1 em cada 5 estudantes no Japão não lê nem mangás ou livros didáticos, aponta pesquisa

2026/08/28 10:33
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Tóquio – Uma pesquisa envolvendo a Universidade de Tóquio revelou que um em cada cinco estudantes japoneses de 18 a 29 anos não costuma ler livros, jornais ou revistas, mesmo quando são considerados materiais como mangás e livros didáticos. O levantamento mostrou ainda que cerca de 10% não fazem qualquer registro do conteúdo das aulas em universidades ou outras instituições de ensino, publicou o Toyo Keizai Online.

O estudo foi realizado com 1.062 estudantes de todo o Japão entre março e agosto de 2025. A maioria era formada por universitários, mas o grupo também incluía alunos de pós-graduação e de faculdades de curta duração.

A pesquisa, intitulada "Questionário sobre os meios utilizados na escrita e na leitura", foi conduzida pelo Grupo de Estudos sobre o Valor da Escrita à Mão, projeto conjunto do Consórcio de Neurociência Aplicada, com participação do laboratório do professor Kuniyoshi Sakai, da Escola de Pós-Graduação em Artes e Ciências da Universidade de Tóquio.

Na categoria "livros", foram incluídas obras literárias, como romances, ensaios e poesia, além de livros especializados e didáticos, obras práticas, mangás, folhetos, catálogos e outras publicações encadernadas. No caso das mídias digitais, foram considerados jornais eletrônicos, sites de notícias, revistas online, artigos acadêmicos e outros conteúdos.

Hábitos de leitura

A equipe procurou saber o que os estudantes leem, em quais meios e quanto tempo dedicam à leitura, além de analisar seus hábitos de escrita.

Um em cada cinco estudantes, ou cerca de 20%, respondeu que normalmente não lê livros, jornais nem revistas, mesmo considerando materiais como livros didáticos, obras práticas e mangás. Isso, no entanto, não significa que esses jovens não leiam nenhum tipo de texto.

Entre aqueles que disseram ler livros impressos, o tempo dedicado à leitura foi de aproximadamente 40 minutos por dia. Quando também são incluídos no cálculo os estudantes que não leem livros em papel, a média cai para cerca de 30 minutos diários.

Do total de entrevistados, 26% disseram ler blogs, fóruns anônimos, redes sociais e outros sites comunitários, dedicando aproximadamente 60 minutos por dia a esse tipo de conteúdo.

Segundo a reportagem, portanto, não se trata simplesmente de dizer que os jovens deixaram de ler. O que mudou, em parte, foi o tipo de conteúdo consumido.

Outro dado mostrou que apenas 38% disseram ler habitualmente livros especializados ou didáticos, em papel ou em formato eletrônico.

O professor Sakai comentou que a universidade também é um lugar para a leitura de textos especializados e o aprofundamento dos conhecimentos e considerou preocupante que menos de 40% dos estudantes tenham declarado esse hábito.

Ele também relatou já ter observado estudantes que acompanhavam atentamente as aulas, mas não mantinham nenhum material sobre a mesa nem faziam anotações. Isso o levou a questionar até que ponto o conteúdo estava sendo efetivamente assimilado.

Hábito de escrever

Além da leitura, a pesquisa mostrou mudanças nos hábitos de escrita. Mais de 20% dos participantes disseram que não costumam registrar nem organizar seus compromissos cotidianos, seja em papel ou em dispositivos eletrônicos. Outros 10% afirmaram não registrar o conteúdo das aulas da universidade ou de outras instituições.

Sakai considera que uma das possíveis explicações seja o aumento do consumo de vídeos e das aulas online. Segundo ele, estudantes que não desenvolveram o hábito de fazer anotações podem acabar assistindo às aulas presenciais da mesma maneira que assistem a um vídeo, sem organizar por escrito as informações recebidas.

O pesquisador ressalta, porém, que isso não permite afirmar de maneira simples que quem não escreve tenha menor capacidade. Algumas pessoas conseguem administrar compromissos ou organizar informações mentalmente.

A pesquisa constatou ainda que pessoas que leem livros, jornais e revistas tendem a escrever em uma variedade maior de situações. Da mesma forma, aqueles que escrevem em mais situações também tendem a dedicar mais tempo à leitura.

Compreensão de texto

Outro ponto analisado foi a capacidade de interpretação de textos. Parte dos participantes respondeu a questões equivalentes ao nível de conclusão do ensino médio, utilizando perguntas do nível pré-2 do Teste de Habilidade em Compreensão e Produção Textual, da Fundação do Teste de Proficiência em Kanji do Japão.

Entre os estudantes que registravam o conteúdo das aulas, a taxa de respostas corretas foi de 57%. Entre aqueles que não faziam registros, caiu para 32%.

Entre os que tinham o hábito de ler livros, jornais ou revistas, o índice de respostas corretas foi de 56%, enquanto entre aqueles que não liam nenhum desses materiais ficou em 39%.

Os pesquisadores destacam, entretanto, que esses resultados mostram uma correlação e não permitem concluir que a falta de leitura ou de anotações seja diretamente responsável por uma menor capacidade de compreensão. Também é possível que pessoas com maior dificuldade de interpretação tenham mais dificuldade para registrar o conteúdo das aulas.

Sakai é especialista em neurociência da linguagem e explica que ler e escrever envolvem processos mais complexos do que simplesmente "ver letras com os olhos" ou "movimentar a mão para escrever caracteres".

Segundo ele, nas áreas cerebrais relacionadas à linguagem, as informações recebidas são organizadas e estruturadas antes de serem compreendidas e posteriormente expressas em palavras. Dessa forma, a leitura funciona como entrada de informações e a escrita como saída, enquanto o processo de estruturação que ocorre entre elas está relacionado à compreensão.

Influência da IA generativa

Com a disseminação da inteligência artificial generativa e sua crescente utilização na educação, Sakai também fez um alerta sobre possíveis efeitos sobre a capacidade de raciocínio.

"Quanto mais próxima a IA estiver de nós, não apenas deixaremos de pensar, como também deixaremos de perceber que não estamos pensando por conta própria. É possível prever que, daqui para frente, a capacidade de pensar e de compreender sofrerá uma rápida queda", afirmou à reportagem.

Para o professor, se as pessoas passarem a entregar à IA todo o processo de pesquisar, organizar informações e formular respostas, sem antes tentar compreender os assuntos por conta própria, existe o risco de enfraquecimento das habilidades humanas de raciocínio.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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