Comentários contra estrangeiros aumentam no X da primeira-ministra Takaichi

Tóquio – Uma parcela significativa de comentários nas publicações feitas pela primeira-ministra Sanae Takaichi na rede social X está relacionada a estrangeiros e imigração, mesmo quando as publicações da líder japonesa não tratam sobre políticas migratórias.
Uma análise realizada pela agência Jiji Press mostra que o fenômeno se intensificou principalmente a partir do fim de setembro e revela como o tema dos estrangeiros aparece com frequência nas discussões que acompanham as publicações da chefe do governo japonês.
A Jiji analisou 1.502.698 comentários enviados em resposta a 868 publicações feitas por Takaichi entre 21 de outubro de 2025, quando ela assumiu o cargo, e 21 de outubro deste ano.
A análise foi realizada por meio da ferramenta de monitoramento de redes sociais Brandwatch.
Do total de respostas examinadas, 112.481 continham as palavras “estrangeiro” ou “imigrante”. O número corresponde a 7,5% de todos os comentários analisados.
A proporção chama atenção porque a própria primeira-ministra utilizou algum desses termos em apenas 16 das 868 publicações feitas no período, o equivalente a 1,8%.
Isso significa que o assunto passou a ser introduzido pelos próprios usuários em discussões que, muitas vezes, originalmente tratavam de outras questões.
Comentários dispararam no fim de setembro
A mudança ficou particularmente evidente em 27 de setembro, quando Takaichi publicou uma mensagem explicando medidas do governo relacionadas aos estrangeiros, incluindo o endurecimento dos requisitos para a obtenção da residência permanente.
No dia anterior, haviam sido contabilizados 216 comentários contendo referências a estrangeiros ou imigrantes. Em 27 de setembro, esse número saltou para 4.908.
Entre as manifestações apareciam preocupações relacionadas, por exemplo, ao possível aumento da pressão sobre o sistema de seguridade social diante do crescimento da população estrangeira.
A análise também encontrou afirmações cuja fundamentação não pôde ser confirmada, entre elas comentários alegando que “há estrangeiros demais que não são processados criminalmente”.
Até 26 de setembro, o número diário de comentários relacionados a estrangeiros havia ultrapassado a marca de 1.000 em apenas oito ocasiões durante todo o período analisado.
Depois do aumento registrado em 27 de setembro, porém, a presença do tema se tornou muito mais frequente.
Entre 18 e 21 de outubro, os comentários relacionados a estrangeiros ultrapassaram 1.000 por quatro dias consecutivos.
Segurança das crianças virou discussão sobre imigração
O caso mais representativo ocorreu em 18 de outubro. Naquele dia, Takaichi publicou informações sobre um plano para reforçar a segurança das crianças durante o percurso entre a residência e a escola.
O chamado “plano de prevenção de crimes durante o trajeto escolar” não tratava de imigração nem de políticas relacionadas aos residentes estrangeiros.
Mesmo assim, 6.505 comentários publicados em resposta à mensagem mencionavam “estrangeiros” ou “imigrantes”.
Esses comentários representaram mais da metade de todas as respostas recebidas pela publicação.
Segundo a Jiji, a maioria tinha conteúdo crítico.
Entre as manifestações estavam afirmações de que “a política de imigração do governo está ameaçando a segurança das crianças” e pedidos para que o governo “pare imediatamente com a imigração”.
O episódio mostra que o debate envolvendo estrangeiros passou a surgir mesmo em publicações cujo assunto original não tem relação direta com imigração.
Críticas são três vezes mais numerosas
A análise realizada pela Brandwatch também classificou os comentários relacionados aos estrangeiros de acordo com o teor das manifestações.
Os comentários considerados negativos foram aproximadamente três vezes mais numerosos do que aqueles classificados como positivos. A diferença nem sempre foi tão grande.
No início do governo Takaichi, as proporções de comentários positivos e negativos relacionados aos estrangeiros estavam praticamente equilibradas. Ao longo do período analisado, entretanto, a participação das manifestações negativas aumentou.
O resultado não significa necessariamente que a mesma proporção exista entre a população japonesa como um todo.
Os dados correspondem às respostas publicadas no X nas mensagens da primeira-ministra e, portanto, refletem o comportamento dos usuários que decidiram participar dessas discussões. Além disso, a classificação entre conteúdo positivo e negativo foi realizada por uma ferramenta de análise de redes sociais.
Mais de 4,28 milhões de estrangeiros vivem no Japão
O aumento da discussão nas redes sociais ocorre em um momento em que a população estrangeira no Japão atinge sucessivos recordes.
Segundo dados oficiais da Agência de Serviços de Imigração, havia 4.281.026 residentes estrangeiros no país no fim de junho de 2026, o maior número já registrado.
O total aumentou em 155.631 pessoas, ou 3,8%, em comparação com o fim de 2025, quando havia 4.125.395 estrangeiros residentes.
O crescimento também está relacionado às necessidades do mercado de trabalho japonês, que enfrenta falta de mão de obra em diversos setores, ao aumento de estudantes estrangeiros e à expansão de categorias de residência destinadas ao trabalho.
Entre os principais status de residência, os residentes permanentes formavam o maior grupo, com 961.342 pessoas. Em seguida apareciam os portadores do visto de Engenheiro/Especialista em Humanidades/Serviços Internacionais, com 516.184, estudantes estrangeiros, com 479.626, participantes do programa de estágio técnico, com 457.509, e trabalhadores com visto de Habilidades Específicas, com 444.256.
Aichi tem terceira maior população estrangeira
A presença estrangeira também tem peso significativo em regiões com grande concentração de brasileiros.
A província de Aichi tinha 369.849 residentes estrangeiros no fim de junho, ficando atrás apenas de Tóquio e Osaka entre as 47 províncias japonesas. Tóquio liderava com 824.486 estrangeiros, seguida por Osaka, com 389.846.
A comunidade brasileira continuava entre as maiores do país. No fim de junho, 209.550 brasileiros tinham residência registrada no Japão, colocando o Brasil na oitava posição entre as nacionalidades e regiões com maior número de residentes.
Diferentemente da maioria dos principais grupos estrangeiros, porém, a população brasileira apresentou ligeira redução em relação ao fim de 2025, com 464 pessoas a menos.
Debate cresce junto com população estrangeira
Os números ajudam a explicar por que a presença dos estrangeiros passou a ter maior visibilidade no debate público japonês, mas não permitem concluir que o crescimento dessa população tenha provocado aumento da criminalidade ou piora da segurança pública.
Esse é um ponto especialmente relevante diante da análise das respostas às publicações de Takaichi.
O fato de milhares de usuários associarem uma mensagem sobre segurança de crianças à política de imigração demonstra a força que o assunto adquiriu nas redes sociais, mas as manifestações representam opiniões dos autores dos comentários e não constituem, por si mesmas, evidência de que estrangeiros estejam causando deterioração da segurança no Japão.
A própria reportagem da Jiji chamou atenção para a presença de alegações sem fundamento conhecido entre as mensagens analisadas.
O levantamento revela, portanto, não apenas o crescimento do volume de comentários sobre estrangeiros, mas também uma mudança na forma como o assunto aparece nas redes sociais.
Antes concentrada principalmente em publicações diretamente relacionadas à imigração, residência ou políticas para estrangeiros, a discussão passou a invadir outros temas abordados pela primeira-ministra.
E os dados mostram que, dentro desse universo de comentários, as manifestações negativas vêm ganhando espaço.
Foto: Reprodução
Primeira-ministra Sanae Takaichi







































