou sistemas com inteligência artificial (IA) para melhorar pedidos e descontos, além de incentivar a venda de produtos de vida curta, como bentō, onigiri, sushi e pães preparados.
O paradoxo japonês
O Japão que diz mottainai também é o Japão da embalagem individual, da prateleira impecável, da comida pronta 24 horas e da exigência por produtos visualmente perfeitos.
Isso não significa que o país não tenha consciência ambiental. Pelo contrário, o Japão tem coleta organizada, separação detalhada, tecnologia de reciclagem, campanhas públicas e empresas tentando corrigir excessos do sistema. O problema é que eficiência para administrar o descarte não é a mesma coisa que redução real do desperdício.
O desafio japonês é levar o espírito do mottainai para antes da compra, antes da embalagem, antes da prateleira cheia e antes da regra comercial que transforma alimento bom em produto rejeitado.
No fim, a pergunta não é apenas por que o Japão joga fora tanta comida e tanto plástico. A questão é: quanto do desperdício japonês nasce justamente da tentativa de oferecer conveniência, higiene, segurança e perfeição o tempo todo?
Foto: Canva






































