Crise da nafta no Japão provoca falta de luvas, embalagens e sacos de lixo

Tóquio – O Japão já sofre os efeitos da escassez e da instabilidade no fornecimento de nafta (ナフサ, nafusa), derivado do petróleo usado como matéria-prima para plásticos, solventes, tintas, resinas e embalagens. O problema não aparece apenas como alta de preços no setor químico. Ele já chegou aos sacos de lixo, embalagens de alimentos, tintas de impressão, fitas, luvas, materiais industriais e à cadeia de supermercados.
A origem está na tensão no Oriente Médio e na insegurança sobre o transporte de petróleo e derivados. O governo japonês afirma que, no conjunto do país, há volume necessário assegurado, inclusive com estoques, refino doméstico e compras alternativas fora do Oriente Médio. Ainda assim, reconhece que há “desvios de oferta” e “gargalos de distribuição” em setores específicos. O Ministério da Economia, Comércio e Indústria informou que criou uma força-tarefa para monitorar materiais importantes e apoiar a redistribuição por outras rotas quando houver dificuldade de abastecimento.
Por que a nafta afeta tanta coisa
A nafta é uma base da indústria petroquímica. A partir dela são produzidos etileno, propileno e outros compostos usados em polietileno, polipropileno, poliestireno, borrachas sintéticas, solventes, tintas e resinas.
Por isso, a falta ou encarecimento da nafta atinge produtos muito diferentes entre si, como sacos de lixo, bandejas de alimentos, filmes plásticos, embalagens de salgadinhos, fitas adesivas, peças automotivas, tintas, materiais de construção, produtos médicos e até papéis laminados usados em embalagens de comida.
Sacos de lixo começam a faltar em cidades
O efeito mais visível para a população é a falta de sacos de lixo (指定ごみ袋, shitei gomi-bukuro), os sacos oficiais exigidos por muitos municípios. Eles são feitos principalmente de polietileno, derivado da nafta.
Em Towada (Aomori), a prefeitura informou que alguns pontos de venda estão sofrendo com escassez ou falta temporária de sacos de lixo designados. As autoridades confirmaram com fabricantes que o fornecimento anual deve ficar em nível semelhante ao normal, mas atribuíram o problema atual ao aumento temporário da demanda, com entregas sem acompanhar as compras. A prefeitura pediu que os moradores evitem comprar além do necessário.
Já na província de Miyagi, a prefeitura de Osaki adotou uma medida emergencial. Se o morador não conseguir comprar o saco oficial de lixo, pode usar um saco transparente ou semitransparente de 30 a 45 litros, desde que escreva claramente lixo queimável (燃やせるごみ, moyaseru gomi) ou plástico (プラスチック, purasuchikku), conforme o caso. A medida, que antes valeria de 20 de abril a 19 de maio, foi prorrogada até 30 de junho deste ano.
Outra cidade de Miyagi, Kurihara, autorizou temporariamente o uso de sacos transparentes ou semitransparentes de até 40 litros quando os sacos oficiais não estiverem disponíveis. A cidade proibiu sacos pretos, sacos de outros municípios e materiais em que o conteúdo não possa ser visto. A regra vale desde 23 de abril até 29 de maio, com identificação escrita no saco.
Decisão semelhante foi tomada em Ryugasaki, na província de Ibaraki, onde fornecedores previam atraso na produção dos sacos oficiais por causa da instabilidade no fornecimento de matéria-prima. A prefeitura liberou, em caso de falta, o uso de sacos transparentes, semitransparentes ou branco-leitosos, desde 27 de abril a 30 de junho, e pediu que a população não faça estoque excessivo.
Em Ichihara, na província de Chiba, a prefeitura afirmou que já há relatos de falta em lojas por causa da preocupação com a situação no Oriente Médio. Como medida temporária, autorizou o uso de sacos plásticos transparentes ou semitransparentes para lixo queimável quando o saco oficial não puder ser obtido.
Governo pede que população não faça estoque
O Ministério do Meio Ambiente criou um portal especial sobre a situação no Oriente Médio e abriu canais de consulta para empresas e órgãos ligados a resíduos, combustíveis e produtos de petróleo. O ministro do Meio Ambiente também pediu que a população não compre sacos de lixo em excesso.
Segundo reportagem da TV Asahi, o ministério informou que a produção dos principais fabricantes em abril ficou entre 1,1 e 2 vezes o volume do ano anterior, mas em algumas regiões as compras chegaram a até três vezes o normal. Ou seja, parte da escassez nas prateleiras vem do medo de falta futura e da compra acumulada.
Cidade muda material do saco de lixo
A cidade de Obu, em Aichi, adotou uma solução diferente de outros municípios. Em vez de apenas liberar sacos alternativos, anunciou mudança no material dos sacos oficiais. O modelo anterior usava 75% de polietileno de alta densidade e 25% de polietileno de biomassa. O novo usará 90% de material reciclado de filme stretch e 10% de polietileno de biomassa.
A prefeitura diz que a medida busca garantir o abastecimento, sem mudar o preço de atacado para as lojas. A troca deve ocorrer quando acabarem os estoques do modelo antigo, com nova distribuição prevista a partir de julho de 2026.
Embalagens de alimentos já mudam de aparência
O caso mais simbólico é o da Calbee. A empresa anunciou em 12 de maio passado que mudará temporariamente a embalagem de 14 produtos, incluindo “Potato Chips”, “Kappa Ebisen” e “Frugra”. A partir da semana de 25 de maio, esses produtos passarão gradualmente a usar embalagens com impressão simplificada em duas cores, em vez das embalagens coloridas tradicionais.
A empresa afirma que a medida busca garantir fornecimento estável dos produtos e que não há impacto na qualidade. As fotos das batatas fritas e do mascote de batata, um personagem popular desde sua estreia em 1976, também desaparecerão das embalagens por enquanto.
A Bloomberg informou que a decisão está ligada à instabilidade no fornecimento de materiais usados em tintas e solventes de impressão. A reportagem também cita que a Nisshin Seifun Welna passou a substituir fitas adesivas impressas por fitas adesivas simples em alguns produtos, enquanto a Itoham Yonekyu avalia simplificar embalagens diante da incerteza no fornecimento de tinta e materiais de embalagem.
Categorias dependentes de nafta
Embora o governo afirme que o Japão mantém fornecimento estável no nível nacional e que não há risco imediato de desabastecimento generalizado, a Calbee não é a única empresa a tomar medidas.
A Mizkan suspendeu as vendas de quatro de seus produtos de nattō no dia 1º de maio, citando possíveis problemas na aquisição de recipientes e embalagens. Em abril, a Nisshin Seifun Welna começou a usar fita adesiva simples para embalar espaguete, onde anteriormente a fita trazia o tempo de cozimento impresso.
Nos setores médico e de cuidados de enfermagem, há uma escassez crescente de produtos, incluindo seringas e luvas descartáveis de borracha sintética. Altas de preços e restrições nas vendas também estão afetando o isolamento térmico residencial e filmes plásticos de embalagem para alimentos. Se o conflito no Oriente Médio continuar, o impacto provavelmente se tornará mais grave em todos os aspectos da vida cotidiana.
Problemas em hospitais e clínicas
Hospitais, clínicas, centros de diálise e distribuidores médicos começaram a relatar falta, atraso ou forte aumento de preço em produtos descartáveis feitos de plástico e borracha sintética derivados da nafta.
Os itens mais afetados são luvas médicas descartáveis, tubos de diálise, bolsas para coleta de líquidos, seringas e componentes plásticos. Outros itens impactados são máscaras e aventais, recipientes e embalagens, além de sacos para descarte de resíduos.
O governo anunciou a liberação de 50 milhões de pares de luvas médicas do estoque estratégico criado durante a pandemia de Covid-19. Segundo a primeira-ministra Sanae Takaichi, as luvas começaram a ser distribuídas a partir de maio para hospitais e instituições médicas com dificuldade de abastecimento. O Japão mantém um estoque estimado em cerca de 500 milhões de pares de luvas para emergências sanitárias.
Médicos alertam para risco de crise hospitalar
Médicos japoneses afirmam que a interrupção no fornecimento de petróleo e nafta do Oriente Médio pode provocar escassez severa de materiais hospitalares em poucos meses.
O problema é especialmente delicado porque muitos hospitais e clínicas no Japão já operam com margens financeiras pequenas, devido ao sistema de preços controlados da saúde japonesa. Com o aumento explosivo dos materiais descartáveis, algumas instituições relatam dificuldade para manter contratos com fornecedores.
O médico Hiromichi Ito, citado pelo Financial Times, afirmou: “Como os materiais estão ficando difíceis de obter, tornou-se mais difícil oferecer atendimento médico adequado.”
Clínicas de diálise também estão preocupadas
Outro setor considerado crítico é o de hemodiálise, segundo o ChemNet.
Tubos de diálise e bolsas de descarte são produzidos com materiais petroquímicos derivados da nafta. Fabricantes japoneses informaram temor de interrupções no envio desses materiais a partir de fábricas no Sudeste Asiático.
O Japão possui cerca de 340 mil pacientes em diálise, um dos maiores números proporcionais do mundo. Por isso, médicos afirmam que uma interrupção prolongada no fornecimento desses consumíveis pode colocar vidas em risco.
Não é só o Japão
A preocupação se espalhou também para outros países. Hospitais europeus e britânicos relataram dificuldades semelhantes com luvas, sacos médicos, seringas e materiais descartáveis ligados à petroquímica, publicou o The Guardian.
Especialistas afirmam que a guerra no Oriente Médio expôs o quanto a medicina moderna depende de produtos derivados do petróleo.
Foto: Reprodução/Nippon TV






































