Quimono e kanji: o limite entre a admiração e a apropriação cultural

2026/03/19 10:26
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Tóquio – A apropriação cultural ocorre quando pessoas de uma cultura usam elementos de outra cultura, sem que haja uma compreensão e respeito pelo significado original. O problema reside nas distorções. Um exemplo comum é o kanji tatuado sem que a pessoa saiba o significado. Para medir o grau de aceitação ou de insatisfação dos japoneses com a apropriação cultural, o site Eikawa Café realizou uma pesquisa com 400 pessoas.

Não resta dúvida de que os elementos da cultura japonesa costumam ser usados no exterior, principalmente em filmes, na culinária e em outros setores. Para medir a visão dos japoneses, o site apresentou dez situações extraídas de debates em redes sociais. Veja a seguir:

1º lugar (87,5%): esvaziamento de técnicas tradicionais Aqui o problema não é apenas copiar algo japonês, mas ignorar completamente o processo que dá valor ao item. Muitas artes tradicionais no Japão exigem tempo, técnica e aprendizado ao longo de anos. Quando alguém elimina todo esse processo e produz algo rápido e barato, mas ainda vende como se fosse autêntico, isso é visto como uma distorção. Na prática, é como vender um objeto industrial simples afirmando ser fruto de um saber artesanal complexo. O incômodo vem da perda de valor cultural e do desrespeito ao trabalho original.

2º lugar (68,5%): apropriação e monopolização de nomes tradicionais Neste caso, o problema está em transformar algo que pertence à cultura coletiva em propriedade privada. Por exemplo, um nome tradicional japonês, como o de uma roupa ou técnica, passa a ser registrado como marca exclusiva por uma empresa estrangeira. Isso pode impedir até mesmo japoneses de usarem esse nome comercialmente em certos contextos. O desconforto vem da sensação de que algo culturalmente compartilhado está sendo tomado e controlado por terceiros.

3º lugar (64,8%): apropriação indevida de saberes cotidianos Aqui a questão é o crédito. Elementos culturais simples, como o uso de bento ou furoshiki, existem há muito tempo no Japão como práticas do dia a dia. Quando alguém apresenta isso como se fosse uma invenção nova e original, sem reconhecer a origem, gera incômodo. É como pegar uma ideia tradicional, reembalar e dizer "eu criei isso", apagando a história por trás.

4º lugar (46,5%): uso de símbolos sagrados em entretenimento Neste ponto, o problema é o desrespeito ao significado espiritual ou religioso. Símbolos como torii ou estátuas budistas têm um papel sagrado no Japão. Quando são usados como decoração em ambientes como baladas ou bares, acabam sendo tratados apenas como objetos visuais, sem consideração pelo seu valor simbólico. O incômodo vem da sensação de banalização do que é considerado sagrado.

5º lugar (44,5%): consumo superficial de elementos históricos Aqui a crítica é ao uso apenas visual ou estilizado de algo que tem um significado profundo. Palavras, símbolos ou conceitos ligados à história japonesa podem carregar contextos complexos. Quando são usados apenas porque parecem legais, em roupas, jogos ou logotipos, sem qualquer preocupação com o sentido original, isso é visto como superficial. O desconforto surge da transformação de algo significativo em apenas um elemento decorativo vazio.

6º lugar (38,3%): alteração intencional de etnia em obras comerciais Esse caso costuma aparecer em filmes ou séries adaptadas no exterior. A crítica surge quando uma história claramente japonesa, com personagens japoneses, é adaptada e esses personagens são interpretados por atores de outra origem de forma deliberada. O incômodo vem da sensação de apagamento cultural, como se a identidade original fosse substituída ou considerada dispensável.

7º lugar (35,5%): sexualização de trajes tradicionais Aqui o problema está em mudar completamente o sentido original das roupas. Vestimentas como quimono ou roupas de sacerdotisas têm contextos culturais e, às vezes, religiosos. Quando são transformadas em versões extremamente reveladoras ou sexualizadas, passam a ser vistas apenas como fantasia ou fetiche, o que gera desconforto por desrespeitar seu significado original.

8º lugar (15,0%): uso apenas estético sem considerar significado Esse item trata do uso superficial de elementos culturais. Por exemplo, utilizar kanji em tatuagens, roupas ou acessórios apenas porque parecem bonitos, sem saber o que significam. O incômodo vem da banalização, já que algo com sentido linguístico e cultural é tratado como simples decoração.

9º lugar (12,8%): modificações drásticas para o mercado local Aqui a ideia é modificar tanto um elemento cultural que ele se torna quase outra coisa. Um exemplo é o sushi adaptado de forma extrema para agradar gostos locais. Apesar de causar algum desconforto, esse item tem menor rejeição porque muitos entendem que adaptações fazem parte da circulação cultural.

10º lugar (3,8%): apreciação de cultura pop sem restrição de etnia Este é o item com menor nível de incômodo. Refere-se a pessoas de qualquer país ou aparência que gostam de anime, mangá ou fazem cosplay de personagens japoneses. Nesse caso, a maioria vê de forma positiva, como apreciação e interesse genuíno, e não como desrespeito. Um exemplo bem-sucedido de cosplay é o Mundial realizado todos os anos em Nagoya (Aichi) com maciça participação estrangeira, inclusive de brasileiros.

Os entrevistados disseram que apreciam regularmente anime, mangá e jogos, os costumes do país, como festivais, artes tradicionais e praticam algumas dessas artes tradicionais. Mas 45% acham desnecessário difundir a cultura japonesa se há risco de distorção. Outros 33,8% consideram os erros como custo de divulgação, 11,5% acham que o uso da cultura é livre, enquanto 9,8% afirmam que a cultura é de todos, não apenas dos japoneses.

Os autores da pesquisa analisaram que os resultados indicam que o desconforto dos japoneses varia conforme critérios como justiça, contexto cultural e liberdade de uso. As respostas mostram que o foco não está apenas no uso da cultura, mas na forma como ela é tratada, especialmente quanto à justiça e ao respeito ao contexto.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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