Japão busca drones nacionais e reacende debate sobre Constituição pacifista

Japão - A guerra na Ucrânia mudou a forma como governos enxergam os drones. Antes associados principalmente a filmagens, inspeções industriais, agricultura e entregas, os equipamentos não tripulados passaram a ocupar um papel central nas estratégias de defesa. No campo de batalha, aeronaves pequenas, baratas e produzidas em grande escala mostraram capacidade para localizar tropas, atacar veículos, desgastar defesas e alterar o equilíbrio entre forças muito diferentes.
Esse cenário acendeu um alerta no Japão. Em meio ao aumento das tensões no Indo-Pacífico, à presença dominante da China no mercado global de drones e ao avanço de sistemas autônomos em conflitos recentes, o governo japonês passou a tratar a produção nacional de equipamentos não tripulados como uma questão estratégica.
O debate não envolve apenas tecnologia militar. Ele passa também por cadeia de suprimentos, segurança econômica, capacidade industrial e pelo futuro das pequenas fábricas japonesas, conhecidas pela precisão do monozukuri, a cultura de fabricação e aperfeiçoamento técnico do país.
No dia 9 de junho, o Partido Liberal Democrata (PLD), da primeira-ministra Sanae Takaichi, deu sinal verde para o avanço de propostas destinadas a melhorar as capacidades de defesa do Japão de acordo com as novas formas de guerra. A ideia é acelerar esse processo dentro de um prazo de cinco anos, embora a decisão final dependa do governo.
O partido governista quer rever as bases da estratégia de defesa japonesa, com aumento de investimentos em inteligência artificial, drones militares e sistemas não tripulados. Um dos pontos mais simbólicos da proposta é a exigência de que o Japão deve “demonstrar claramente sua vontade nacional de se defender”.
O Japão tenta não ficar atrás da Coreia do Sul e de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que já decidiram ampliar seus gastos militares. Em 2025, os membros da Otan aprovaram uma meta de 3,5% do Produto Interno Bruto para gastos diretos até 2035, dentro de um compromisso total de 5% quando incluídas despesas mais amplas ligadas à segurança. Embora o Japão não faça parte da Otan, a pressão internacional por maior responsabilidade dos aliados dos Estados Unidos em defesa também pesa sobre Tóquio.
Produção nacional
Em 20 de maio, o ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, visitou a fábrica da ProDrone, em Nagoya, na província de Aichi. A empresa desenvolve drones industriais e também trabalha em modelos de uso dual, com aplicações civis e de segurança. A visita simbolizou uma mensagem clara: o Japão quer acelerar a criação de uma base doméstica para produzir drones, reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros e preparar o país para uma era em que sistemas não tripulados terão presença cada vez maior em operações de defesa e segurança.
O ponto central dessa mudança está na busca por drones nacionais, ou ao menos por equipamentos com o máximo possível de componentes produzidos no Japão. A ideia parece simples, mas envolve um desafio complexo. Motores, baterias, sensores, sistemas de comunicação, softwares de controle e peças eletrônicas dependem de cadeias globais de fornecimento. Em uma crise internacional, depender de fornecedores externos pode se tornar uma vulnerabilidade.
Por isso, a aposta japonesa não está apenas nas grandes empresas. Pequenas fábricas, startups e fabricantes especializados passaram a ser vistos como parte de uma nova estrutura de defesa industrial. O mesmo conhecimento usado em robótica, automação, máquinas de precisão e componentes industriais pode ganhar espaço em projetos de uso dual, com aplicações civis e também de segurança nacional.
A própria ProDrone informou que mostrou ao ministro modelos em desenvolvimento, incluindo drones de carga, inspeção, levantamento, controle terrestre com inteligência artificial, equipamentos para atuação na água e no ar e plataformas com possível uso em missões de defesa. O movimento reforça como o setor civil de drones começa a se aproximar de demandas estratégicas do Estado japonês.
Para não perder tempo, o Ministério da Defesa também iniciou negociações para a compra do Drone40, uma munição de ataque de precisão com detonação automática, produzida pela australiana DefendTex. Um funcionário da pasta comparou os drones militares de hoje às antigas munições usadas em guerras do passado, destacando como esses equipamentos passaram a fazer parte do planejamento militar moderno.
Ao mesmo tempo, o governo japonês planeja ampliar de forma expressiva a produção nacional. A meta em discussão é chegar a 80.000 drones por ano até 2030, embora executivos da indústria alertem que o caminho será difícil sem demanda constante e contratos previsíveis. A proposta do PLD também está ligada à manutenção da capacidade das Forças de Autodefesa de sustentar operações por um período prolongado, em caso de emergência.
Dentro da mesma lógica de fortalecer a indústria nacional de defesa, o partido governista sugeriu até que o governo possa adquirir instalações privadas consideradas estratégicas para o setor. A ideia já está em análise, e o governo considera um projeto de lei para ampliar seu poder de assumir ou proteger instalações industriais importantes em situações de risco à segurança nacional.
Sistemas não tripulados
A estratégia reflete uma mudança mais ampla na política de defesa do Japão. O governo trabalha no fortalecimento de sistemas não tripulados em terra, no ar, na superfície do mar e no ambiente submarino, dentro de uma lógica de defesa costeira em múltiplas camadas.
Para um país formado por ilhas e cercado por rotas marítimas estratégicas, drones aéreos, embarcações não tripuladas e veículos submarinos podem ajudar na vigilância, no transporte, na resposta a emergências e, em cenários extremos, na dissuasão militar.
Um dos eixos dessa mudança é o projeto SHIELD, sigla em inglês para Defesa Litorânea Sincronizada, Híbrida, Integrada e Aprimorada. O nome é extenso, mas resume o pensamento japonês de defesa costeira em camadas, com uso combinado de sistemas não tripulados mais baratos, numerosos e adaptados à geografia marítima do país.
Segundo o Ministério da Defesa, o orçamento de 2026 prevê cerca de 100,1 bilhões de ienes para avançar na introdução de ativos não tripulados e estabelecer o SHIELD até 2027. A iniciativa busca integrar drones aéreos, veículos de superfície e veículos submarinos, com atenção especial às ilhas Nansei, no sudoeste do Japão, região próxima a Taiwan e ao Mar da China Oriental.
O avanço ocorre em um ambiente de segurança cada vez mais tenso. A Ucrânia precisou se modernizar rapidamente para enfrentar a Rússia no conflito iniciado em 2022, e o uso de drones baratos, interceptadores e sistemas improvisados transformou a dinâmica do campo de batalha. Tóquio observa esse aprendizado com atenção, ao mesmo tempo em que monitora o crescimento da China em sistemas autônomos e aeronaves não tripuladas.
De acordo com o Estado-Maior Conjunto do Japão, os caças da Força Aérea de Autodefesa foram acionados 448 vezes entre abril e dezembro de 2025 para responder a aeronaves estrangeiras que se aproximaram da zona de identificação de defesa aérea japonesa. Desse total, 304 acionamentos envolveram aeronaves chinesas. No ano fiscal de 2024, o Japão também registrou 30 acionamentos contra drones militares chineses, o maior número já informado para esse tipo de ocorrência.
O cenário regional ajuda a explicar a pressa japonesa. A China amplia sua presença no ar e no mar, especialmente em áreas próximas às ilhas Senkaku, administradas pelo Japão e reivindicadas por Pequim. A Coreia do Norte, por sua vez, continua realizando lançamentos de mísseis e ampliando sua capacidade militar. Diante disso, o Japão tenta adaptar sua defesa às características do próprio território, usando sistemas não tripulados para proteger ilhas, rotas marítimas e áreas consideradas vulneráveis.
A questão constitucional
O avanço, porém, abre uma discussão delicada. O Japão é marcado por uma Constituição pacifista e por décadas de cautela em relação à indústria de defesa. Agora, o país tenta equilibrar inovação tecnológica, segurança nacional e responsabilidade política.
A pergunta deixou de ser apenas se o Japão consegue fabricar drones competitivos. A questão maior é como o país pretende usar essa capacidade sem perder de vista os limites éticos, diplomáticos e sociais de uma tecnologia que pode servir tanto à proteção civil quanto ao combate.
A Constituição do Japão entrou em vigor há 79 anos. Depois da Segunda Guerra Mundial, o país abandonou seu passado militarista e se transformou em potência econômica sob uma ordem baseada no pacifismo, na aliança com os Estados Unidos e na presença de bases americanas em território japonês.
Mas o ambiente internacional mudou. A guerra da Rússia contra a Ucrânia, a pressão militar chinesa em águas e espaços aéreos disputados e os programas de mísseis e armas nucleares da Coreia do Norte têm levado Tóquio a rever os limites práticos de sua defesa.
Ao mesmo tempo, a população japonesa nem sempre coloca a revisão constitucional como prioridade. Pesquisas recentes indicam que muitos eleitores estão mais preocupados com questões cotidianas, como custo de vida, salários e envelhecimento populacional. A preocupação é compreensível. Mesmo assim, o governo precisa lidar simultaneamente com o bem-estar interno e a proteção do país diante de ameaças externas.
O centro do debate está no artigo 9 da Constituição. O dispositivo renuncia à guerra como direito soberano do Estado e afirma que forças terrestres, marítimas e aéreas, assim como outro “potencial de guerra”, não serão mantidas. Ao longo das décadas, sucessivos governos japoneses sustentaram que as Forças de Autodefesa são compatíveis com a Constituição por terem finalidade defensiva. Ainda assim, partidos conservadores defendem mudanças para reconhecer explicitamente essas forças no texto constitucional e reduzir ambiguidades jurídicas.
Nem todos concordam com esse caminho. Um artigo publicado pelo The Diplomat em abril argumentou que alterar o artigo 9 seria um erro, justamente porque o Japão já opera uma força militar moderna, amplia seus gastos com defesa e adquire capacidades de ataque de longo alcance sem mudar formalmente o texto constitucional. Segundo essa visão, a distância entre o texto pacifista e a realidade da segurança japonesa não seria apenas uma contradição, mas também uma vantagem estratégica.
O argumento é que preservar a ambiguidade do artigo 9 permitiria ao Japão continuar modernizando sua defesa, comprando equipamentos, fortalecendo a cooperação com aliados e ampliando sua capacidade de dissuasão, sem provocar uma ruptura política interna ou alimentar ainda mais as tensões com países vizinhos.
Entre a prudência e a pressão regional
O Japão está diante de uma escolha difícil. Ignorar o ambiente de segurança ao seu redor seria imprudente. Mas acelerar sua militarização sem explicar claramente seus limites também pode gerar desconfiança dentro e fora do país.
A produção nacional de drones mostra como a defesa japonesa está mudando por meio da tecnologia, da indústria e da reorganização das cadeias de suprimentos. O movimento não significa necessariamente o abandono imediato do pacifismo, mas revela que o Japão está buscando novas formas de se proteger em um mundo no qual ameaças chegam mais rápido, custam menos e podem vir pelo ar, pelo mar, pelo espaço cibernético e por sistemas autônomos.
A Constituição pacifista continua sendo um símbolo poderoso do Japão pós-guerra. A questão, agora, é se esse símbolo será preservado como limite político e moral, reinterpretado para acomodar uma defesa mais robusta ou alterado para refletir de forma direta o novo papel militar que o país já vem assumindo na prática.
O debate sobre drones, portanto, é apenas uma parte de uma transformação maior. O Japão tenta construir uma defesa mais moderna sem romper completamente com a identidade pacifista que sustentou sua trajetória por quase oito décadas. Esse equilíbrio será cada vez mais difícil, mas também cada vez mais decisivo para o futuro do país.
Foto: Canva







































