Superação: mãe de 57 anos e filha de 30 conquistam diploma em escola japonesa

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Aichi - Silvia Sano Porciuncula, residente em Obu (Aichi), realizou o desejo de estudar em uma escola japonesa aos 57 anos. Isso porque no Japão existem cursos noturnos voltados a estrangeiros e japoneses de diversas faixas etárias, e Silvia decidiu aproveitar essa oportunidade. E para completar a experiência, ela frequentou as aulas ao lado da filha, Andressa Rye Sano Oba, de 30 anos. Ambas se formaram em março no chuugakko, nível equivalente ao ensino fundamental II. Agora, Silvia e Andressa se preparam para novas experiências.

Silvia, natural de São Paulo (capital), acumula cerca de 26 anos entre idas e vindas ao Japão. Sua primeira chegada ocorreu em 1990, aos 20 anos. “Minha intenção era de ficar apenas 1 ano, mas fiquei 10. Lembro que era uma vida tão difícil, que eu chorei por três meses. Mas depois me acostumei e fiz amigos”, conta.

Naquela época, nasceu a filha Andressa na cidade de Tokai (Aichi). Depois de um tempo, Silvia foi para o Brasil porque estava grávida do segundo filho, Derick Keity Sano Oba. E lá foi convidada para entrar na política concorrendo como vereadora. “Não deu certo. Então voltei ao Japão em 2008, depois de ficar cansada da patifaria da política no Brasil”, confessa Silvia, que é casada atualmente com Anselmo Porciunculo de Macedo, de 47 anos.

Ela recorda que, ao trabalhar em uma fábrica de bancos de automóveis, consultou seu chefe sobre a possibilidade de transferir-se da linha de produção para o escritório. A resposta foi negativa: “Ele falou que brasileiro trabalha na linha de produção, não em escritório”, recorda. Mas, persistente, ela conseguiu uma vaga administrativa em uma empreiteira, onde já se expressava melhor em japonês, tanto é que trabalhou como tantousha e intérprete para funcionários brasileiros e latinoamericanos que chegavam às fábricas.

Andressa, filha do primeiro casamento de Silvia, fez o ensino médio no Brasil, onde se formou em contabilidade. “Quando voltei para o Japão fiz um curso de kaigo, para trabalhar em um asilo em Obu (Aichi)”, relata ela, que cuidava de idosos com diferentes graus de demência. “Trabalhei lá por oito meses. Mas devido à condição deles, foi um período difícil. Então saí de lá para estudar japonês na Jice (Japan International Cooperation Center) e depois fui trabalhar no escritório de uma empreiteira em Toyoake (Aichi)”, diz.

Todos na família de Silvia conseguiram aprovação no Exame de Proficiência em Língua Japonesa (JLPT) nos níveis N3 e N2, como é o caso de Andressa, de Anselmo e Derick. Até então, Silvia havia tentado o nível N1 cinco vezes sem sucesso. Mas após concluir o chuugakko, tentou novamente em dezembro de 2025 e foi aprovada. “Creio que consegui agora depois de ter concluído esse curso e de ter aprendido tantas coisas novas”, explica Silvia.

Por que voltar a estudar?

Silvia explica que inicialmente desconhecia a existência de cursos noturnos acessíveis a adultos. Ao pesquisar na internet, localizou uma instituição com as condições necessárias. Era na escola Nagoya Shiritsu Kitayama Chuugakko, onde o curso teve duração de 2 anos, com aulas três vezes por semana. Após obter as informações, ela e Andressa prestaram o exame de admissão. Ambas foram aprovadas e iniciaram os estudos há três anos.

Embora o ritmo fosse adaptado, os professores mantiveram o rigor acadêmico e o currículo aplicado aos alunos jovens. Silvia e Andressa cursaram disciplinas como japonês, inglês, matemática, química, ciências e outras. “Nós íamos juntas para as aulas na escola que fica em Nagoya. Nossa classe tinha 15 alunos, com idades variando entre 17 e 89 anos de idade. Eram pessoas que não haviam concluído o ensino regular. No caso do senhor de 89 anos, ele pegou o período da guerra no Japão”, diz Silvia.

A turma contava também com alunos vindos do Nepal, Filipinas, Sri Lanka, China, Turquia e Nigéria. Enquanto Silvia valorizava a realização do desejo de estudar, Andressa focou as aulas no chuugakko no aprendizado do idioma. “Mas acabei ajudando outros colegas na classe falando em inglês também”, relata a filha.

O curso premiou os alunos mais dedicados com certificados. Silvia, que não teve faltas, foi uma das homenageadas, junto a uma senhora japonesa de 81 anos. E entre uma lição e outra, em certos momentos, os papéis familiares se alternavam: quando Silvia encontrava dificuldades em matérias de exatas, Andressa assumia o papel de instrutora.

“Confesso que me senti realizada fazendo este curso, porque aprendi informações mais complexas do que aquelas que temos acesso no cotidiano. Eu que não gostava de história, passei a gostar”, conta Silvia.

O sistema específico no qual se formaram foi encerrado, já que esta foi a última turma, mas os cursos noturnos permanecem ativos em um novo formato. Silvia observa que, ao contrário da juventude, a maturidade permitiu que ela mantivesse foco total nas aulas.

Escola noturna

As Escolas Secundárias Noturnas, conhecidas como Yakan Chugaku, são instituições de ensino fundamental II que operam majoritariamente no período da tarde e noite, seguindo as diretrizes da Lei de Educação Escolar do Japão. Diferente de cursos supletivos informais, estas escolas são equivalentes aos ginásios diurnos, contando com professores licenciados e oferecendo o diploma oficial de conclusão da educação obrigatória após o cumprimento da carga horária de cinco dias por semana. Nas unidades públicas, o ensino é gratuito, garantindo o direito à educação para aqueles que não puderam concluir os estudos na idade regular.

O sistema surgiu no pós-guerra para atender jovens que trabalhavam durante o dia, mas o perfil dos estudantes mudou. Hoje, as salas reúnem idosos, japoneses que enfrentaram a recusa escolar (futoko) e estrangeiros residentes. Para muitos imigrantes, essas escolas funcionam como porta de entrada para a integração plena, oferecendo base educacional e suporte idiomático.

As escolas utilizam estratégias como o team-teaching (ensino em equipe), divisão por níveis e revisão de conteúdos do ensino fundamental I. Muitas unidades possuem especialistas no ensino da língua japonesa e intérpretes. A rotina inclui atividades de classe, festivais esportivos, eventos culturais e viagens de formatura. Algumas unidades oferecem também a merenda escolar (kyushoku).

Em outubro de 2024, o Japão contabilizava 53 unidades dessas escolas, impulsionadas por uma lei de 2016. O Ministério da Educação planeja que cada província tenha ao menos uma unidade. Interessados podem buscar orientação nos Conselhos de Educação municipais para processos de matrícula e aulas experimentais.

Planos futuros

Após a formatura, Andressa conta que está trabalhando para viabilizar uma viagem ao exterior. “Meu plano é ir para a Nova Zelândia com visto de Working Holiday”, afirma. O visto permite a permanência de um ano para trabalho e estudo do idioma. Mas ela ressalta a importância da formação: “Sei que trabalhar e estudar é difícil. Você não tem tanto tempo sobrando e volta para casa cansada. Não precisa ser um curso de dois anos, como esse do chuugakko. Pode ser algum outro, para melhorar o nível de conhecimento do idioma japonês. Vale a pena”, garante.

Silvia não perdeu tempo e já realizou o exame para o koko, foi aprovada. As aulas iniciaram em 7 de abril, na Obu High School. “O curso é noturno, com aulas cinco dias por semana e quatro disciplinas diárias, fora o bukatsu (atividades extracurriculares). Os alunos da minha classe estão na faixa dos 15 anos de idade. Se eu conseguir ir além, quero aprender a me comunicar em japonês, mas de maneira mais formal. Serão mais quatro anos de aventuras e muito aprendizado”, diverte-se.

Foto: Cedida
Andressa, Silvia e seu marido Anselmo no dia da formatura

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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