Japão foi bombardeado com réplicas da bomba atômica antes de Hiroshima

Osaka – Um episódio pouco conhecido dos últimos dias da Segunda Guerra Mundial envolve as chamadas bombas atômicas simuladas, utilizadas pelas forças dos Estados Unidos em missões de treinamento e combate realizadas sobre várias regiões do Japão.
Entre julho e agosto de 1945, pouco antes da rendição japonesa, 49 dessas bombas foram lançadas sobre o país. Embora não contivessem material nuclear, eram bombas convencionais de grande potência e provocaram a morte de mais de 400 pessoas, além de deixarem mais de 1.200 feridos.
Uma delas atingiu Osaka em 26 de julho de 1945, apenas 11 dias antes do lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima. Pesando aproximadamente 5 toneladas, caiu no bairro de Tanabe, no atual distrito de Higashisumiyoshi, cerca de 150 metros ao norte do templo Onrakuji.
A explosão matou sete pessoas e deixou outras 73 feridas. Também destruiu ou incendiou 485 construções e afetou 1.645 moradores. A onda de choque foi tão forte que o salão principal do templo Onrakuji permanece inclinado até hoje.
O que eram as bombas atômicas simuladas?
Apesar do nome, as bombas atômicas simuladas não continham material nuclear nem provocavam radiação. Eram bombas convencionais carregadas com explosivos de alta potência e produzidas com formato, dimensões e peso semelhantes aos das armas nucleares que os Estados Unidos pretendiam lançar sobre o Japão.
Os militares norte-americanos as chamavam de pumpkin bombs, ou “bombas-abóbora”. O apelido estava relacionado ao formato arredondado e à coloração amarelada ou alaranjada do artefato.
As bombas tinham aproximadamente 5 toneladas e reproduziam a estrutura externa da Fat Man, a bomba de plutônio lançada sobre Nagasaki em 9 de agosto de 1945. A Fat Man era larga e arredondada, o que tornava seu transporte e lançamento mais complexos.
A bomba lançada sobre Hiroshima em 6 de agosto chamava-se Little Boy. Era uma arma de urânio, mais alongada e com mecanismo diferente.
O lançamento de uma bomba atômica exigia procedimentos específicos. As tripulações dos bombardeiros B-29 precisavam aprender a transportar uma arma de grande peso, localizar o alvo, realizar o lançamento com precisão e executar uma curva brusca para se afastar da explosão.
Como havia pouquíssimas bombas atômicas disponíveis, foram construídas réplicas com explosivos convencionais. Elas permitiam reproduzir as condições de voo e lançamento da Fat Man sem utilizar material nuclear.
Entretanto, as bombas lançadas sobre o Japão não eram simples objetos inofensivos de treinamento. Elas continham explosivos e foram utilizadas em missões reais contra áreas industriais e urbanas. Para as pessoas que estavam no solo, tratava-se de uma bomba convencional de enorme poder destrutivo.
Ataque contra Tanabe, em Osaka
A bomba lançada sobre Osaka explodiu em Tanabe às 9h26 de 26 de julho de 1945. Durante décadas, os moradores acreditaram que o bairro havia sido atingido apenas por uma bomba convencional de grande porte.
A verdadeira natureza do artefato foi esclarecida somente em 1991, depois que um grupo de moradores de Kasugai, na província de Aichi, encontrou na Biblioteca Nacional da Dieta documentos militares norte-americanos com mapas e listas dos locais atingidos pelas bombas simuladas.
Em 2001, familiares das vítimas instalaram um monumento próximo ao local da explosão. Posteriormente, devido à construção de um prédio residencial, o memorial foi transferido para o templo Onrakuji.
Todos os anos, em 26 de julho, moradores, familiares e estudantes participam de uma cerimônia em memória dos mortos e feridos.
Outros locais atingidos
Documentos militares norte-americanos e pesquisas realizadas no Japão permitem identificar diversos municípios relacionados às missões com as bombas pumpkin.
É necessário, porém, diferenciar o alvo planejado do local onde a bomba realmente caiu. Algumas foram lançadas por radar, desviaram-se do objetivo ou atingiram municípios próximos. Por isso, as listas podem apresentar diferenças conforme a fonte consultada.
Além de Osaka, aparecem nos registros locais como:
- Tóquio e Musashino, em Tóquio
- Hitachi e Kitaibaraki, em Ibaraki
- Fukushima, Koriyama e Iwaki, em Fukushima
- Nagaoka e Kashiwazaki, em Niigata
- Tsugawa e Kanose, atualmente parte de Aga, em Niigata
- Toyama, na província de Toyama
- Hamamatsu, Shimada e Yaizu, em Shizuoka
- Nagoya, Kasugai e Koromo, atual Toyota, em Aichi
- Ogaki, em Gifu
- Yokkaichi, em Mie
- Tsuruga, em Fukui
- Otsu, em Shiga
- Maizuru, em Kyoto
- Kobe, em Hyogo
- Wakayama, em Wakayama
- Niihama e Uwajima, em Ehime
- Tokushima, em Tokushima
- Ube, em Yamaguchi
As missões ocorreram entre 20 de julho e 14 de agosto de 1945. O último grupo de ataques foi realizado em 14 de agosto, um dia antes do anúncio da rendição do Japão. Os registros militares costumam organizar as operações em seis datas principais: 20, 23, 26 e 29 de julho, além de 8 e 14 de agosto. Devido à diferença de horário e à duração das missões, alguns registros japoneses mencionam o dia seguinte em determinados ataques.
Aichi teve vários pontos atingidos
A província de Aichi tem uma ligação especialmente forte com essa história. Em 14 de agosto, bombas foram lançadas contra alvos militares e industriais em Kasugai e Koromo, atual cidade de Toyota.
Entre os objetivos estavam instalações relacionadas à produção militar e fábricas de empresas que participavam do esforço de guerra japonês.
Foi também em Aichi que moradores começaram a investigar os grandes bombardeios registrados no fim da guerra. Em 1991, um grupo de Kasugai localizou documentos militares dos Estados Unidos na Biblioteca Nacional da Dieta. Os arquivos continham mapas e informações sobre as missões realizadas com as bombas pumpkin.
A descoberta ajudou a tornar o episódio conhecido nacionalmente. Até então, muitas comunidades atingidas acreditavam que haviam sido atacadas somente por bombas convencionais de grande porte.
Quantas bombas foram lançadas?
O número mais citado é de 49 bombas explosivas lançadas sobre o Japão. Estudos acadêmicos e documentos preservados pela Biblioteca Nacional da Dieta também se referem às 49 bombas simuladas.
A Prefeitura de Osaka informa que os ataques deixaram mais de 400 mortos e mais de 1.200 feridos. Algumas estimativas elevam o número de feridos, devido às diferenças entre os registros militares norte-americanos e as apurações feitas posteriormente nos municípios.
A identificação dos pontos de impacto ainda não é considerada completamente encerrada. Em Yokkaichi, por exemplo, o local exato de uma bomba lançada em julho de 1945 só foi confirmado por pesquisadores em 2016, após décadas de investigação e entrevistas com sobreviventes.
Os documentos dos Estados Unidos registravam principalmente os alvos planejados, mas nem sempre indicavam com precisão o local onde cada bomba realmente explodiu. Isso explica as diferenças encontradas nas relações de cidades e no número de vítimas.
Foto: Reprodução






































