Recorde de resgates em montanhas revela riscos além do Monte Fuji no Japão

2026/06/26 15:13
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Tóquio - A Agência Nacional de Polícia do Japão divulgou recentemente que 3.623 pessoas se envolveram em ocorrências de montanha no país em 2025, o maior número já registrado desde o início da série comparável, em 1961. Do total, 246 eram visitantes estrangeiros, outro recorde dentro da série iniciada para esse grupo em 2018. Mas a estatística das autoridades revela outros cenários que deveriam exigir maior atenção dos governos locais.

Segundo a agência, foram registradas 3.122 ocorrências em montanhas no ano passado, aumento de 176 em relação a 2024. Entre as pessoas envolvidas, 332 morreram ou foram consideradas desaparecidas, enquanto 1.480 foram resgatadas com ferimentos. Outras 1.811 foram socorridas sem ferimentos.

As vítimas com 60 anos ou mais formaram o maior grupo, com 47,6% dos envolvidos. Entre os mortos e desaparecidos, essa faixa etária teve peso ainda maior, com 66,6% dos casos.

Os visitantes estrangeiros foram 246 dos 3.623 envolvidos, ou cerca de 6,8% do total. Isso mostra que a maioria dos casos ainda envolve japoneses. Mas o crescimento entre estrangeiros chama atenção. Em relação a 2024, o número de visitantes estrangeiros envolvidos em ocorrências subiu em 111, enquanto o aumento total foi de 266 pessoas. Isso significa que os estrangeiros representaram cerca de 42% do aumento registrado em 2025. Em outras palavras, eles ainda são minoria no total, mas tiveram participação importante na alta que levou ao novo recorde.

Isso indica que o Japão não está apenas recebendo mais turistas de fora. Parte dos visitantes que chegam ao país entra em ambientes naturais sem a mesma familiaridade com regras locais, clima, sinalização, idioma e riscos de montanha.

Nem tanto o Monte Fuji

Apesar de muitas notícias associarem os resgates em montanhas ao Monte Fuji, os registros no vulcão ficaram 9,9% abaixo da média dos últimos cinco anos. Enquanto isso, houve aumento em montanhas de perfis diferentes, como o Monte Takao, que tem 599 metros e é de fácil acesso a partir de Tóquio, com alta de 4,5%, e a cordilheira de Hotaka, onde o número de pessoas envolvidas em ocorrências subiu 38,3%.

Esse dado mostra que o recorde de pessoas com algum tipo de problema em montanhas não está concentrado apenas no vulcão símbolo do Japão. O risco também aparece em locais considerados mais acessíveis, o que deveria merecer atenção das autoridades por indicar uma possível banalização da caminhada, muitas vezes feita sem os cuidados necessários.

Risco fora do roteiro

O dado da agência de que 203 estrangeiros envolvidos eram esquiadores em áreas não demarcadas ou alpinistas indica que a procura por experiências fora do roteiro tradicional pesa bastante. Isso pode estar relacionado à popularização de práticas como backcountry ski, trilhas independentes, rotas guiadas por aplicativo e turismo de aventura impulsionado por redes sociais.

A polícia japonesa informou que o backcountry ski exige conhecimento, técnica e equipamentos semelhantes aos do montanhismo de inverno. O problema aparece quando aventureiros sobem uma montanha acreditando estar em um ambiente acessível, sem perceber que estão lidando com um local de alto risco.

Tecnologia revela outro dado

Outro ponto importante nos dados da Agência Nacional de Polícia é que, em 76,3% das ocorrências, o pedido de socorro foi feito do próprio local do acidente por celular ou rádio.

O dado mostra que muitas pessoas conseguiram pedir ajuda, mas não conseguiram evitar a situação de risco. Embora o sistema de geolocalização dos celulares seja prático, ele também tem limitações. Em áreas de montanha, o sinal pode falhar, a bateria pode acabar e a dependência do aparelho pode criar uma falsa sensação de controle.

Idosos sozinhos

Um dado contido na estatística da polícia é que pessoas com 60 anos ou mais representaram 47,6% dos envolvidos, mas responderam por 66,6% dos mortos ou desaparecidos. Já os montanhistas solo tiveram 209 mortos ou desaparecidos entre 1.367 pessoas envolvidas, uma proporção de 15,3%. Entre grupos de duas ou mais pessoas, a proporção foi de 5,5%.

É comum ver grupos de idosos subindo montanhas no Japão, mantendo a qualidade de vida e o lazer entre amigos. Mas há também casos de pessoas que caminham sozinhas, expondo-se a um perigo maior em caso de queda, ferimento, mal-estar ou desvio de rota.

Queda, fadiga e pessoas perdidas

Nos dados da polícia, 30,9% dos casos envolveram pessoas que se perderam. Mas também foram registradas situações como queda, com 19,2%, escorregamento, com 17,3%, e fadiga, com 9,8%.

Em uma trilha de montanha, todo cuidado é pouco. O preparo físico, o equipamento, o conhecimento da rota e a leitura das condições climáticas precisam estar claros antes da subida.

Os dados da polícia revelam que níveis de dificuldade e situações inesperadas, como calçado inadequado, piora do tempo, cansaço e terreno escorregadio, provavelmente foram subestimados por parte dos envolvidos.

Passeio urbano

Entre os que se lançaram em trilhas montanhosas e sofreram algum tipo de problema, 54 disseram que buscavam um passeio turístico em 2024. Esse número subiu para 103 em 2025.

O dado sugere que nem todos os envolvidos na estatística da polícia se viam como montanhistas, atividade que exige preparo, conhecimento e técnica. Não faz muito tempo, turistas estrangeiros tentavam subir o Monte Fuji usando chinelos e roupas leves, apesar dos alertas constantes das autoridades sobre as reais condições da montanha.

Por província

A província de Nagano foi a que mais registrou ocorrências de montanha, com 358 casos, seguida por Hokkaido, com 199, e Yamanashi, com 192. Cada uma dessas províncias tem um perfil diferente.

Nagano concentra os Alpes Japoneses e trilhas que exigem mais preparo. Hokkaido atrai montanhistas que procuram neve, esquiadores e visitantes interessados em áreas remotas. Já Yamanashi está associada ao Monte Fuji e a áreas de montanha próximas de Tóquio.

Isso significa que cada região do Japão apresenta um tipo de risco diferente, o que reforça a necessidade de políticas de prevenção adaptadas a cada local.

A estatística da polícia mostra que o recorde de ocorrências em montanhas no Japão não é apenas resultado de mais gente subindo trilhas. É o encontro de três pressões: turismo internacional em busca de aventura, idosos japoneses mais expostos em caminhadas solo e uma confiança crescente em celular, GPS e aplicativos.

Outro ponto é que o Monte Fuji, símbolo do montanhismo turístico japonês, não lidera a piora. O risco está se espalhando por montanhas populares, acessíveis e aparentemente simples.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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