Fenômeno Toyoko Kids revela lado sombrio da juventude nas ruas de Tóquio

2026/09/11 10:33
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Tóquio – A Polícia Metropolitana de Tóquio colocou 39 menores de idade sob proteção durante uma operação realizada na região conhecida como Toyoko, em Kabukicho, famoso bairro de entretenimento noturno no distrito de Shinjuku. Um dado chamou especialmente a atenção: 17 deles, cerca de 40%, disseram aos investigadores que já haviam passado por episódios de overdose provocados pelo consumo excessivo de medicamentos.

A operação foi realizada durante duas noites, no início do novo semestre escolar, tendo como alvo jovens que permaneciam até tarde nas ruas da região de Toyoko, publicou o veículo News on Japan.

Os 39 jovens foram colocados sob proteção policial por motivos que incluíam permanecer fora de casa durante a madrugada sem o consentimento dos pais. Entre eles estava uma estudante de 14 anos do chugakko, equivalente aos anos finais do ensino fundamental no Brasil.

A adolescente havia viajado da província de Saitama até Kabukicho e carregava 20 comprimidos, entre eles medicamentos para dormir. Quando os policiais perguntaram por que estava com os remédios, respondeu: "Quero esquecer as coisas desagradáveis".

Apesar de para alguns jovens a permanência em Kabukicho poder parecer uma fuga à realidade ou uma oportunidade de estar na companhia de pessoas da mesma idade, os riscos são elevados. Segundo dados da Polícia Metropolitana, em 2025, um quarto dos casos registrados em Tóquio nos quais menores de 18 anos foram vítimas de crimes sexuais ocorreu em Kabukicho, incluindo a região de Toyoko.

Os adolescentes e jovens que passaram a se reunir naquela parte do bairro ficaram conhecidos como Toyoko Kids. A expressão surgiu no fim da década de 2010 para identificar aqueles que frequentavam a praça ao lado do edifício Shinjuku Toho e do complexo de cinemas Toho, em Kabukicho.

O nome Toyoko deriva da combinação de "To", de Toho, com "yoko", palavra japonesa que significa "ao lado". Portanto, refere-se à área ao lado do edifício Toho e não tem qualquer relação com a linha ferroviária Tokyu Toyoko.

Não se trata de um grupo organizado, com integrantes definidos ou uma liderança formal. São adolescentes e jovens que permanecem por longos períodos na região, muitas vezes até tarde da noite. Alguns fugiram de casa, enquanto outros apenas frequentam Kabukicho periodicamente em busca de amigos ou de um ambiente no qual sintam que pertencem.

Muitos são descritos como jovens que enfrentam relações difíceis com a família ou problemas na escola, enquanto outros chegam até Toyoko depois de fazer amizades pelas redes sociais. Com o passar dos anos, a presença constante desses adolescentes em Kabukicho acabou dando origem a uma subcultura própria.

Ao mesmo tempo, começaram a surgir relatos preocupantes envolvendo prostituição, exploração sexual, furtos, consumo de drogas e uso abusivo de medicamentos. A overdose deliberada de remédios, inclusive produtos vendidos sem receita médica, tornou-se um dos problemas associados a parte desses jovens.

A Polícia Metropolitana tem intensificado o patrulhamento e as operações de proteção na região, principalmente durante as férias escolares e próximo ao início dos semestres letivos.

Também existem organizações de apoio e equipes de assistência social que procuram estabelecer vínculos com os Toyoko Kids, oferecendo alimentos, aconselhamento e acesso a locais seguros e abrigos. A organização Nippon Kakekomidera, por exemplo, mantém atividades de apoio em Kabukicho e procura criar uma relação de confiança com os jovens que frequentam a região.

Para autoridades e organizações assistenciais, esses adolescentes não devem ser classificados automaticamente como infratores. Muitos são considerados jovens em situação de vulnerabilidade, especialmente diante do risco de aliciamento e exploração por adultos.

O fenômeno dos Toyoko Kids está relacionado a vários fatores, entre eles a concentração de estabelecimentos de entretenimento noturno em Kabukicho, a facilidade de acesso à região e o papel das redes sociais na aproximação entre adolescentes de diferentes partes do Japão.

Mas o fenômeno passou a representar um problema social bem mais amplo. Por trás dos jovens reunidos nas ruas de Kabukicho estão questões como isolamento social, conflitos familiares, dificuldades na escola, aliciamento pela internet, exploração sexual e uso abusivo de medicamentos, problemas que mostram que Toyoko deixou há muito tempo de ser apenas um ponto de encontro de adolescentes.

Foto: Reprodução/Asian On

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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