Entenda por que a população passou a sofrer de kafunsho no Japão

2026/05/15 11:43
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Tóquio – Hoje muita gente sofre dos sintomas da febre do feno, ou kafunsho, por causa de uma política de reflorestamento adotada pelo governo japonês no pós-guerra, quando começou o plantio em larga escala de sugi, o cedro japonês, e hinoki, o cipreste japonês, principalmente a partir do fim dos anos 1940. O objetivo era recuperar áreas devastadas pelo corte excessivo de árvores durante a guerra e garantir madeira para a reconstrução do país e para o crescimento econômico acelerado das décadas seguintes.

Segundo a Agência Florestal do Japão, o sugi e o hinoki foram escolhidos porque crescem rapidamente, têm bom aproveitamento comercial e se adaptam facilmente ao clima japonês. Naquele momento, porém, não havia percepção pública nem governamental de que o plantio em massa dessas espécies pudesse gerar um problema sanitário no futuro.

Áreas plantadas

Hoje, o Japão possui cerca de 10 milhões de hectares de florestas plantadas, e o sugi e o hinoki representam aproximadamente 70% dessa área. Só o sugi ocupa cerca de 4,4 milhões de hectares. A distribuição ocorre em praticamente todo o país, embora o sugi apareça menos em Hokkaido, concentrando-se mais no sul da ilha, e em Okinawa, onde aparece principalmente no norte. O hinoki quase não é encontrado em Hokkaido e Okinawa.

Como a densidade tradicional de plantio de sugi era de cerca de 3 mil mudas por hectare, os atuais 4,4 milhões de hectares equivalem a algo próximo de 13 bilhões de árvores plantadas ao longo do ciclo histórico de reflorestamento, sem contar cortes, perdas naturais, replantios e diferenças regionais.

Os cedros começaram a liberar grandes quantidades de pólen cerca de 20 anos depois do início do reflorestamento, e muitas áreas plantadas só se tornaram grandes fontes emissoras décadas mais tarde. A própria Agência Florestal reconhece que a produção de pólen aumenta conforme as árvores envelhecem.

Com o passar do tempo, o impacto na saúde pública se tornou evidente. Estudos epidemiológicos apontaram crescimento expressivo da rinite alérgica e da alergia ao pólen de sugi. Em 2019, uma pesquisa nacional indicou prevalência de 49,2% para rinite alérgica e de 38,8% especificamente para alergia ao pólen de sugi.

Todos os anos, a dispersão do pólen ocorre principalmente na primavera. O sugi costuma atingir o pico entre fevereiro e abril, enquanto o hinoki apresenta maior concentração entre março e abril. Entre os sintomas mais comuns estão espirros repetidos, coriza aquosa, congestão nasal, coceira nos olhos, olhos vermelhos, lacrimejamento, irritação na garganta, fadiga, dificuldade para dormir e perda de concentração.

Os primeiros casos

Os primeiros registros médicos oficiais do kafunsho, a febre do feno provocada pelo pólen do cedro japonês, surgiram em 1963, quando médicos da província de Tochigi identificaram pacientes com sintomas alérgicos sazonais associados especificamente ao pólen do sugi. O episódio é considerado pela literatura médica japonesa como o primeiro reconhecimento oficial do chamado “sugi kafunsho”.

A descoberta foi feita por pesquisadores do Hospital Nikko e da Universidade Médica e Odontológica de Tóquio. Eles perceberam que os sintomas apareciam sempre na mesma época do ano, coincidindo com o período de dispersão do pólen das florestas plantadas no pós-guerra.

Isso ocorreu aproximadamente 15 a 20 anos depois do início do grande programa de reflorestamento japonês. O intervalo é considerado importante porque o cedro japonês só passa a produzir grandes volumes de pólen quando atinge a maturidade.

A Agência Florestal informa em sua página que a quantidade de pólen de cedro disperso tende a ser maior quanto maior for o número de horas de sol e menor quantidade de chuva no verão anterior. Quer dizer, a quantidade de dispersão de pólen pode ser maior no ano seguinte ao ano que teve baixos níveis de pólen.

A cronologia mostra que o plantio em massa ocorreu principalmente entre 1945 e meados da década de 1950, com as primeiras florestas amadurecendo no fim dos anos 1950. Depois dos primeiros casos registrados em 1963, os problemas de saúde relacionados ao pólen aumentaram durante a década de 1970, principalmente em Tóquio e regiões vizinhas.

Foi apenas entre as décadas de 1980 e 1990 que o kafunsho passou a ser tratado como uma questão nacional de saúde pública. A partir dos anos 2000, o problema se tornou uma das principais alergias ambientais do país.

Os primeiros focos mais importantes de febre do feno foram registrados em áreas próximas de grandes regiões reflorestadas no centro do Japão, especialmente em Tochigi, Gunma, Saitama, Tóquio, Kanagawa e Shizuoka. Essas áreas receberam enorme quantidade de sugi no pós-guerra e, mais tarde, passaram a concentrar elevada emissão de pólen transportado pelo vento até os centros urbanos.

Outros fatores também contribuíram para o agravamento do problema, como a urbanização acelerada e o aumento da poluição atmosférica entre as décadas de 1960 e 1970. Muitos pesquisadores japoneses defendem que a combinação entre pólen, poluição urbana e partículas de diesel aumentou o número de pessoas sensibilizadas.

No início, o governo japonês não tratou o kafunsho como uma crise nacional. Durante muitos anos, o problema foi visto apenas como uma alergia sazonal relativamente limitada. Só nas décadas seguintes, quando milhões de pessoas passaram a desenvolver sintomas, o tema ganhou relevância política e sanitária.

Hoje, os serviços meteorológicos japoneses divulgam previsões sobre os períodos de maior dispersão de pólen. Mesmo assim, milhões de pessoas continuam sofrendo com os sintomas e procuram hospitais, clínicas e farmácias. Há estimativas citadas em debates públicos de que o Japão gaste anualmente cerca de 240 bilhões de ienes apenas com medicamentos prescritos para alergia ao pólen, dos quais quase 60 bilhões de ienes poderiam ser economizados caso parte dos remédios fosse substituída por alternativas de venda livre.

Plano de substituir as árvores

Depois das consequências provocadas pelo reflorestamento em massa do pós-guerra, o governo japonês passou a demonstrar maior interesse em reduzir as fontes emissoras de pólen. Em 2023, o país lançou um plano nacional para diminuir em 20% as áreas ocupadas por florestas de sugi em dez anos e reduzir pela metade a dispersão de pólen ao longo de 30 anos.

A estratégia prevê ampliar o corte anual para cerca de 70 mil hectares, incentivar o uso da madeira de sugi, aumentar a produção de mudas com pouco ou nenhum pólen e transformar parte das áreas em florestas mistas com espécies folhosas.

Em 2026, cerca de 20% das florestas de sugi já estavam classificadas como áreas prioritárias para corte e substituição, especialmente nas proximidades de grandes centros urbanos. Apesar disso, o processo avança lentamente, envolve custos elevados e depende da capacidade operacional do setor florestal japonês.

Fontes: Ministério da Agricultura, Florestas e Pescas, Portal Alergia e Sociedade Japonesa de Otorrinolaringologia.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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