Falta de trabalhadores faz Japão oferecer dinheiro e benefícios em vários setores

2026/05/22 13:56
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Kagoshima – O município de Ibusuki (Kagoshima) lançou um programa de incentivo financeiro de até 480 mil ienes para quem se tornar motorista de ônibus e de até 240 mil ienes para quem for trabalhar como motorista de táxi. Essa foi a saída encontrada pela prefeitura para lidar com a falta de profissionais no setor. Outras cidades da província estão seguindo por um caminho semelhante.

Os incentivos financeiros não são salários, mas uma ajuda financeira adicional ao salário a ser pago pelas empresas que contratarem os trabalhadores. O jornal Yomiuri publicou que o programa é voltado a moradores com menos de 60 anos que tenham sido contratados como motoristas efetivos de empresas de ônibus de linha ou de táxi da cidade a partir de outubro de 2025. Um dos requisitos é continuar trabalhando na profissão por pelo menos cinco anos.

Outros municípios da província, como Kagoshima e Kirishima, também estão adotando programas semelhantes. Em Ibusuki, o número de motoristas caiu drasticamente desde a pandemia de Covid-19. Em 2019 havia cerca de 20 motoristas de ônibus, número que caiu para apenas 10. Já os condutores de táxi passaram de aproximadamente 100 para 50. Além disso, 60% destes profissionais estão na faixa dos 70 anos.

Problema crônico no país

A escassez de trabalhadores não afeta apenas o setor de transportes. O problema atinge também a construção civil, agricultura, enfermagem, hotelaria, logística e até lojas de conveniência. Além de dinheiro, algumas cidades oferecem cursos gratuitos, ajuda com moradia, treinamento em japonês e até apoio para residência permanente para tentar atrair novos profissionais, inclusive estrangeiros.

Veja alguns exemplos de regiões e setores que estão oferecendo incentivos para enfrentar a escassez de trabalhadores:

Motorista de ônibus

Toyota e Okazaki (Aichi) tentam atrair profissionais para o setor de transporte público, incluindo estrangeiros. Em Toyota, a empresa Toyosaka Kotsu começou a contratar estrangeiros para operar ônibus comunitários após enfrentar uma escassez de cerca de 20% dos motoristas necessários para manter o serviço. Entre os contratados estão um brasileiro e um filipino.

Já em Okazaki, a prefeitura criou o chamado "Modelo Okazaki", em parceria com a Meitetsu Bus. O projeto inclui aulas de japonês pagas pela empresa, treinamento para habilitação de veículos de grande porte, apoio na vida cotidiana, orientação sobre residência permanente e apoio à integração de trabalhadores estrangeiros no setor de transporte.

O programa começou após o governo japonês decidir incluir motoristas no visto de "Habilidades Específicas" (Tokutei Ginou). Um brasileiro foi o primeiro selecionado oficialmente para participar do projeto.

Agricultura

Em várias partes do país, a agricultura japonesa vive uma das maiores crises de mão de obra da história recente. Em muitas regiões, a idade média dos agricultores já ultrapassa os 68 anos, enquanto boa parte dos produtores tem mais de 75 anos.

Para enfrentar o problema, o Japão vem ampliando vistos para estrangeiros no setor agrícola, oferecendo programas de treinamento rural, incentivando a migração para o interior e investindo em agricultura automatizada e robótica. Além disso, o governo subsidia jovens agricultores. Em algumas regiões, governos locais oferecem moradia barata ou terrenos agrícolas para quem aceitar trabalhar no campo.

Setor de enfermagem e cuidados com idosos

O Japão sofre há anos com o envelhecimento da população, o que criou uma demanda gigantesca por cuidadores, enfermeiros e trabalhadores de casas de repouso. O governo japonês passou a flexibilizar programas para estrangeiros, especialmente para trabalhadores vindos de países como Filipinas, Indonésia, Vietnã e Nepal.

As vantagens incluem vistos especiais, possibilidade de permanecer no Japão por longo prazo, apoio para obtenção de certificações, treinamento em idioma japonês e possibilidade de trazer familiares em alguns casos. O setor de saúde e assistência social foi um dos que mais aumentou a contratação de estrangeiros recentemente, com crescimento superior a 25%.

Hotelaria e turismo

A falta de profissionais tem afetado fortemente regiões como Tóquio, Osaka, Kyoto, Hokkaido e Okinawa. Com a retomada do turismo internacional, hotéis e resorts passaram a enfrentar forte escassez de trabalhadores. Para reverter a situação, as empresas do setor vêm oferecendo auxílio-moradia, dormitórios para funcionários, bônus de contratação, treinamento em japonês e contratação ativa de estrangeiros.

Muitos hotéis em regiões turísticas passaram a depender fortemente de trabalhadores estrangeiros para manter operações básicas. O setor de hospedagem e alimentação registrou aumento de mais de 17% na contratação de estrangeiros.

Construção civil

As regiões que mais têm sentido a falta de profissionais no setor são Aichi, Osaka, Tóquio e outros grandes centros urbanos. A construção civil sofre há anos com falta de trabalhadores, agravada pelas obras de reconstrução, projetos urbanos e envelhecimento da categoria.

O Japão passou a ampliar programas de estágio técnico, contratar estrangeiros via Habilidades Específicas (Tokutei Ginou), investir em robótica e automação, aumentar salários em algumas regiões e flexibilizar exigências de contratação. Empresas de tecnologia e montadoras também começaram a desenvolver robôs para substituir parte do trabalho pesado no setor.

Lojas de conveniência e varejo

Hoje é comum se deparar com atendentes estrangeiros em lojas de conveniência em várias cidades. Mas esses estabelecimentos em áreas mais afastadas dos centros urbanos têm dificuldade até para manter funcionamento no período noturno por falta de profissionais.

As redes passaram a apostar em robôs de atendimento, trabalhadores estrangeiros e sistemas automatizados de caixa para lidar com a situação. A rede Lawson, por exemplo, iniciou testes com operadores remotos para manter lojas funcionando em áreas onde mesmo aumentando salários não há pessoas para contratar, segundo reportagens locais.

Motoristas de caminhão e logística

Além de motoristas de ônibus e de táxi, o país sofre com a falta de profissionais para dirigir caminhões e o problema afeta todo o Japão. A situação piorou após a entrada em vigor das novas regras de limite de horas extras para motoristas. O Japão estima um déficit de dezenas de milhares de motoristas até o fim da década.

Para enfrentar o problema, o país começou a abrir vistos específicos para motoristas estrangeiros, oferecer treinamento profissional, automatizar logística, testar caminhões autônomos e transferir parte do transporte para trens. Especialistas afirmam que o Japão deverá depender cada vez mais de trabalhadores estrangeiros nas próximas décadas.

Estudos citados por institutos de pesquisa indicam que o país pode enfrentar déficit superior a 10 milhões de trabalhadores até 2040 caso não consiga ampliar a força de trabalho e aumentar a produtividade.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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