Editorial do jornal Mainichi pede fim da onda de exclusão aos estrangeiros no Japão

2026/09/08 14:57
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Tóquio – O jornal Mainichi, em editorial publicado na segunda-feira (7), afirmou que o governo japonês precisa conter a crescente onda de exclusão aos estrangeiros, ao criticar o endurecimento das regras para aqueles que desejam obter residência permanente no Japão.

O editorial começa destacando que muitos estrangeiros decidiram viver no Japão e até passar no país o restante de suas vidas. Segundo o jornal, essas pessoas poderão ter suas esperanças frustradas com as novas regras, classificadas pelo Mainichi como uma política que desconsidera os direitos humanos e deveria ser retirada.

O texto cita que a Agência de Serviços de Imigração anunciou a revisão das diretrizes para concessão da residência permanente, tornando os requisitos mais rigorosos. Os interessados precisarão ter renda superior à média dos japoneses e, futuramente, será acrescentada a exigência de que o estrangeiro tenha perspectiva de receber uma aposentadoria em nível equivalente ao de uma pessoa que tenha contribuído durante 30 anos para o Kosei Nenkin, sistema previdenciário dos empregados.

Até então, as regras estabeleciam apenas que o estrangeiro demonstrasse condições de manter uma vida estável no país. No caso de pessoas solteiras, uma renda anual em torno de 3 milhões de ienes vinha sendo considerada uma referência para a concessão da residência permanente.

A renda média anual dos trabalhadores do setor privado foi de 4,78 milhões de ienes em 2024, segundo dados da Agência Nacional de Impostos. O editorial do Mainichi acrescenta que, somada à nova exigência relacionada à aposentadoria, a revisão estabelece obstáculos elevados e restringirá significativamente o número de pessoas aptas a obter a residência permanente.

A justificativa apresentada pela Agência de Imigração é a necessidade de evitar que estrangeiros com residência permanente passem a depender da assistência social. O editorial lembra, porém, que qualquer pessoa pode perder sua renda devido a acontecimentos inesperados ou a uma doença. Ressalta ainda que a assistência social existe justamente como uma rede de proteção para pessoas que enfrentam esse tipo de situação.

Além disso, o Mainichi menciona que a proporção de estrangeiros que recebem esse benefício não é particularmente elevada em comparação com a dos japoneses.

O jornal cita também que a Lei de Controle de Imigração exige apenas que o estrangeiro seja capaz de manter uma vida economicamente independente. E questiona: “Impor condições mais severas por meio de diretrizes administrativas não ultrapassaria os limites da discricionariedade da administração pública?”

No Japão, havia mais de 940 mil estrangeiros com residência permanente até o fim do ano passado, quase 30 mil a mais do que no ano anterior. Eles formavam a categoria mais numerosa entre os cerca de 4,12 milhões de estrangeiros residentes no país.

As vantagens da residência permanente são muitas, destaca o jornal. Quem obtém esse status deixa de ter limitações quanto ao período de permanência, pode escolher livremente sua profissão e onde trabalhar e também encontra maior facilidade para obter financiamento imobiliário, o que permite planejar a vida no país em longo prazo.

O editorial critica ainda a postura do governo liderado pelo Partido Liberal Democrata (PLD), que vem endurecendo as restrições aos estrangeiros sob a justificativa da “preocupação da população”. Segundo o Mainichi, nos últimos tempos têm sido adotadas medidas que podem ser consideradas excessivas.

O jornal cita também o aumento da taxa para solicitação da residência permanente, de 10 mil para 200 mil ienes. No caso do status de residência destinado a empresários, o capital mínimo necessário para iniciar um negócio foi elevado para 30 milhões de ienes ou mais.

O governo afirma que pretende “manter distância do exclusivismo contra estrangeiros”, mas, para o Mainichi, essa explicação já não possui poder de convencimento.

O editorial relembra a acelerada queda da população japonesa e o papel cada vez maior dos estrangeiros na sustentação da sociedade e da economia do país.

“Se o país continuar apenas endurecendo as regras, o Japão passará a ser evitado por eles. É necessário mudar essa postura antes que o próprio país deixe de conseguir se sustentar”, conclui o Mainichi.

Foto: Esta é uma imagem gerada por IA criada exclusivamente para fins ilustrativos. Não representa um evento ou pessoa real

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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