Padeira brasileira conquista o Japão com pães de fermentação natural

Compartilhar:

Mie – O pão é um alimento essencial na dieta diária de muitas pessoas. Mas, nas mãos de Gilmara Queres Kuamoto, ele ganha um significado especial e se torna inesquecível. À frente da JBJ Bakery, em Suzuka, na província de Mie, ela prepara uma ampla variedade de pães, além de ministrar cursos e palestras sobre a arte da panificação com fermentação natural. Em entrevista ao Portal Japão, Gilmara contou sua trajetória de vida e de trabalho no país.

Há 18 anos no Japão, Gilmara, de 49 anos, seguiu um caminho comum a muitos nikkeis. Deixou São Paulo, onde estudava Direito e trabalhava no Ministério Público, para atuar em fábricas japonesas. Mas não demorou muito, o primeiro contato com a produção de pães surgiu quando um cunhado a convidou para preparar o alimento para venda. “Como eu não sabia muito e estava insatisfeita com a qualidade inicial, fui estudar, porque queria entregar um produto bom para as pessoas”, explica.

Sem dominar o idioma japonês, Gilmara ingressou em um curso de língua. Foi nesse ambiente que uma japonesa manifestou o desejo de ensiná-la a fazer pães, sempre com o cuidado de traduzir o que fosse necessário. A partir daí, a brasileira aprofundou os estudos em escolas técnicas, cursos particulares e treinamentos promovidos por cafeterias, até conquistar oficialmente a profissão de padeira em 2009.

“Mais tarde, em 2020, estudei com uma profissional do Brasil a técnica de fermentação natural, que aplico hoje em todos os 100 tipos de pães que sei preparar, além de bolos e waffles. Ainda continuo estudando empreendedorismo para aplicar na minha empresa, fundada há três anos”, relata.

A antiga JBJ Pães passou a se chamar JBJ Bakery para refletir melhor o perfil do público atendido, que inclui não apenas brasileiros, mas também japoneses, americanos, sul-africanos e pessoas de diversas outras nacionalidades. “Eu não abri a panificadora antes porque tinha medo de não entregar um bom pão para os clientes. Quando venci essa fase, passei também a dar cursos presenciais em Suzuka e aulas online. Tenho alunos brasileiros na Suíça, Bélgica, França, Angola e Holanda. Há também uma portuguesa, e no Japão já formei muita gente, inclusive uma filipina”, conta.

Para quem busca uma renda extra ou deseja atuar profissionalmente na área, Gilmara ensina todas as etapas do processo, desde a produção até a comercialização, incluindo a indicação de fornecedores e orientações práticas sobre vendas e gestão.

Ela afirma que não nasceu com o dom de fazer pães. “Na verdade, eu me casei com o dom”, brinca. Gilmara acredita que a vida no Japão a conduziu naturalmente à profissão de padeira, que passou a levar alegria não apenas aos clientes, mas também ao marido, Flávio Tuyoshi Iwaho Kuamoto, e à filha Júlia Kaori Kuamoto, com quem vive em Suzuka.

Gilmara com o marido Flávio

Gilmara tem ainda os filhos Jeniffer Francisca Queres e Bruno Queres de Oliveira, que estão no Brasil, mas que também foram beneficiados pelos pães que ela produziu. “Com a renda que eu obtinha aqui, consegui ajudar a pagar as faculdades de Propaganda e Marketing da Jeniffer e de engenharia mecatrônica do Bruno”, diz.

O cuidado no preparo dos pães é tão grande que desperta memórias afetivas em muitas pessoas. “Tenho uma cliente romena que me abraçou ao provar um dos nossos pães, porque lembrou da infância dela na Romênia. Um japonês chegou a publicar na internet que nunca tinha comido uma focaccia tão boa na província de Mie”, relata.

Fermentação natural

“Quando ensino, minha principal preocupação é que a pessoa compreenda todo o processo e consiga preparar o próprio alimento com qualidade. Para mim, importa o sentimento que ela terá ao comer o pão. Quero despertar boas memórias”, afirma.

Seja focaccia, pão de milho, pão de leite, pão italiano ou até pão de carvão ativado, assim como os bolos e waffles, todos os produtos da JBJ Bakery são feitos com fermentação natural. A técnica envolve a criação de uma colônia de bactérias benéficas a partir de água e farinha, o que contribui para melhorar a flora intestinal e quebrar os açúcares da farinha.

Artigos de profissionais da área indicam que o pão de fermentação natural favorece um microbioma intestinal saudável, pois o método cria probióticos que auxiliam na digestão. Além disso, a técnica reduz a quantidade de glúten, sendo benéfica para pessoas com distúrbios digestivos.

“É um método que se conecta com os nossos ancestrais. Um pão de fermentação natural pode levar 12, 24 ou até 48 horas para ficar pronto. O resultado é extraordinário. O pão italiano que faço custa 1.000 ienes, mas os benefícios para a saúde não têm preço, porque é um pão muito nutritivo”, garante.

Gilmara conta que uma cliente era fumante inveterada, mas, após passar a consumir os pães da JBJ Bakery, apresentou melhora na saúde e conseguiu parar de fumar. “Eu mesma sou um exemplo. Sofria de azia, refluxo e rinite. Hoje não tenho mais nenhum sintoma depois que passei a consumir esse tipo de pão”, assegura.

Segundo a padeira, muitos clientes começam comprando apenas uma unidade entre os cerca de 100 tipos de pães disponíveis. “Depois, levam caixas. Tem gente que compra sete ou dez pães de uma vez, porque eles podem ser congelados e armazenados sem perder sabor ou qualidade”, afirma. Além das vendas no balcão, a JBJ Bakery atende encomendas de todo o Japão e eventos corporativos.

Entre todos os pães que prepara, o mais procurado é o pão de leite, redondo e semelhante às bisnagas vendidas em padarias no Brasil. “A massa é muito macia, levemente adocicada e derrete na boca”, descreve.

‘O Japão me abraçou’

Gilmara já levou os pães da JBJ Bakery para eventos japoneses e órgãos públicos, incluindo a prefeitura de Suzuka. “Há também um hospital que sempre me chama para fornecer nossos pães”, conta.

Em uma dessas ocasiões, a prefeitura de Suzuka decidiu divulgar o trabalho de Gilmara em uma publicação local e pediu que ela ensinasse sua arte. A previsão inicial era abrir sete vagas. “Mas apareceram 40 pessoas. Isso mostra o quanto o Japão me abraçou”, comemora.

Ela lembra que, quando ainda trabalhava em fábricas, sentia que aquele não era o seu lugar. Mesmo assim, sempre que podia, levava pães e bolos para os colegas. “Eu queria alegrar o ambiente. Fazia os pães como se fossem para Deus. Naquele período, meu maior desafio foi sair da fábrica para viver exclusivamente da panificação”, relembra.

Como toda empresa iniciante, a JBJ Bakery enfrentou altos e baixos no começo. “Mas sempre se sustentou. Quando atendo alguém, meu nihongo pode não ser perfeito, mas o sorriso é garantido. Eu não apenas vendo pães, eu acolho as pessoas”, afirma.

Por isso, um dos seus principais planos é continuar ministrando cursos de panificação e palestras sobre fermentação natural, compartilhando conhecimento e inspirando novas histórias.

Fotos: Cedidas

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

Matérias relacionadas

Por: Silvio Mori
O craque Zico, inaugurou no Japão, mais uma escola de futebol da sua rede, a Zico 10.  A solen...
Por: Antônio Bordin
Tóquio – O Japão registrou 2.350 acidentes envolvendo baterias de íons de lítio nos últimos c...
Por: Antônio Bordin
Osaka - O Pavilhão Brasil, organizado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Inv...
Por: Antônio Bordin
Tóquio – Muitos produtos japoneses são respeitados mundialmente pela precisão com que são fabr...
Por: Antônio Bordin
Aichi – O Japão está testando um trem que utiliza células a combustível de hidrogênio e bater...
Por: Redação
Yamanashi – O cantor Thiaguinho fez sua aguardada apresentação no Japão, com um show incrível ...
Por: Antônio Bordin
Gifu – O "Nihon Rhine Kisogawa to Summit 2025" será realizado nos dias 25 e 26 de outubro. O even...
Por: Redação
Os esforços de resgate continuam na província de Ishikawa, principal área atingia pelo terremoto ...

Mais acessadas

Por: Redação
Doenças subjacentes são as que não são explícitas ou seja, visíveis. São doenças considerada...
Por: Redação
O Japão está subdividido em 8 regiões e sub-dividido em 47 prefeituras. As 8 regiões são: Hokk...
Por: Redação
Para candidatar-se a uma vaga de emprego no Japão recomenda-se que o candidato leve o currículo, e...
Por: Redação
Quem trabalha a mais de 1 ano no Japão já deve ter ouvido falar do tal do Gensen... Mas afinal das...
Por: Redação
Reajuste de final de ano, em japonês: Nenmatsu Chosei - 年末調整 é realizado pela empresa empr...
Por: Redação
Kanji do Dia : Hou, Toyo - 豊 - Abundância, Prosperidade HOUFU - 豊富 - abundância, riqueza HOU...
Por: Vanessa Handa
Estrangeiros que residem no Japão devem contribuir para a previdência japonesa. Ao cumprirem as re...
Por: Redação
Kakutei Shinkoku (確定申告) é o nome do procedimento da declaração de toda a sua renda durant...

Turismo

Por: Antônio Bordin
Niigata – A cidade de Ojiya, na província de Niigata, será palco do “50º Festival Comemorativ...
Por: Antônio Bordin
Tóquio – O Tokyo Dome Corp. inaugurou uma nova atração dedicada a um dos monstros mais famosos ...
Por: Antônio Bordin
Tóquio - A exposição “Ramsés, o Grande: O Ouro dos Faraós” está aberta ao público no Muse...
Por: Antônio Bordin
Fukui – A era dos dinossauros desperta mistérios e curiosidades. Quem deseja aprender e se divert...
Por: Antônio Bordin
Tóquio – Nesta época do ano muitos lugares no Japão ganham iluminação especial, aproveitando ...
Por: Antônio Bordin
Kyoto – O museu teamLab inaugurou sua maior unidade no Japão, o teamLab Bivortex Kyoto. O espaço...
Por: Antônio Bordin
Hokkaido – O famoso Lago Azul (青い池, Aoiike), na província de Hokkaido, vem atraindo turista...
Por: Antônio Bordin
Fukui - O Japão poderá ter seis itens adicionados à lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Or...
© 2016-2026 Todos os direitos reservados - Portal Japão
Home
Listas
Voltar
Busca
Menu
magnifiercross linkedin facebook pinterest youtube rss twitter instagram facebook-blank rss-blank linkedin-blank pinterest youtube twitter instagram