Japão aposta no fundo do mar para reduzir dependência da China

Tóquio – O governo japonês anunciou nesta sexta-feira (24) que as análises da lama retirada do fundo do mar nas proximidades de Minamitorishima confirmaram a presença de terras raras essenciais para produtos de alta tecnologia. Entre os elementos identificados estão o ítrio, o neodímio, o disprósio e o gadolínio.
A existência de terras raras na região já havia sido indicada por pesquisas anteriores. A novidade anunciada agora foi a confirmação da composição do material efetivamente recuperado pelo novo sistema de bombeamento em águas profundas, considerado o primeiro do mundo capaz de retirar continuamente lama com terras raras de uma profundidade próxima de 6 mil metros.
O material foi recolhido em fevereiro deste ano pelo navio de perfuração científica Chikyu, operado pela Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia da Terra e do Mar (Jamstec). A embarcação retirou cerca de 50 toneladas de uma mistura de lama e água do mar de uma profundidade de aproximadamente 5.700 metros. Em algumas divulgações oficiais, a operação é descrita de forma arredondada como realizada a 6 mil metros de profundidade.
Para chegar ao fundo do mar, a equipe conectou cerca de 200 tubos de 30 metros cada, formando uma tubulação de aproximadamente 6 quilômetros. Na extremidade, foi instalado um equipamento que injetava água do mar para desagregar a lama compactada, permitindo que a mistura fosse bombeada continuamente até o navio.
As análises confirmaram a presença de elementos classificados como terras raras pesadas, considerados especialmente valiosos e de fornecimento limitado. O governo, porém, não divulgou a concentração total de terras raras nas 50 toneladas da mistura retirada do mar.
Minamitorishima é a ilha mais oriental do Japão, pertence administrativamente ao município de Ogasawara, em Tóquio, e fica a cerca de 1.950 quilômetros a sudeste da capital japonesa. O local pode ser alcançado em aproximadamente quatro horas de avião.
Shoichi Ishii, diretor do Programa Estratégico de Promoção da Inovação do Escritório do Gabinete, celebrou o estabelecimento da primeira tecnologia do mundo capaz de bombear continuamente lama contendo terras raras do fundo do mar até uma embarcação.
Segundo ele, o desenvolvimento procura reduzir os impactos sobre o ambiente marinho profundo, ao mesmo tempo que cria uma nova fonte doméstica de minerais críticos. O projeto também inclui o desenvolvimento de sistemas para avaliar os possíveis efeitos ambientais da exploração.
O que são terras raras
O termo terras raras refere-se a um grupo de 17 elementos metálicos que apresentam determinadas propriedades químicas, elétricas, ópticas e magnéticas.
O grupo é formado pelos 15 elementos da série dos lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Dependendo da classificação adotada, eles são divididos entre terras raras leves e terras raras médias ou pesadas.
Apesar do nome, esses elementos não são necessariamente raros na crosta terrestre. A denominação está relacionada principalmente à dificuldade e ao alto custo de encontrá-los em concentrações economicamente aproveitáveis, além da complexidade de separá-los dos demais componentes do minério.
O ítrio foi o elemento mais abundante entre as terras raras identificadas no material retirado do fundo do mar, representando cerca de 30% do total desses elementos.
O percentual não significa que o ítrio corresponda a 30% das 50 toneladas recuperadas, mas que ele representou aproximadamente 30% da composição das terras raras encontradas na amostra.
O ítrio é empregado no revestimento de equipamentos utilizados na fabricação de semicondutores, em lâmpadas de LED e em lasers médicos usados, por exemplo, em cirurgias de catarata e tratamentos dermatológicos.
Quando misturado a outros materiais, o ítrio também aumenta a resistência ao calor, razão pela qual é utilizado em células de combustível, motores a jato, lasers e supercondutores.
O neodímio representou aproximadamente 20% das terras raras identificadas. O elemento é uma das principais matérias-primas dos ímãs permanentes de alto desempenho empregados nos motores de veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e turbinas eólicas.
Também foram encontrados disprósio, utilizado para aumentar a resistência ao calor dos ímãs de neodímio, e gadolínio, empregado, entre outras aplicações, em agentes de contraste para exames de ressonância magnética.
O governo japonês não divulgou detalhes sobre todos os demais elementos presentes no material recuperado.
China domina produção e refino
A China responde pela maior parcela da mineração mundial de terras raras e exerce domínio ainda maior sobre o refino, processo que permite separar os diferentes elementos presentes no minério.
Essa concentração tornou as terras raras um instrumento estratégico nas relações internacionais. Restrições impostas por Pequim podem afetar setores como os de semicondutores, automóveis, equipamentos médicos, energia, defesa e eletrônicos.
A China reforçou as regulamentações sobre a exportação de terras raras e de produtos de uso dual, que podem ser empregados tanto para finalidades civis quanto militares.
As sete terras raras submetidas a controles mais rigorosos de exportação pelos chineses são:
- Samário: utilizado em sensores, equipamentos médicos e peças automotivas.
- Gadolínio: empregado em agentes de contraste para ressonância magnética e barras de controle de reatores nucleares.
- Térbio: usado em tintas de segurança, dispositivos eletrônicos e processos a laser.
- Disprósio: aplicado em motores de veículos elétricos e híbridos, turbinas eólicas e dispositivos de armazenamento de dados.
- Lutécio: empregado em lasers, equipamentos de detecção e tratamentos de radioterapia.
- Escândio: utilizado em eletrodos, lasers e componentes de aeronaves.
- Ítrio: empregado em filtros, lasers, semicondutores e supercondutores.
Próximo teste será em 2027
A Jamstec realizará uma experiência de recuperação em grande escala em fevereiro de 2027. A meta será testar a retirada de até 350 toneladas de lama contendo terras raras por dia.
O material deverá passar por um processo de desidratação em Minamitorishima, para que parte da água seja retirada antes do transporte. A lama mais concentrada será levada ao território principal do Japão, onde serão testadas as etapas de separação, refino e produção dos minerais.
Até março de 2027, o governo pretende avaliar aspectos técnicos, ambientais e econômicos do projeto, incluindo a quantidade de terras raras que poderá ser recuperada e os custos envolvidos.
Essa avaliação não significa que a produção comercial começará imediatamente. O objetivo será verificar se a exploração poderá avançar rumo à industrialização e à criação de uma cadeia doméstica de fornecimento.
O projeto faz parte do Programa Estratégico de Promoção da Inovação (SIP), coordenado pelo Escritório do Gabinete.
A iniciativa busca desenvolver uma cadeia que abranja o levantamento dos depósitos, a extração da lama, a separação dos elementos, o refino e a fabricação de produtos, além de diminuir a dependência japonesa de determinados países fornecedores.
Japão busca maior independência
Yūki Kobayashi, pesquisador sênior da Unidade de Estudos Japão-Estados Unidos e Segurança da Fundação Sasakawa para a Paz, especializado em políticas de energia e recursos naturais, explicou em artigo publicado pelo Nippon.com que os estudos em Minamitorishima vêm sendo realizados há mais de uma década.
Em junho de 2012, uma equipe da Universidade de Tóquio e de outras instituições descobriu depósitos de terras raras no fundo do oceano nas proximidades da ilha.
Em agosto de 2016, pesquisadores da Jamstec, do Instituto de Tecnologia de Chiba e da Universidade de Tóquio encontraram na mesma região grandes concentrações de rochas esféricas contendo metais raros, conhecidas como nódulos de manganês.
Pesquisas posteriores confirmaram uma zona de grande concentração de lama contendo terras raras pesadas dentro da zona econômica exclusiva japonesa ao redor de Minamitorishima.
Segundo Kobayashi, a confirmação dos depósitos despertou grande interesse, mas permanece a dúvida sobre se a extração ajudará o Japão a reduzir significativamente a dependência da China. Esse objetivo também é perseguido pelos Estados Unidos e por outras nações industrializadas.
Os depósitos encontrados no fundo do mar apresentam concentrações elevadas de pelo menos seis terras raras pesadas submetidas a restrições de exportação pela China. Para Kobayashi, é difícil exagerar a importância desses elementos para a indústria japonesa.
Três grandes desafios
Kobayashi considera que a extração experimental realizada em fevereiro pelo Chikyu foi um acontecimento histórico, por representar a primeira tentativa bem-sucedida no mundo de retirar continuamente lama rica em terras raras de águas profundas.
Ele ressalta, no entanto, que transformar o experimento em produção comercial exigirá o enfrentamento de três grandes desafios.
O primeiro é desenvolver um processo de refino ambientalmente sustentável. A separação dos diferentes elementos presentes no minério geralmente exige o emprego de substâncias químicas e pode produzir poluentes, como gases tóxicos, lama contaminada e resíduos radioativos.
A lama de Minamitorishima deverá apresentar menos problemas relacionados a materiais radioativos do que muitos depósitos terrestres. Ainda assim, o Japão precisará recuperar, atualizar e ampliar sua capacidade doméstica de separação e refino.
O segundo obstáculo é a viabilidade comercial. Será necessário transformar a extração no fundo do mar em uma atividade capaz de gerar lucro, apesar da grande distância, da profundidade e da complexidade tecnológica envolvida.
Segundo Kobayashi, os testes realizados na região de Minamitorishima custaram mais de 10 bilhões de ienes por ano, o equivalente a dezenas de milhões de ienes por dia.
Esse valor corresponde ao custo anual das operações experimentais, e não apenas à viagem realizada em fevereiro.
Mesmo com uma produção em grande escala, o material japonês dificilmente conseguirá competir com as terras raras chinesas apenas pelo preço. Para o pesquisador, será necessário considerar o valor desses recursos para a segurança econômica e para a estabilidade do fornecimento.
O terceiro desafio é a possibilidade de interferência chinesa. Kobayashi avalia que Pequim poderia ameaçar suspender o fornecimento de terras raras às empresas que investirem no desenvolvimento dos depósitos de Minamitorishima.
Nesse contexto, Japão e Estados Unidos vêm discutindo formas de cooperação para o desenvolvimento de minerais críticos e de recursos localizados em águas profundas.
Para Kobayashi, essa cooperação também pode ajudar a desencorajar possíveis interferências chinesas. Essa é uma avaliação do pesquisador, e não necessariamente um objetivo declarado oficialmente pelos dois governos.
Perspectivas
Para Kobayashi, Minamitorishima não representa uma solução imediata ou definitiva para a dependência japonesa. O país precisa combinar a exploração marítima com a diversificação de fornecedores, a reciclagem e o desenvolvimento de tecnologias que reduzam o consumo de terras raras.
O Japão já financiou a Lynas Rare Earths, maior produtora de terras raras separadas fora da China, e firmou acordos para receber elementos pesados da empresa australiana.
Entre 2024 e 2025, o governo japonês também concluiu acordos para ajudar a financiar uma instalação de reciclagem de terras raras em larga escala da empresa francesa Caremag, em troca de compromissos de fornecimento.
Para o especialista, o Japão deve continuar buscando maior autossuficiência em minerais críticos. Embora a exploração das terras raras em águas profundas ainda enfrente grandes dificuldades técnicas, ambientais e econômicas, o projeto tem importância para a segurança econômica do país e pode contribuir para fortalecer o Japão como potência marítima.
Foto: Reprodução






































