Mães solo no Japão trabalham mais, mas seguem presas à pobreza

2026/07/04 07:10
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Tóquio – O Japão tem a maior taxa de emprego entre famílias monoparentais nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O índice chega a 86%, mas a proporção de pobreza relativa nesses lares é de 44,5%, segundo artigo de Naoya Yokota, publicado no Institute for Social Vision Design (ISVD).

O texto aponta que, por trás da falsa premissa de que “quem trabalha duro é recompensado”, estão a diferença salarial no emprego não regular, a falta de pagamento de pensão alimentícia e os limites do sistema de seguridade social.

A taxa de pobreza de 44,5% entre famílias monoparentais foi registrada na Pesquisa Abrangente sobre Condições de Vida, de 2021. O levantamento mostra que a linha de pobreza no Japão era de ¥1,27 milhão por ano, considerando a renda disponível equivalente abaixo da metade da mediana.

O índice de recebimento de pensão alimentícia é de apenas 28,1% entre mães solo divorciadas, enquanto o auxílio para criação dos filhos, sozinho, não tira as famílias da linha da pobreza. Cerca de 70% das mães solo não recebem pensão alimentícia do pai ausente.

A pesquisa mostra ainda que 46,7% das mães solo fizeram acordo de pensão alimentícia, enquanto 51,2% não fizeram. Entre os motivos apontados para não estabelecer o acordo estão: não querer ter contato com a outra parte, com 34,5% das respostas; acreditar que o pai não tem intenção de pagar, com 15,3%; e considerar que ele não tem capacidade financeira para arcar com a pensão, com 14,7%. O artigo também observa que, em alguns casos, esse afastamento pode estar relacionado a contextos de violência doméstica.

O Banco de Dados de Famílias da OCDE mostra que poucos países têm taxas de pobreza entre famílias monoparentais acima de 40%. Para comparação, a Suécia registra 8%, enquanto a Alemanha chega a 30%. A média entre as nações da OCDE é de 22%, contra 44,5% no Japão.

O ponto que chama a atenção é que, apesar da pobreza elevada, 86% das mães solo no Japão trabalham, a maior taxa entre os países da OCDE. Segundo o artigo de Yokota, esse dado reforça o fracasso da premissa de que “o esforço no trabalho compensa”. Na prática, significa que essas pessoas trabalham, mas não conseguem sair da pobreza.

Dados da Pesquisa Nacional sobre Famílias Monoparentais, do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, mostram que 86,3% das mães solo estavam trabalhando no ano fiscal de 2021. Desse total, 48,8% estavam em empregos regulares, enquanto 38,8% trabalhavam em empregos não regulares, como em meio período ou trabalho temporário. Mesmo as que tinham emprego regular ganhavam, em média, ¥3,05 milhões por ano.

No Japão, trabalhadores em meio período recebem 56,6% do salário pago a trabalhadores regulares em tempo integral, a proporção mais baixa entre os países-membros da OCDE, segundo o artigo. Na Europa, essa taxa varia de 66% a 87%. No caso das mães solo, a diferença salarial ocorre não apenas entre os tipos de emprego, mas também por causa da desigualdade de gênero.

O problema no Japão, segundo o artigo, não está na falta de esforço das mães solo, mas na estrutura existente. Entre os fatores citados estão a diferença salarial entre empregos regulares e não regulares, a desigualdade entre gêneros, as falhas institucionais relacionadas à pensão alimentícia e as transferências de renda insuficientes.

Fonte: Institute for Social Vision Design (ISVD), com dados do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão e da OCDE.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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