No Japão, até bonecas são cremadas em cerimônias budistas e xintoístas

2025/10/27 07:47
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Tóquio – No Japão, quem tem bonecas ou bichos de pelúcia guardados há muito tempo nem sempre joga esses itens velhos no lixo. Existe no país o Serviço Memorial de Boneca, em que as peças são queimadas em cerimônias budistas ou xintoístas.

A explicação está na tradição japonesa de tratar as bonecas como seres vivos, e não apenas como enfeites ou brinquedos. Com o tempo, elas envelhecem, quebram ou se desgastam, e muitas pessoas preferem não descartá-las, mas realizar uma cerimônia em sua memória, em gesto de gratidão.

Essas cerimônias de cremação acontecem em templos budistas ou santuários xintoístas. Em alguns locais, funerárias são responsáveis pela organização, como ocorre na cidade de Yao (Osaka), onde o ritual é conduzido por monges.

Envio pelo correio

Para facilitar esse aspecto da cultura japonesa, a Associação Japonesa de Bonecas recomenda o envio das bonecas ou bichos de pelúcia pelo correio, utilizando o sistema Yu-Pack, destinado aos templos ou santuários.

A entidade informa em seu site que realiza coletas durante todo o ano de bonecas indesejadas em todo o país. Esses itens são incluídos no Festival de Apreciação de Bonecas, um serviço memorial realizado anualmente no Santuário Daijingu, em Tóquio, no mês de outubro.

Os interessados devem se inscrever no site da Associação, embalar as bonecas e enviá-las para o endereço indicado. A entidade disponibiliza inclusive um kit especial para remessa de bonecas pelo correio.

O serviço, porém, tem restrições a certos tipos de peças. São aceitas bonecas de festival Hina, May, armaduras, capacetes, flâmulas, estandartes e outros itens simbólicos. Não são aceitas caixas de vidro, biombos, pedestais, ferramentas ou estátuas budistas.

No caso da Associação, o cliente paga o envio e uma taxa adicional de 5.000 ienes pela caixa, com pagamento via transferência bancária ou outro método disponibilizado pelo serviço.

Outros templos e santuários

O Santuário Yutoku Inari, na cidade de Kashima (Saga) — um dos três principais Inari do Japão —, realiza o Serviço Memorial de Bonecas. O ritual de queima é chamado “otakiage”, no qual, segundo os religiosos, a boneca é devolvida ao céu, permitindo que seja deixada sem culpa.

O valor do serviço varia conforme o local, entre 500 e 5.000 ienes por boneca, podendo ser maior. No Santuário Meiji, em Tóquio, a cerimônia ocorre no outono, e o custo por pessoa chega a 3.000 ienes.

Como as regras diferem de acordo com o templo ou santuário — especialmente quanto ao tipo e tamanho das bonecas —, é recomendável entrar em contato com antecedência.

Alguns templos realizam o serviço durante todo o ano, não apenas em datas específicas. É o caso do Jodo Shinshu, em Sapporo (Hokkaido), que possui um cemitério interno adaptado às condições climáticas. No inverno, quando a neve é intensa, as cerimônias continuam normalmente. O custo é de 5.000 ienes.

O antigo Santuário Yuki Suwa, na cidade de Yuki (Ibaraki), também aceita bonecas de diferentes materiais para cremação, com valores entre 2.000 e 25.000 ienes.

Na província de Niigata, o Templo Kokujo, fundado ainda no período Asuka, realiza cerimônias no último domingo de março e também em 4 de setembro. O preço varia conforme a quantidade: 5.000 ienes por duas bonecas, 10.000 ienes por três, podendo ser superior em alguns casos.

Uma lista completa de templos e santuários que oferecem esse tipo de serviço pode ser consultada nos sites: otakiagejinja.com e ningyo-kyokai.or.jp

Quando é o momento certo para a cerimônia

Não existe um prazo definido para enviar bonecas a esses serviços memoriais, mas há situações simbólicas em que a decisão costuma ser tomada — como após a formatura dos filhos no ensino médio ou na faculdade, ou quando a pessoa que possui as bonecas atinge a vida adulta.

As bonecas dos festivais Hina e May, usadas em orações dos pais pelo crescimento e proteção dos filhos, também são encaminhadas à cerimônia quando cumprem seu propósito. De acordo com a tradição japonesa, o ato deve ser feito com gratidão e respeito, reconhecendo o papel simbólico das bonecas ao longo da vida familiar.

Foto: Banco de Imagens

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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