Psicólogo brasileiro no Japão explica sinais e tratamentos do autismo

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Aichi – O Transtorno do Espectro Autista (TEA) ainda representa um desafio de compreensão para muitas famílias. Diante do aumento no número de diagnósticos e da observação de sintomas precoces, pais e mães frequentemente enfrentam sentimentos de incerteza. Por não ser uma doença, o autismo não possui cura, mas exige o preparo dos familiares para auxiliarem os filhos no desenvolvimento de habilidades, na redução de barreiras cotidianas e na busca por autonomia e qualidade de vida. É sob essa perspectiva que o psicólogo Bernardi Alves Vivicanan analisa o quadro do TEA na comunidade brasileira. O Portal Japão apresenta a trajetória deste profissional e explica como o suporte especializado é fundamental para os jovens no espectro.

Alves conta que se sente psicólogo desde a infância, mas sua primeira formação acadêmica em Psicologia ocorreu em 1988, no Brasil. Em 1991, ele chegou ao Japão para, como define, “ocupar espaços nas linhas de produção fabris que a população local, em processo de envelhecimento, já não preenchia”.

No contato diário com colegas de trabalho, Alves utilizou sua visão profissional para notar que a comunidade necessitava de suporte em saúde mental para melhorar a qualidade de vida das famílias que atuavam nas fábricas. "Então voltei a estudar e qualifiquei-me no Japão. Fiz mestrado e doutorado, tornando-me psicólogo certificado na Associação de Psicologia Japonesa em 2014. Com muito esforço, após longos anos de verificações dos meus títulos acadêmicos, fui aprovado e, após 5 anos, me deram a honra de fazer parte como membro permanente da associação, com o respectivo número de registro", relata.

Entenda o TEA

Alves explica que a definição do TEA é de uma condição do neurodesenvolvimento reconhecida internacionalmente pelas autoridades de saúde mental. Ele frisa que não se trata de uma doença, e que por isso não se busca uma cura. “Por ser uma condição que acompanha a pessoa ao longo da vida, o foco não é cura, mas o desenvolvimento de habilidades, autonomia funcional, adaptação ao ambiente, suporte familiar e outros. Muitos autistas hoje estudam, trabalham, casam, têm família e vida produtiva. Por isso não há um tratamento único, mas uma intervenção que deve ser individualizada", esclarece.

Segundo Alves, o autismo nunca se manifesta sozinho. “Em muitas situações vem acompanhado do que chamamos de comorbidades", diz. As principais comorbidades citadas por Alves são:

  • Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH): Afeta entre 30% e 80% das crianças com TEA.
  • Deficiência Intelectual: Aproximadamente 40% dos autistas apresentam algum grau de deficiência intelectual.
  • Epilepsia: Presente em cerca de 25% a 40% dos casos.
  • Ansiedade e Depressão: Muito frequentes, afetando 40% dos indivíduos, especialmente em níveis de suporte menores (nível 1 ou leve).
  • Não verbais: Cerca de 20% a 30% dos autistas podem não desenvolver a fala funcional.

As comorbidades são mais prevalentes em autistas que necessitam de maiores níveis de suporte (níveis 2, moderado, e 3, severo).

Conheça alguns sinais

Talvez alguém pergunte sobre o motivo de aumentarem os casos de autismo. O psicólogo explica que os dados não mostram uma “epidemia”, mas refletem um maior conhecimento público sobre TEA, os critérios diagnósticos são mais amplos e há um maior acesso à saúde, entre outros pontos. Ao mesmo tempo, ele orienta que os pais fiquem atentos aos sinais de alerta. Esses sinais não fecham o diagnóstico, mas indicam a necessidade de investigação com profissionais credenciados:

  • Antes dos 12 meses: pouco contato visual, raramente sorri socialmente, pouca troca de sons e balbucios, não aponta nem imita, não reage ao nome nem emite sons.
  • 12 a 18 meses: atraso na fala ou ausência de palavras simples, não aponta para pedir algo, não imita gestos como bater palmas ou dar "tchau". A criança parece não participar da dinâmica familiar, brinca repetidamente com objetos e sente incômodo com sons e texturas.
  • 18 a 24 meses: poucas palavras ou perda de vocabulário já adquirido, ausência do brincar de faz de conta, dificuldade em assimilar comandos simples e presença de movimentos motores repetitivos (balançar o corpo, girar, bater as mãos).
  • Após 2 anos: atraso importante na linguagem, ecolalia, dificuldade de interação social, preferência por brincar sozinho, interesses restritos em brincadeiras e alimentação, rigidez extrema a mudanças e sensibilidade sensorial marcante.

"Os sinais de alerta vêm muito precocemente e devem ser entendidos como um pedido de ajuda da criança. Já sabemos que quanto mais cedo realizarmos as intervenções, maiores serão os ganhos no desenvolvimento", explica Alves. Para o diagnóstico e tratamento, ele recomenda uma equipe multidisciplinar com psiquiatra infantil, neuropediatra, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional.

Mudanças na visão do autismo

Alves conta que o autismo já foi visto como psicose infantil ou culpa familiar. "Antes mesmo da descrição de Leo Kanner em 1943 e Asperger em 1944, em 1925 já havia relatos clínicos de crianças com características semelhantes. Naquelas épocas, pensava-se que o autismo estivesse ligado à esquizofrenia infantil", relata.

Avanços significativos ocorreram em 2013 com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e, posteriormente, com o DSM-5 Revisado em 2023. Essas atualizações ajudaram a reduzir a confusão diagnóstica. Segundo Alves, a intervenção tornou-se personalizada, focada no suporte necessário e não em rótulos antigos. "Há uma maior compreensão pública de que o autismo é uma condição diversa, não limitada a estereótipos", explica.

Tratamento e acompanhamento

Para o diagnóstico atual, a pessoa deve apresentar critérios como déficits persistentes na comunicação e interação social, além de padrões restritivos e repetitivos de comportamento. "Os sintomas devem estar presentes desde o período de desenvolvimento inicial, embora possam não se manifestar plenamente até que as demandas sociais excedam as capacidades da pessoa", diz Alves. A classificação em níveis (leve, moderado ou severo) ajuda a planejar as intervenções.

"Na minha experiência clínica, o tratamento deve incluir a mãe, figura central na formação, e uma rede de apoio. É preciso um especialista em análise do comportamento aplicado, um psicólogo cognitivo-comportamental, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional para questões motoras e um psicopedagogo para a aprendizagem", relata. Ele reforça que as intervenções devem ser contínuas e podem incluir medicação e orientação familiar.

O papel da família é fundamental, auxiliando no vínculo afetivo, na rotina previsível, na busca pela autonomia e na redução de crises. É comum que os pais sofram após o diagnóstico, passando pela negação, culpa e medo. Por isso que os pais também necessitam de apoio psicológico.

Participação dos pais

Buscar apoio em grupos especializados e profissionais qualificados ajuda as famílias a lidarem com o diagnóstico e a desenvolverem estratégias de cuidado, reduzindo a insegurança. No cotidiano, os desafios incluem a falta de orientação psicoeducacional, escolas pouco preparadas e carência de informações sobre direitos, além de dificuldades no acesso a serviços públicos.

No Japão, a barreira do idioma limita o acesso aos recursos. "Estatísticas indicam que 2,75% das crianças nascidas no Japão entre 2009 e 2015 estavam dentro do espectro aos 5 anos. Não temos dados oficiais da comunidade brasileira, mas, aplicando a prevalência de 2% a 3%, teríamos centenas de crianças no espectro entre os cerca de 210 mil residentes", estima.

A escassez de profissionais especializados é um problema, mas a abordagem cognitivo-comportamental focada em análise do comportamento aplicado é uma ferramenta útil. Alves destaca o papel de grupos de apoio: "Vejo com muita alegria o movimento de mães em cidades como Toyota e Hekinan, que se reúnem e encontram tempo para fazer a diferença. São mulheres dedicadas ao trabalho voluntário".

O psicólogo finaliza lembrando que o diagnóstico pode ser impactante. "Os pais devem procurar profissionais sensíveis e grupos de apoio para acalmar o coração para uma nova etapa. O autismo é um jeito único de ser que podemos melhorar com amor, dedicação e conhecimento. Não é um castigo, culpa parental ou falta de disciplina. É uma condição humana que exige compreensão e acolhimento social. Buscar ajuda não é vergonha, mas responsabilidade e amor. Crianças autistas apoiadas desenvolvem mais e as comunidades conscientes disso se tornam mais humanas".

Foto: Cedida

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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