Como os japoneses celebram o Ano Novo com rituais e tradições

2025/12/26 08:44
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Tóquio – As tradições culturais e religiosas no Japão ganham força com a chegada do Ano Novo. Entre os costumes mais valorizados estão a primeira visita a templos, o primeiro sonho do ano e o primeiro nascer do sol. Todas essas práticas têm como objetivo buscar proteção, atrair boa sorte e iniciar o novo ciclo com prosperidade.

Hatsumode

É a primeira visita do ano a um templo budista ou a um santuário xintoísta. Muitas pessoas aproveitam a contagem regressiva da véspera para já realizar o ritual na entrada do novo ano. O objetivo é agradecer pelo ano que terminou e pedir proteção, saúde e sorte.

Em locais muito populares, é comum enfrentar grandes multidões. No santuário Atsuta Jingu, em Nagoya (Aichi), por exemplo, fiéis fazem oferendas em dinheiro, usando notas e moedas.

Nos santuários xintoístas, o ritual inclui jogar uma moeda na caixa de oferendas, bater palmas duas vezes, fazer uma breve oração e bater palmas mais uma vez em agradecimento ao kami (divindade). Já nos templos budistas, em vez de palmas, as pessoas tocam o sino ou fazem uma prece silenciosa com as mãos unidas.

Nesses locais sagrados, também é possível adquirir ema, placas de madeira para escrever desejos ou agradecimentos; omikuji, tiras de papel com previsões para o ano, que podem ser amarradas em árvores caso indiquem má sorte; e omamori, amuletos de proteção. Muitas pessoas aproveitam ainda para tomar amazake, uma bebida doce e quente tradicional do período.

Veja alguns dos locais mais conhecidos que costumam ficar cheios no Ano Novo, por cidade.

Tóquio
Meiji Jingu, em Harajuku, é um dos destinos mais disputados do país para o hatsumode e reúne multidões.
Senso ji, em Asakusa, é extremamente popular e o entorno ganha clima de festival.
Zojo ji, próximo à Tokyo Tower, é conhecido pela tradição do joya no kane e também recebe muitos visitantes.
Kanda Myojin atrai comerciantes e pessoas ligadas à área de tecnologia.

Kyoto
Chion ji é famoso por uma das viradas mais tradicionais e concorridas, com um sino marcante.
Yasaka Jinja, no coração de Gion, é uma escolha clássica para o hatsumode.
Fushimi Inari Taisha, com seus corredores de torii, recebe muitos visitantes durante a madrugada e ao longo do dia 1º.
Kiyomizu dera e outros grandes templos da cidade também fazem parte do roteiro, embora a lotação varie.

Osaka e Nara
Shitenno ji, em Osaka, é um dos templos mais importantes do Japão e costuma ter celebrações muito cheias.
Kasuga Taisha e Todai ji, em Nara, são destinos tradicionais para o início do ano, com um clima distinto do ambiente urbano.

Outras opções conhecidas
Kawasaki Daishi, próximo a Tóquio, é famoso por rituais de proteção e costuma ficar lotado.
Naritasan Shinshoji, em Narita, também atrai multidões e é uma alternativa fora do centro da capital.

Hatsuhinode

O termo significa literalmente primeiro amanhecer e se refere à tradição de observar o primeiro nascer do sol do ano, símbolo de renovação e esperança.

O ritual acontece nas primeiras horas do dia 1º de janeiro. Muitas pessoas se deslocam para locais com boa vista, como montanhas, praias ou até templos e santuários, para fazer orações pelo bem-estar no novo ano.

A prática se popularizou a partir da era Meiji e é vista como um momento especial e carregado de significado. Após o hatsuhinode, há quem siga diretamente para templos e santuários para comprar omikuji e celebrar o início do ano.

Hatsuyume

É o primeiro sonho do Ano Novo no Japão, tradicionalmente ocorrido na madrugada do dia 1º de janeiro. A crença geral é de que o conteúdo do sonho indica a sorte da pessoa ao longo do ano.
Diz-se que o sonho é especialmente auspicioso se incluir o Monte Fuji, um falcão e uma berinjela.

Significado
Essa tradição remonta ao período Edo. Sonhar com o Monte Fuji, um falcão e uma berinjela é considerado extremamente positivo. O Monte Fuji, por ser a montanha mais alta, simboliza grandes conquistas; o falcão representa força e inteligência; e a palavra berinjela, nasu, é um homófono do verbo conquistar.

A combinação é conhecida pela expressão Ichi Fuji, Ni Taka, San Nasubi, que significa primeiro Fuji, segundo falcão, terceiro berinjela.
Algumas pessoas colocam sob o travesseiro um hatsuyume makurafuda, um talismã do primeiro sonho, na tentativa de garantir um bom presságio.

Kakizome

É o costume de escrever caligrafia no início do Ano Novo, geralmente no dia 2 de janeiro. A prática simboliza a definição de metas, desejos e resoluções para o novo período, além de purificar a mente e renovar a determinação.

O termo significa primeira escrita em japonês e pode consistir em uma palavra, frase ou poema que represente uma aspiração para o ano que começa.

O costume surgiu na corte imperial e se difundiu entre a população com a expansão da alfabetização. No passado, os escritos eram queimados em um ritual chamado Dondo yaki, acreditando-se que a fumaça levaria os desejos aos céus. Atualmente, muitas escolas ensinam o significado cultural dessa tradição.

Osechi ryori

O prato é preparado para receber o Toshigami, ou as divindades do Ano Novo. São caixas bem elaboradas com grande variedade de alimentos, em geral, representando a abundância do que vem da terra e do mar, além de estarem associados a diferentes tipos de boa sorte. O Osechi ryori deve ser apreciado durante os primeiros dias do Ano Novo, especialmente no dia 1º de janeiro e, tradicionalmente, até o dia 3 de janeiro.

O Osechi ryori passou a ser conhecido no período Heian (794-1185), e o prato ganhou uma enorme variedade de opções no século 18. A variedade pode ser diferente conforme a região do Japão.
A caixa pode conter feijões de soja pretos (kuromame), ovas de arenque (kazunoko), sardinhas caramelizadas (tazukuri), bardana socada (tataki gobo), purê de castanhas e batata-doce (kuri kinton), rolinhos de alga kombu, omelete, além de legumes.

Otoshidama

É o presente em dinheiro dado a crianças por parentes adultos durante o Ano Novo. O dinheiro é colocado em envelopes decorados chamados pochi bukuro, frequentemente adornados com símbolos populares do Japão, como maneki neko e daruma.

Acredita-se que a origem do costume esteja ligada aos toshigami, divindades xintoístas do Ano Novo, sendo o dinheiro uma forma de proteção simbólica às crianças.

Em rituais antigos, bolinhos de arroz kagami mochi eram oferecidos ao deus do Ano Novo e depois repartidos entre familiares e empregados, o que teria dado origem à prática.

Não há regras rígidas sobre valores, mas costuma-se seguir uma referência geral: cerca de 2.000 ienes para crianças em idade pré-escolar, 3.000 ienes para alunos do ensino fundamental, 5.000 ienes para estudantes do ensino médio e valores maiores para universitários.

Chakkirako

Foto: Reprodução/Bunka Isan Online

É uma dança tradicional realizada em Miura, na província de Kanagawa, para celebrar o Ano Novo e atrair boa sorte, especialmente para a pesca. A dança foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Japão em 1976.

A tradição teve origem no período Edo, influenciada pelas danças de marinheiros que chegavam à região. Todos os anos, em meados de janeiro, até 20 meninas de 5 a 12 anos, vestidas com quimonos coloridos, dançam em santuários ou em frente às casas, acompanhadas por cantos entoados por mulheres mais velhas.

Kagami Biraki

O Kagami Biraki é a tradição de abrir e comer o kagami mochi, os bolinhos de arroz oferecidos às divindades do Ano Novo. O ritual ocorre geralmente em 11 de janeiro e simboliza harmonia, saúde e boa sorte.

O formato redondo do mochi remete a antigos espelhos de bronze, símbolos da alma e da harmonia. O termo abrir é usado por ter conotação auspiciosa, associada a novos começos.

O kagami mochi não deve ser cortado com faca, considerada um símbolo de má sorte. Ele é quebrado manualmente ou com um martelo de madeira. Os pedaços são consumidos em pratos como ozoni, oshiruko ou kakimochi.

Ao comer o mochi oferecido ao Toshigami sama, acredita-se que a proteção divina seja transmitida às pessoas.

Dondoyaki

Também chamado de Sagicho, o Dondoyaki consiste em grandes fogueiras comunitárias onde são queimadas decorações de Ano Novo feitas de pinheiros e bambus. O ritual simboliza a despedida do Toshigami, o deus do Ano Novo, marcando o fim das festividades.

A tradição surgiu no período Heian (794–1185), quando aristocratas queimavam leques e tiras de papel com desejos escritos, enquanto adivinhos entoavam cânticos.

Acredita-se que as faíscas tragam saúde e vigor para o ano inteiro. Queimar a primeira caligrafia do ano também era visto como uma forma de aprimorar habilidades.

Hoje, o Dondoyaki é realizado por volta de 15 de janeiro, data conhecida como Koshogatsu, o Pequeno Ano Novo, que encerra oficialmente as celebrações. Em várias regiões, o evento é acompanhado por comidas típicas e rituais comunitários.

Fotos: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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