Ijime no Japão: como agir, onde buscar ajuda e o exemplo da Coreia do Sul

Tóquio - O Japão registrou em 2023 um total de 719.351 casos de ijime (いじめ), termo traduzido como maus-tratos ou, em inglês, bullying. É o maior número da história e o quarto ano consecutivo de aumento. O ijime é uma prática cruel, muitas vezes disfarçada de brincadeira entre crianças e adolescentes nas escolas, que desafia autoridades e famílias. Para piorar, as agressões físicas e verbais também avançaram para o mundo digital, transformando-se em cyberbullying e ampliando o sofrimento das vítimas, que muitas vezes não encontram refúgio nem dentro de casa. Diante desse mesmo cenário, a Coreia do Sul acabou tomando uma decisão que o Japão deveria ter tomado há muito tempo.
O ijime não é um rito de passagem pelo qual um indivíduo deve passar para ser aceito por um grupo. A prática consiste em ignorar ou isolar deliberadamente a vítima (無視,mushi), além de difamar e insultar (悪口, waruguchi). Um dado importante é que pesquisas sobre o tema indicam que 8,3% dos envolvidos são tratados como vítimas-agressores, isto é, jovens que sofreram a violência do ijime e depois replicaram a prática, criando um círculo vicioso de traumas.
O Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão, conhecido como MEXT (文部科学省, Monbu-kagaku-shō), informa que o ijime ocorre em cinco frentes principais:
• Social: envolve a exclusão sistemática, o isolamento deliberado do grupo e o "tratamento de invisibilidade", chamado de mushi (無視).
• Verbal: caracteriza-se por insultos constantes, difamação e burlas que destroem continuamente a autoestima do aluno.
• Físico: engloba agressões diretas, empurrões e violência corporal, muitas vezes disfarçadas de "brincadeiras brutas".
• Financeiro: manifesta-se por meio da extorsão de dinheiro ou a exigência de pertences pessoais sob ameaça (金銭トラブル, kinsen toraburu).
• Digital: envolve ações hostis praticadas pelas redes sociais, permitindo que a perseguição ultrapasse os limites físicos da escola.
O preço de ser diferente
No Japão existe a chamada pressão pela conformidade social (同調圧力, dōchō atsuryoku), e o sistema educacional enfatiza a integração total. Nesse ambiente, ser diferente pode ser visto como um risco à harmonia do grupo.
Essa diferença pode estar na aparência, nas notas obtidas, na origem estrangeira, no sotaque ou em qualquer característica que torne o aluno um alvo.
Muitas crianças japonesas e estrangeiras, incluindo brasileiras, já foram vítimas dessa prática.
Ijime online
Não satisfeitos em atormentar colegas diariamente nas escolas, os agressores passaram a infernizar as vítimas também na internet, no chamado bullying online (ネットいじめ, netto ijime).
Dados oficiais no Japão apontam que já são mais de 23.000 casos anuais, com agressores covardes, agora protegidos pelo anonimato, usando redes sociais ou aplicativos para continuar torturando suas vítimas.
Nesses casos, o isolamento é monitorado e reforçado 24 horas por dia, impedindo que a vítima encontre refúgio no próprio lar.
Abandono escolar e suicídio
Os dados oficiais no Japão mostram que as consequências do ijime podem ser devastadoras. Em um recorde histórico para um período de três décadas, 250 crianças e adolescentes morreram por suicídio entre abril de 2016 e março de 2017. Mesmo que fosse apenas uma vítima fatal, o resultado continuaria trágico.
Neurologistas explicam que, na adolescência, as áreas cerebrais responsáveis pelos sentimentos amadurecem mais rápido do que aquelas que regulam a emoção e o discernimento. Isso torna os jovens mais vulneráveis a impulsos desesperados diante do sofrimento.
Outra consequência nefasta do ijime é a evasão escolar prolongada (不登校, futōkō), ou seja, a vítima não quer mais voltar ao lugar onde está sendo agredida. Os pais devem entender que não se trata de rebeldia, mas de um mecanismo de sobrevivência psicológica diante de um ambiente hostil.
No Japão existe ainda o “pico de setembro”, quando ocorre o retorno às aulas após as férias de verão. Esse é considerado o período de maior risco, quando o desespero das vítimas de ijime diante da possibilidade de reencontrar os agressores pode chegar ao limite.
Falhas e inovações
O governo e as escolas têm adotado medidas mais rigorosas, embora a implementação ainda enfrente barreiras culturais. Um dado alarmante das fontes oficiais revela que quase 30% dos "incidentes graves" (重大事態, jūdai jitai), não foram inicialmente reconhecidos como bullying pelas escolas, evidenciando uma falha grave na detecção precoce.
Entre as medidas em uso estão:
- STOPit: aplicativo que permite denúncias anônimas com envio de provas, como prints e fotos, contornando o medo de represálias.
- Inteligência Artificial: uso de algoritmos para analisar padrões de frequência e comportamento, com o objetivo de prever crises antes que elas se agravem.
- Reformas legais e cooperação policial: o Japão criminalizou o insulto online com penas de prisão. Além disso, as escolas agora têm o dever legal de reportar casos imediatamente à polícia quando há risco iminente à vida, ao corpo ou à propriedade do estudante.
O exemplo que vem da Coreia do Sul
O Ministério da Educação da Coreia do Sul e o Conselho Coreano para o Ensino Universitário, conhecido pela sigla KCUE, anunciaram em 2023 um plano para erradicar a violência nas escolas.
A partir do ano letivo de 2026, cujos exames e seleções começaram no final de 2025, o histórico de violência escolar, chamado na Coreia do Sul de hakgyo pokryeok, deve ser obrigatoriamente refletido nas avaliações dos candidatos em todos os processos seletivos universitários, incluindo o chamado vestibular tradicional por nota.
Já há casos de revisão e rejeição de candidatos em universidades como Kyungpook, Kangwon e Jeonbuk. De forma preliminar, em auditorias parlamentares sobre os anos de 2023/2024, alunos perderam pontos cruciais ou foram desclassificados devido ao histórico de bullying.
A lei, no entanto, dá autonomia para que as universidades definam o grau de punição, podendo aplicar perda total de pontos ou desclassificação automática. Apesar disso, há pressão pública por tolerância zero.
A deputada Jin Sun-mee, do Partido Democrático, divulgou um relatório oficial durante uma auditoria parlamentar no final de 2024, apontando que 45 estudantes foram rejeitados por seis grandes universidades. Eles obtiveram notas altas nos exames, mas foram desclassificados pelo registro de bullying.
Na Coreia do Sul, o sistema disciplinar vai do Nível 1 (desculpas por escrito) ao Nível 9 (expulsão). Os níveis 6 (suspensão escolar), 7 (mudança de classe) e 8 (transferência forçada) geram penalidades severas. Universidades como a Seoul National University (SNU) optaram por deduzir o máximo de pontos possível de candidatos com medidas restritivas (Níveis 6 a 9), o que praticamente zera as chances de aprovação em cursos concorridos, como Medicina e Direito, funcionando na prática como uma eliminação.
Serviço: Onde buscar ajuda
O silêncio é o maior aliado do bullying. Se você é estudante, pai ou responsável, saiba que não está sozinho e que o estigma da "vergonha" (恥, haji), não deve impedir a busca por socorro.
• Consulado Geral do Brasil em Tóquio: (03-5488-5665). Oferece orientação e apoio psicossocial gratuito em português, com total sigilo.
• Consulado Geral do Brasil em Nagoya: (052-212-1025). Oferece assistência consular, jurídica e acolhimento em saúde mental para a comunidade brasileira da jurisdição.
• Consulado Geral do Brasil em Hamamatsu: (053-450-8191). Disponibiliza atendimento psicológico gratuito e suporte psicossocial aos residentes locais.
• MEXT (SOS Criança): 0120-0-78310. Linha gratuita 24 horas disponível em todo o Japão para relatar casos de angústia ou bullying. O serviço é conhecido como 24 Horas Criança SOS Dial (24時間子供SOSダイヤル, Nijūyo-jikan Kodomo SOS Daiyaru) e oferece suporte principalmente em japonês, mas o Ministério da Educação possui um sistema de central telefônica integrada que pode acionar intérpretes em idiomas estrangeiros, incluindo o português, dependendo do horário da chamada.
• Linha de Direitos Humanos das Crianças: 0120-007-110. Conecta o usuário a especialistas em proteção infantil (子どもの人権110番, Kodomo no Jinken 110-ban). Atendimento em japonês.
• Chatbot "Você não está só": ferramenta do governo japonês para combate à solidão, com interface em diversos idiomas, incluindo português. Em japonês, o programa é divulgado comoあなたはひとりじゃない, Anata wa hitori janai. O acesso pode ser feito pelo site oficial do Gabinete de Medidas contra a Solidão e o Isolamento (孤独・孤立対策, kodoku koritsu taisaku), ligado ao governo japonês, ou diretamente via aplicativo de mensagens Line através da conta oficial do programa governamental.
E se procurar a polícia?
No Japão, se a família de uma vítima de ijime denunciar o caso à polícia, ou se houver suspeita de dano grave, a escola é legalmente obrigada a abrir uma investigação.
A obrigação está fundamentada na lei federal conhecida como Lei de Promoção de Medidas de Prevenção ao Bullying (いじめ防止対策推進法, Ijime Bōshi Taisaku Suishin Hō), aprovada em 2013 e constantemente reforçada pelo Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia (MEXT). Veja como funciona:
Obrigação de investigar: conforme o Artigo 28 (第28条, Dai 28-jō) da referida lei, sempre que houver suspeita de uma "situação grave" (重大事態, jūdai jitai), incluindo danos físicos, danos psicológicos severos ou afastamento escolar por mais de 30 dias, a escola e a entidade mantenedora, como o conselho de educação local (教育委員会, kyōiku iinkai), são obrigadas a conduzir uma investigação detalhada dos fatos por meio de um comitê interno ou de terceiros.
O fator polícia: a intervenção da polícia atua como um gatilho imediato de gravidade. Se a família reportar o caso à polícia e as autoridades notificarem a escola sob suspeita de crime, como agressão, extorsão ou difamação digital, a instituição não pode alegar "resolução interna". Ela é obrigada a colaborar e iniciar sua própria apuração factual, tanto para subsidiar medidas disciplinares pedagógicas quanto para colaborar com o inquérito policial.
Diretriz de cooperação escola-polícia: em 2023, o MEXT emitiu novas circulares exigindo que as escolas abandonem a hesitação histórica e façam consultas proativas à polícia sempre que o ijime configurar atos criminosos. Como reflexo prático, o número de casos de bullying que resultaram em ações policiais diretas subiu cerca de 66% recentemente.
Apesar disso, já houve casos de escolas que tentaram descaracterizar agressões como brigas consensuais, a fim de evitar a formação do comitê oficial de investigação. Consta, porém, que essa brecha passou a sofrer fiscalização mais rigorosa das delegacias de polícia e do MEXT.
Foto: Canva








































