Japão perde atratividade para estrangeiros com salários estagnados e iene fraco

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Tóquio - O Japão vem perdendo atratividade como destino de trabalho para estrangeiros, mesmo enfrentando escassez de mão de obra, em razão da prolongada estagnação econômica e da perda de competitividade salarial. Cada vez mais trabalhadores optam por destinos como Singapura, Taiwan e Coreia do Sul, onde os rendimentos são mais elevados.

O problema afeta de forma mais visível os estagiários técnicos, estrangeiros oriundos principalmente de países asiáticos que participam de um programa específico do Japão, segundo informou a 47 News. O dono de uma fábrica na cidade de Choshi (Chiba), que emprega esse tipo de mão de obra, afirmou que a “indústria primária (pesca) em Choshi não se sustenta sem estrangeiros”.

Apesar da demanda, os salários têm se mostrado pouco atrativos. Segundo relato publicado pela 47 News, uma trabalhadora vietnamita recebia cerca de 80 mil ienes por mês ao cumprir jornadas de até 14 horas diárias em uma fábrica no Japão. Após mudar de emprego, passou a ganhar 130 mil ienes mensais, dos quais envia 80 mil ienes para a família em seu país, restando pouco para sua própria subsistência.

Empresários relatam preocupação com a queda no número de candidatos ao programa de estagiários técnicos. Em alguns países de origem, os trabalhadores já conseguem obter rendimentos semelhantes aos pagos no Japão, o que reduz o interesse pela migração. Casos como os de candidatos da China e do Camboja têm sido apontados pela mídia local.

Diante desse cenário, algumas empresas passaram a buscar trabalhadores na Indonésia, considerados no Japão como cuidadosos e honestos. O diretor de uma empresa especializada em recrutamento no exterior afirmou que empresários estão dispostos a contratar trabalhadores de qualquer nacionalidade. Nos últimos anos, o Japão tem registrado aumento no número de trabalhadores vindos do Sri Lanka, Nepal e Índia.

Obstáculos

A desvalorização do iene frente ao dólar tornou o Japão menos atrativo para trabalhadores estrangeiros, segundo o Nippon. A situação é agravada pela escassez de mão de obra e pela baixíssima taxa de natalidade no país.

Uma pesquisa realizada no ano passado por uma empresa japonesa de recrutamento internacional indicou queda no número de estrangeiros interessados em trabalhar no Japão, ao mesmo tempo em que aumentou o percentual dos que não pretendem aceitar vagas em empresas japonesas.

Entre os vietnamitas, a proporção dos que desejam trabalhar no Japão caiu 12,1% nos últimos anos, chegando a 85%, segundo levantamento da Mynavi Global. No caso dos indonésios, a diferença salarial em relação ao Japão ainda é significativa, o que mantém elevado o interesse, com 94,4% manifestando desejo de trabalhar no país, de acordo com dados compilados por empresas de recrutamento e estatísticas oficiais da Indonésia.

Entre os motivos citados pelos que não pretendem migrar estão a desvalorização do iene e problemas no ambiente de trabalho, como jornadas excessivas.

O presidente da Mynavi Global, Yuzuriha Motoki, afirma que, para o Japão voltar a ser atrativo, é necessário melhorar as condições de trabalho. Entre as medidas, ele cita a ampliação do número de estrangeiros com o status de Trabalhador de Habilidade Específica nº 2, que permite trazer familiares e concede direitos praticamente equivalentes aos da residência permanente.

Precisa de mais trabalhadores

De acordo com a Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), mantido o ritmo atual, o país terá 5,91 milhões de estrangeiros trabalhando em 2040. Esse número é quase meio milhão inferior ao necessário para sustentar a taxa média de crescimento anual projetada de 1,24%, segundo a Reuters. Para atender essa demanda, o total de trabalhadores estrangeiros deveria chegar a 6,88 milhões em cerca de 15 anos.

Dados do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar de 2024 indicam que 342 mil empresas empregavam ao menos um trabalhador estrangeiro, um aumento de 7,3% em relação ao ano anterior. A taxa de desemprego no país permanece abaixo de 3% há quatro anos, a menor entre as nações desenvolvidas, segundo o Business Times.

Pesquisa da Câmara de Comércio e Indústria de Tóquio revelou que mais de 60% das pequenas e médias empresas enfrentam escassez de mão de obra. Das 342 mil empresas que empregam estrangeiros, cerca de 80% são pequenas, com menos de 100 funcionários.

Apesar da necessidade crescente, o Japão enfrenta forte concorrência de destinos como Singapura e Coreia do Sul. Este último estava prestes a autorizar a entrada de 165 mil trabalhadores estrangeiros, um aumento de 38% em relação ao ano anterior. Um especialista avaliou que, se o Japão conseguir estruturar um sistema que melhore o ambiente de trabalho para estrangeiros, a entrada de trabalhadores poderá crescer ainda mais.

Em termos comparativos, a média salarial mensal estimada em ienes é mais elevada em Singapura, onde pode chegar a cerca de 331,5 mil ienes, com base em dados do Ministry of Manpower. No Japão, a média fica em torno de 244,1 mil ienes, segundo o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, enquanto na Coreia do Sul alcança aproximadamente 266,3 mil ienes, conforme a Statistics Korea, considerando o câmbio médio de 2025.

Talentos estrangeiros

A Federação Empresarial do Japão, Keidanren, instou recentemente o governo a adotar uma abordagem mais estratégica para atrair e desenvolver talentos estrangeiros, segundo o Japan Daily.

A entidade defende a criação de diretrizes claras sobre os tipos de profissionais estrangeiros a serem priorizados e solicita maior controle sobre o número e a qualificação dos trabalhadores.

A proposta prevê uma cooperação mais estreita entre governo e empresas para estabelecer um sistema de apoio aos trabalhadores estrangeiros. A preocupação central é ajudá-los a compreender melhor a cultura e os costumes do Japão, além de promover o respeito mútuo entre diferentes formas de pensar.

Segundo a Keidanren, essas medidas são essenciais para garantir a permanência desses profissionais no país a médio e longo prazo.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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