Metade das famílias tem renda inferior a ¥2,5 milhões em um Japão cada vez mais pobre

Tóquio — Mais da metade das famílias japonesas têm renda anual de até ¥ 2,5 milhões antes do pagamento de aposentadorias e de outros benefícios sociais, em um país onde os salários perderam poder de compra, o número de idosos fora do mercado de trabalho aumenta e os rendimentos familiares diminuem.
Os dados fazem parte de uma análise do escritor Akira Tachibana, publicada pelo site President Online com base no livro “Poor Japan: Estratégias de capital para sobreviver em um mundo inflacionário”, lançado pela President Inc.
O texto foi publicado até agora em duas partes. Na primeira, o artigo recebeu o título “¥ 1 milhão se transformou em ¥ 11,18 milhões em 13 anos”, no qual Akira Tachibana ensina como aumentar o patrimônio de forma constante em um país onde as pessoas empobrecem simplesmente por continuar vivendo. A segunda parte tem o título “Famílias com renda inferior a ¥ 2,5 milhões representam 51,3%”, que trata sobre “a verdade que não pode ser dita sobre o Japão, onde todos empobreceram igualmente”.
Nos dois textos, Tachibana descreve um país que deixou para trás décadas de deflação, mas entrou em uma fase de aumento dos preços sem crescimento equivalente da renda das famílias.
A mudança começou a ficar mais evidente após a pandemia de coronavírus e a invasão da Ucrânia pela Rússia, que elevaram os preços de energia, matérias-primas e alimentos. Ao mesmo tempo, a desvalorização do iene, que ultrapassou o patamar de ¥ 150 por dólar, encareceu ainda mais os produtos importados.
Desde 2022, segundo o autor, o Japão passou a registrar inflação anual entre 2% e 3%. Os salários nominais aumentaram em determinados setores, mas não acompanharam integralmente os preços, provocando queda dos salários reais e redução do poder de compra.
Esse processo significa que o trabalhador pode até receber um valor maior no contracheque, mas consegue comprar menos produtos e serviços com o dinheiro.
Tachibana define essa situação como o risco de uma “estagflação japonesa”, na qual a inflação continua enquanto a economia perde força e as famílias se tornam progressivamente mais pobres.
Renda média caiu 9,1% em dois anos
O autor utiliza em sua análise os dados mais recentes do Relatório da Pesquisa sobre Redistribuição de Renda, elaborado a cada três anos pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão.
A pesquisa considerada é a de 2023. Ela mostra que a renda familiar média antes da redistribuição caiu de ¥ 4,234 milhões, em 2021, para ¥ 3,848 milhões em 2023. A queda foi de ¥ 386 mil, equivalente a 9,1% em apenas dois anos.
A expressão “antes da redistribuição” representa a renda recebida pelas famílias antes da atuação do governo por meio de aposentadorias, assistência médica, cuidados de longa duração e outros benefícios sociais.
No caso de um trabalhador assalariado, é considerado o salário bruto. Para uma família de aposentados, os benefícios previdenciários não entram nessa primeira conta.
Por esse critério, 30,4% das famílias japonesas, quase uma em cada três, têm renda anual inferior a ¥ 500 mil.
A proporção acumulada mostra que 51,3% das famílias vivem com renda anual de até ¥ 2,5 milhões antes dos benefícios sociais. No outro extremo, 9,6% possuem renda igual ou superior a ¥ 10 milhões.
Assim, aproximadamente uma em cada três famílias aparece nas estatísticas com renda próxima de zero, enquanto cerca de uma em cada dez recebe mais de ¥ 10 milhões por ano.
Envelhecimento ajuda a explicar os números
A elevada proporção de famílias com renda muito baixa não significa necessariamente que todas estejam em situação de pobreza extrema.
Uma das principais explicações é o envelhecimento da população. Quando uma pessoa deixa o mercado de trabalho e passa a viver apenas da aposentadoria, sua renda antes da redistribuição pode ser registrada como zero, pois o benefício previdenciário só entra na conta posterior.
Segundo Tachibana, essa característica ajuda a explicar por que a renda familiar média pode continuar diminuindo mesmo quando as empresas concedem aumentos salariais.
A estimativa de 2023 do Instituto Nacional de Pesquisa sobre População e Seguridade Social indica que a proporção de pessoas com 65 anos ou mais continuará aumentando até 2070.
Isso significa que, durante as próximas décadas, haverá mais famílias dependentes de aposentadorias e de outros benefícios públicos e menos famílias recebendo renda diretamente do mercado de trabalho.
Embora essa condição estatística esteja associada ao envelhecimento, ela também revela uma fragilidade estrutural: uma parcela crescente da população não consegue manter seu padrão de vida apenas com renda obtida pelo trabalho.
Após impostos, renda efetiva fica em ¥ 2,837 milhões
A renda média familiar antes da redistribuição é de ¥ 3,848 milhões. Desse total, a família média paga aproximadamente ¥ 482 mil em impostos, equivalentes a 12,5%, e ¥ 529 mil em contribuições à seguridade social, correspondentes a 13,7%.
Depois desses pagamentos, restam ¥ 2,837 milhões por ano. O valor equivale a aproximadamente ¥ 236 mil por mês, antes da inclusão de benefícios e serviços públicos e sem considerar que o custo de vida varia conforme a região, a composição da família e as despesas com moradia.
Em compensação, a família média recebe ¥ 1,162 milhão em aposentadorias, pensões e benefícios em dinheiro, ¥ 435 mil em serviços de saúde e cuidados de longa duração e ¥ 244 mil em outros benefícios, incluindo serviços relacionados à criação de crianças. O total recebido chega a ¥ 1,841 milhão.
Ao somar a renda disponível aos benefícios em dinheiro e aos serviços públicos, a chamada renda após a redistribuição alcança ¥ 4,677 milhões.
Em média, portanto, o sistema de impostos e seguridade social eleva a renda familiar considerada nas estatísticas em ¥ 829 mil, ou 21,5%.
A família média contribui com ¥ 1,011 milhão em impostos e previdência, mas recebe o equivalente a ¥ 1,841 milhão em benefícios e serviços.
Pobres recebem mais; ricos pagam mais
O efeito da redistribuição varia de acordo com a renda. As famílias com renda inferior a ¥ 500 mil contribuem, em média, com ¥ 201 mil, mas recebem ¥ 1,841 milhão em benefícios e serviços. O saldo positivo é de ¥ 1,64 milhão.
Já as famílias com renda superior a ¥ 10 milhões pagam ¥ 3,825 milhões e recebem o equivalente a ¥ 905 mil. O saldo é negativo em ¥ 2,92 milhões.
O sistema, portanto, transfere parte dos recursos das famílias de maior renda para as de menor renda, reduzindo a desigualdade depois da cobrança de impostos e do pagamento de benefícios.
O coeficiente de Gini, indicador usado para medir a desigualdade, era de 0,5855 antes da redistribuição em 2023. Depois da atuação do sistema tributário e social, caiu para 0,3825.
Quanto mais próximo de zero estiver o coeficiente, mais igualitária é a distribuição de renda. Quanto mais próximo de 1, maior é a concentração.
Segundo a análise de Tachibana, o resultado coloca o Japão em uma posição intermediária. A desigualdade após a redistribuição é menor do que nos EUA, Reino Unido e Coreia do Sul, mas maior do que em países nórdicos, como Suécia e Dinamarca.
Desigualdade pouco mudou
Entre 2011 e 2023, o coeficiente de Gini antes da redistribuição passou de 0,5536 para 0,5855, uma alta de 5,8%.
Após a redistribuição, porém, o indicador aumentou apenas 0,9%, de 0,3791 para 0,3825.
Tachibana argumenta que uma elevação de 0,9% em 12 anos não é suficiente para afirmar que houve uma forte expansão da desigualdade de renda.
Parte do aumento registrado antes da redistribuição também é atribuída ao envelhecimento da população.
Entre pessoas de 25 a 29 anos, o coeficiente de Gini antes da redistribuição é de 0,2997. Entre pessoas com 75 anos ou mais, sobe para 0,7201.
Isso ocorre porque grande parte dos idosos vive somente da aposentadoria, que não entra na renda antes da redistribuição. Ao mesmo tempo, uma pequena parcela de idosos continua recebendo renda do trabalho, de ações, de imóveis e de outros investimentos.
Ao corrigir os dados levando em consideração o envelhecimento, o coeficiente de Gini de 2023 cai de 0,5855 para 0,5765, ficando próximo dos 0,5700 registrados em 2021.
Salário mediano caiu 9% em 30 anos
A análise também cita um estudo do economista Makoto Nirei, publicado pelo jornal Nihon Keizai Shimbun em 23 de março de 2026.
Segundo o levantamento, o salário mediano japonês, ajustado aos valores de 2020, permaneceu próximo de ¥ 4 milhões durante os últimos 30 anos.
A renda dos 10% mais bem pagos ficou perto de ¥ 8 milhões, enquanto a do 1% mais rico permaneceu em aproximadamente ¥ 16 milhões.
Embora essas posições tenham mudado pouco, o salário mediano caiu cerca de 9% no período.
Em outras palavras, o trabalhador que ocupa o centro da distribuição salarial passou a receber menos, em termos reais, do que recebia três décadas antes.
Apesar disso, o Produto Interno Bruto real do Japão aumentou 17%, e a participação da remuneração dos trabalhadores na renda nacional permaneceu próxima de 70%.
Uma explicação é o aumento do número de trabalhadores em cada família.
Com a queda ou a estagnação do salário do principal responsável pelo domicílio, mais mulheres e outros integrantes da família passaram a trabalhar para complementar a renda.
A proporção de famílias nas quais o casal trabalha passou de aproximadamente 40% em 2000 para pouco menos de 60% atualmente.
Assim, parte do crescimento da renda familiar não ocorreu porque cada trabalhador passou a ganhar mais, mas porque mais pessoas dentro da mesma residência precisaram trabalhar.
Japão tem poucos super-ricos
Outro estudo citado é da economista Chiaki Moriguchi, publicado pelo Nihon Keizai Shimbun em 24 de março de 2026.
A pesquisa comparou a parcela da renda concentrada pelo 1% mais rico no Japão, Coreia do Sul, Reino Unido, EUA, Alemanha e França.
Em 2019, o 1% mais rico concentrava 19% da renda nos EUA e 16% na Coreia do Sul. No Japão, essa proporção era de aproximadamente 8%.
Entre o grupo dos 0,1% mais ricos, a participação japonesa era ainda menor em relação aos demais países.
Os dados indicam que o Japão possui relativamente poucos “super-ricos”. Essa característica reduz a desigualdade estatística, mas não significa necessariamente que a população tenha se tornado mais próspera.
Segundo Tachibana, a baixa desigualdade japonesa está associada à estagnação dos rendimentos em praticamente todas as faixas.
O país não registrou um aumento acentuado da concentração de renda porque os salários da maioria permaneceram parados ou diminuíram.
Inflação ameaça patrimônio das famílias
O primeiro artigo da série concentra-se principalmente no efeito da inflação sobre as economias das famílias.
Durante o período de deflação, manter dinheiro em espécie ou em contas bancárias japonesas de baixo rendimento não provocava perdas significativas de poder de compra.
Com a inflação, essa situação mudou.
Quando os preços sobem, o dinheiro parado perde valor real. Mesmo que a quantia depositada permaneça a mesma, ela compra menos produtos e serviços a cada ano.
Tachibana afirma que, em um ambiente inflacionário, uma pessoa pode empobrecer mesmo sem perder o emprego, sofrer redução salarial ou gastar suas economias.
Basta que o dinheiro guardado renda menos do que o aumento dos preços.
O título do primeiro texto menciona um exemplo em que ¥ 1 milhão investido teria se transformado em ¥ 11,18 milhões ao longo de 13 anos, usado para demonstrar a diferença entre manter recursos parados e aplicá-los em ativos que acompanham ou superam a inflação.
A proposta central do autor é que as famílias precisam pensar não apenas em economizar, mas também em proteger o patrimônio contra a desvalorização da moeda e o aumento do custo de vida.
O texto menciona instrumentos financeiros e investimentos como formas de proteção, mas também reconhece que as condições não são iguais para todos.
Famílias com renda baixa utilizam quase todo o dinheiro para pagar alimentação, moradia, energia, transporte, educação e impostos. Por isso, possuem pouca ou nenhuma margem para investir.
Essa diferença cria um novo risco de desigualdade: mesmo que a distribuição salarial permaneça relativamente estável, famílias que já possuem patrimônio podem protegê-lo e ampliá-lo, enquanto aquelas que vivem apenas do salário sofrem diretamente com a inflação.
Os dados não incluem patrimônio
O relatório do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar analisa renda, mas não calcula todo o patrimônio acumulado pelas famílias.
Uma família pode ter renda anual inferior a ¥ 500 mil e, ao mesmo tempo, possuir uma casa de alto valor, aplicações financeiras ou outros bens.
Também é possível que uma família com renda superior a ¥ 10 milhões esteja endividada, com financiamento imobiliário elevado e patrimônio líquido negativo.
Por isso, os números não representam integralmente a distribuição da riqueza no Japão.
Ainda assim, mostram que uma grande parte das famílias depende cada vez mais da redistribuição estatal e que os rendimentos provenientes do trabalho não acompanham o custo de vida.
Todos ficaram mais pobres
A conclusão de Akira Tachibana é que o Japão não apresenta o mesmo crescimento da desigualdade observado em outros países desenvolvidos porque os rendimentos japoneses permaneceram estagnados em praticamente todas as faixas.
Em vez de uma parcela pequena enriquecer rapidamente enquanto a maioria empobrece, o país teria vivido uma redução mais ampla e relativamente uniforme do padrão de vida.
O autor resume esse processo afirmando que “a desigualdade não aumentou porque todos empobreceram de maneira relativamente igual”.
A expressão não significa que todas as famílias estejam na mesma situação. Aquelas que possuem imóveis, ações e outros ativos podem ter ampliado seu patrimônio, especialmente durante períodos de alta dos mercados.
Já as famílias que dependem exclusivamente de salários, aposentadorias ou trabalhos temporários enfrentam maior dificuldade para absorver a inflação.
O quadro formado pelos dois artigos mostra um Japão onde metade das famílias registra renda inferior a ¥ 2,5 milhões antes dos benefícios sociais, o salário mediano perdeu valor ao longo de três décadas, a renda familiar média caiu mais de 9% em dois anos e um número crescente de domicílios depende de aposentadorias e serviços públicos.
Ao mesmo tempo, mais integrantes das famílias precisam trabalhar para preservar a renda doméstica, e quem não possui recursos para investir vê suas economias perderem valor com o aumento dos preços. A pobreza japonesa, portanto, não aparece apenas na ausência de renda. Ela se manifesta na redução do poder de compra, na dependência crescente da seguridade social, na necessidade de mais pessoas trabalharem dentro da mesma família e na dificuldade de acumular patrimônio para o futuro.
Foto: Canva







































