Fernanda Ando conta como criou o 'Nihongando' e inspira brasileiros a enfrentar o JLPT

2025/08/26 16:38
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Aichi – Entre os caminhos de quem se dedica a estudar japonês no Japão, o Japanese Language Proficiency Test (JLPT) surge como um passo importante. Aplicado duas vezes ao ano, com a próxima edição em dezembro, o exame avalia o domínio do idioma e pode abrir muitas portas para quem decidiu viver no país, destaca Fernanda Ando, criadora do curso de japonês "Nihongando / JLPT Sem Mistérios", em entrevista ao Portal Japão.

Talvez alguns digam que não se sentem capazes de enfrentar o rigoroso teste, com marcação de tempo rígida e inúmeras pegadinhas. Mas, se uns se dedicaram e enfrentaram o desafio, por que outros não poderiam fazer o mesmo? Veja o caso de Fernanda Ando, 37 anos, de Nagoya (Aichi), que conhece como poucos as dificuldades de aprender japonês. Há 17 anos no Japão, sofreu como muitos sofrem ainda hoje para um dia dominar o idioma e se tornar fluente. Mas não desistiu. Pelo contrário, estruturou cursos para ajudar outros brasileiros.

Ela contou que, no Brasil, estava em um relacionamento com alguém que tinha família no Japão. O plano era simples: trabalhar no país por três anos, juntar dinheiro e voltar. “Nós dois estávamos terminando a faculdade quando ele sugeriu isso”, lembra. Como não sabia nada do idioma, chegou a fazer um curso no qual aprendeu hiragana e katakana, conseguindo ler algumas palavras, mas sem compreender o significado.

Quando chegou ao Japão, em novembro de 2008, o país já sentia os efeitos da crise financeira mundial, com demissões em massa. “Muita gente estava indo embora, e alguns diziam que eu era doida por ter vindo. Mas eu não podia ir embora, pois não tinha dinheiro para a passagem”, relata. Conseguiu então um emprego em uma fábrica de sucos, mas apenas dois dias por mês, no controle de qualidade.

Assim como muitos, buscou os cursos oferecidos por voluntários. “Na turma, não havia brasileiros, todos pareciam mais avançados. Como avançavam juntos, eu me senti perdida a ponto de não querer voltar mais”, lembra. Tentou estudar sozinha, também sem resultados. Procurou aulas particulares, mas acabou desistindo: “Quando chegava a semana seguinte, eu já nem lembrava o que tinha aprendido na semana anterior.”

A virada aconteceu quando se matriculou em uma escola de tempo integral, das 9h às 15h, e depois ainda trabalhava das 17h às 22h. A luta durou dois anos. E foi num feriado de fim de ano, percebeu que já conseguia conversar em japonês. “Eu queria muito ver neve e fui para Takayama (Gifu). Liguei para um hotel para reservar, perguntei se estava nevando. Não sabia como chegar, mas consegui me virar nas estações até lá. Era uma época sem redes sociais como hoje. Em três meses de curso, eu já conseguia conversar, ainda que não fosse fluente. Depois disso, a evolução foi constante”, garante.

Do aprendizado ao ensino

Não demorou para Fernanda trabalhar como professora de inglês em uma escola. Apesar da inexperiência, estudou técnicas de ensino e se destacou. “Vi que oportunidades surgem para quem vai atrás, estuda e se especializa.”

Em 2015, com o nascimento do filho Kaito, voltou a se aproximar de brasileiros, sobretudo em grupos de mães no WhatsApp. Começou a ajudar com dúvidas de consultas médicas e documentos, até que uma mãe perguntou se ela dava aulas de japonês. Mais tarde, em outro grupo no Facebook, aceitou ensinar mais pessoas. Foi então que, em outubro de 2016, nasceu o curso “Nihongando”.

No ano seguinte, Fernanda já fazia transmissões ao vivo diariamente e, em fevereiro de 2018, lançou a primeira turma oficial. Hoje, a plataforma reúne mais de 6.000 alunos — brasileiros no Japão, em outros países, além de latinos e europeus.

JLPT Sem Mistérios

Pensando no exame de proficiência, Fernanda lançou o curso JLPT Sem Mistérios, com módulos do N5 ao N3, além de materiais de apoio, simulados e PDFs. “Muita gente não dá a devida importância ao JLPT, mas ele pode transformar carreiras”, alerta.

Ela mesma passou pelo processo: foi aprovada no N3, reprovada no N2 e depois, com esforço, conquistou a aprovação. “Quando recebi o certificado, ele era muito maior do que um simples papel. Foi a recompensa do meu esforço. O JLPT é compromisso. Mesmo que você não passe, descobre onde precisa melhorar. E quando passa, é a prova de que consegue.”

Em 2024, Fernanda foi aprovada no N1, o nível máximo.

Alunos motivados

Com esse incentivo, alunos do Nihongando se dedicam intensamente. Hugo Massashi de Paula, 38 anos, de Takahama (Aichi), começou a estudar sozinho o N5 em 2022, mas desistiu no N4. Em 2023, com o Nihongando, voltou a estudar e agora vai prestar o N3. “Hoje consigo ler kanjis, me comunicar, escrever relatórios no trabalho e sou elogiado pelos colegas japoneses”, conta.

Já Valéria Esperendi Dias, 50 anos, de Saitama, decidiu aprender japonês após sofrer um acidente de trabalho dois anos depois de chegar ao Japão. “Na hora não consegui me comunicar, só fui socorrida cinco horas depois pela empresa. No hospital, trataram meu dedo sem anestesia. Doeu na alma. Foi quando decidi aprender o idioma.”

Hoje, após estudar com o Nihongando, ela garante: “Estudar japonês me tirou da depressão. Agora leio, escrevo e consigo me virar no hospital. Estou me preparando para o N3.”

Fotos: Cedidas
Fernanda Ando, criadora do "Nihongando"

Serviço
Nihongando / JLPT Sem Mistérios
- https://nihongando.co.jp/jlptsemmisterios
Inscrições no JLPT - https://info.jees-jlpt.jp/application/

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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