
Tóquio – As tradições culturais e religiosas no Japão ganham força com a chegada do Ano Novo. Entre os costumes mais valorizados estão a primeira visita a templos, o primeiro sonho do ano e o primeiro nascer do sol. Todas essas práticas têm como objetivo buscar proteção, atrair boa sorte e iniciar o novo ciclo com prosperidade.
Hatsumode

É a primeira visita do ano a um templo budista ou a um santuário xintoísta. Muitas pessoas aproveitam a contagem regressiva da véspera para já realizar o ritual na entrada do novo ano. O objetivo é agradecer pelo ano que terminou e pedir proteção, saúde e sorte.
Em locais muito populares, é comum enfrentar grandes multidões. No santuário Atsuta Jingu, em Nagoya (Aichi), por exemplo, fiéis fazem oferendas em dinheiro, usando notas e moedas.
Nos santuários xintoístas, o ritual inclui jogar uma moeda na caixa de oferendas, bater palmas duas vezes, fazer uma breve oração e bater palmas mais uma vez em agradecimento ao kami (divindade). Já nos templos budistas, em vez de palmas, as pessoas tocam o sino ou fazem uma prece silenciosa com as mãos unidas.
Nesses locais sagrados, também é possível adquirir ema, placas de madeira para escrever desejos ou agradecimentos; omikuji, tiras de papel com previsões para o ano, que podem ser amarradas em árvores caso indiquem má sorte; e omamori, amuletos de proteção. Muitas pessoas aproveitam ainda para tomar amazake, uma bebida doce e quente tradicional do período.
Veja alguns dos locais mais conhecidos que costumam ficar cheios no Ano Novo, por cidade.
Tóquio
Meiji Jingu, em Harajuku, é um dos destinos mais disputados do país para o hatsumode e reúne multidões.
Senso ji, em Asakusa, é extremamente popular e o entorno ganha clima de festival.
Zojo ji, próximo à Tokyo Tower, é conhecido pela tradição do joya no kane e também recebe muitos visitantes.
Kanda Myojin atrai comerciantes e pessoas ligadas à área de tecnologia.
Kyoto
Chion ji é famoso por uma das viradas mais tradicionais e concorridas, com um sino marcante.
Yasaka Jinja, no coração de Gion, é uma escolha clássica para o hatsumode.
Fushimi Inari Taisha, com seus corredores de torii, recebe muitos visitantes durante a madrugada e ao longo do dia 1º.
Kiyomizu dera e outros grandes templos da cidade também fazem parte do roteiro, embora a lotação varie.
Osaka e Nara
Shitenno ji, em Osaka, é um dos templos mais importantes do Japão e costuma ter celebrações muito cheias.
Kasuga Taisha e Todai ji, em Nara, são destinos tradicionais para o início do ano, com um clima distinto do ambiente urbano.
Outras opções conhecidas
Kawasaki Daishi, próximo a Tóquio, é famoso por rituais de proteção e costuma ficar lotado.
Naritasan Shinshoji, em Narita, também atrai multidões e é uma alternativa fora do centro da capital.
Hatsuhinode

O termo significa literalmente primeiro amanhecer e se refere à tradição de observar o primeiro nascer do sol do ano, símbolo de renovação e esperança.
O ritual acontece nas primeiras horas do dia 1º de janeiro. Muitas pessoas se deslocam para locais com boa vista, como montanhas, praias ou até templos e santuários, para fazer orações pelo bem-estar no novo ano.
A prática se popularizou a partir da era Meiji e é vista como um momento especial e carregado de significado. Após o hatsuhinode, há quem siga diretamente para templos e santuários para comprar omikuji e celebrar o início do ano.
Hatsuyume

É o primeiro sonho do Ano Novo no Japão, tradicionalmente ocorrido na madrugada do dia 1º de janeiro. A crença geral é de que o conteúdo do sonho indica a sorte da pessoa ao longo do ano.
Diz-se que o sonho é especialmente auspicioso se incluir o Monte Fuji, um falcão e uma berinjela.
Significado
Essa tradição remonta ao período Edo. Sonhar com o Monte Fuji, um falcão e uma berinjela é considerado extremamente positivo. O Monte Fuji, por ser a montanha mais alta, simboliza grandes conquistas; o falcão representa força e inteligência; e a palavra berinjela, nasu, é um homófono do verbo conquistar.
A combinação é conhecida pela expressão Ichi Fuji, Ni Taka, San Nasubi, que significa primeiro Fuji, segundo falcão, terceiro berinjela.
Algumas pessoas colocam sob o travesseiro um hatsuyume makurafuda, um talismã do primeiro sonho, na tentativa de garantir um bom presságio.
Kakizome

É o costume de escrever caligrafia no início do Ano Novo, geralmente no dia 2 de janeiro. A prática simboliza a definição de metas, desejos e resoluções para o novo período, além de purificar a mente e renovar a determinação.
O termo significa primeira escrita em japonês e pode consistir em uma palavra, frase ou poema que represente uma aspiração para o ano que começa.
O costume surgiu na corte imperial e se difundiu entre a população com a expansão da alfabetização. No passado, os escritos eram queimados em um ritual chamado Dondo yaki, acreditando-se que a fumaça levaria os desejos aos céus. Atualmente, muitas escolas ensinam o significado cultural dessa tradição.
Osechi ryori

O prato é preparado para receber o Toshigami, ou as divindades do Ano Novo. São caixas bem elaboradas com grande variedade de alimentos, em geral, representando a abundância do que vem da terra e do mar, além de estarem associados a diferentes tipos de boa sorte. O Osechi ryori deve ser apreciado durante os primeiros dias do Ano Novo, especialmente no dia 1º de janeiro e, tradicionalmente, até o dia 3 de janeiro.
O Osechi ryori passou a ser conhecido no período Heian (794-1185), e o prato ganhou uma enorme variedade de opções no século 18. A variedade pode ser diferente conforme a região do Japão.
A caixa pode conter feijões de soja pretos (kuromame), ovas de arenque (kazunoko), sardinhas caramelizadas (tazukuri), bardana socada (tataki gobo), purê de castanhas e batata-doce (kuri kinton), rolinhos de alga kombu, omelete, além de legumes.
Otoshidama

É o presente em dinheiro dado a crianças por parentes adultos durante o Ano Novo. O dinheiro é colocado em envelopes decorados chamados pochi bukuro, frequentemente adornados com símbolos populares do Japão, como maneki neko e daruma.
Acredita-se que a origem do costume esteja ligada aos toshigami, divindades xintoístas do Ano Novo, sendo o dinheiro uma forma de proteção simbólica às crianças.
Em rituais antigos, bolinhos de arroz kagami mochi eram oferecidos ao deus do Ano Novo e depois repartidos entre familiares e empregados, o que teria dado origem à prática.
Não há regras rígidas sobre valores, mas costuma-se seguir uma referência geral: cerca de 2.000 ienes para crianças em idade pré-escolar, 3.000 ienes para alunos do ensino fundamental, 5.000 ienes para estudantes do ensino médio e valores maiores para universitários.
Chakkirako

Foto: Reprodução/Bunka Isan Online
É uma dança tradicional realizada em Miura, na província de Kanagawa, para celebrar o Ano Novo e atrair boa sorte, especialmente para a pesca. A dança foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Japão em 1976.
A tradição teve origem no período Edo, influenciada pelas danças de marinheiros que chegavam à região. Todos os anos, em meados de janeiro, até 20 meninas de 5 a 12 anos, vestidas com quimonos coloridos, dançam em santuários ou em frente às casas, acompanhadas por cantos entoados por mulheres mais velhas.
Kagami Biraki

O Kagami Biraki é a tradição de abrir e comer o kagami mochi, os bolinhos de arroz oferecidos às divindades do Ano Novo. O ritual ocorre geralmente em 11 de janeiro e simboliza harmonia, saúde e boa sorte.
O formato redondo do mochi remete a antigos espelhos de bronze, símbolos da alma e da harmonia. O termo abrir é usado por ter conotação auspiciosa, associada a novos começos.
O kagami mochi não deve ser cortado com faca, considerada um símbolo de má sorte. Ele é quebrado manualmente ou com um martelo de madeira. Os pedaços são consumidos em pratos como ozoni, oshiruko ou kakimochi.
Ao comer o mochi oferecido ao Toshigami sama, acredita-se que a proteção divina seja transmitida às pessoas.
Dondoyaki

Também chamado de Sagicho, o Dondoyaki consiste em grandes fogueiras comunitárias onde são queimadas decorações de Ano Novo feitas de pinheiros e bambus. O ritual simboliza a despedida do Toshigami, o deus do Ano Novo, marcando o fim das festividades.
A tradição surgiu no período Heian (794–1185), quando aristocratas queimavam leques e tiras de papel com desejos escritos, enquanto adivinhos entoavam cânticos.
Acredita-se que as faíscas tragam saúde e vigor para o ano inteiro. Queimar a primeira caligrafia do ano também era visto como uma forma de aprimorar habilidades.
Hoje, o Dondoyaki é realizado por volta de 15 de janeiro, data conhecida como Koshogatsu, o Pequeno Ano Novo, que encerra oficialmente as celebrações. Em várias regiões, o evento é acompanhado por comidas típicas e rituais comunitários.
Fotos: Canva








































