Um em cada seis idosos no Japão passa semanas sem falar com ninguém

Tóquio – Um em cada seis idosos que vivem sozinhos no Japão não fala com ninguém por pelo menos duas semanas, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa sobre População e Seguridade Social. Além disso, 30% afirmam não ter “pessoas confiáveis” a quem possam recorrer para ajuda simples, como trocar uma lâmpada.
Até o final de 2025, o Japão somava 36,2 milhões de idosos, pessoas com 65 anos ou mais, o equivalente a 29,4% da população total. As projeções são preocupantes. Em 2070, uma em cada três pessoas no país será idosa, segundo o site Apolitico.
Há cinco anos, a proporção de idosos que residiam sozinhos estava abaixo de 20%. No entanto, entre as 47 províncias japonesas, estima-se que 16 registrem um aumento de idosos solitários acima de 20% até 2040. Em 2050, essa proporção deverá ultrapassar 20% em mais de dois terços das províncias.
Esse cenário impõe desafios significativos aos formuladores de políticas públicas. Estudos indicam que o isolamento social está ligado a problemas de saúde e também a mortes solitárias, segundo o doutor Hiroshi Murayama, do Instituto de Gerontologia da Universidade de Tóquio.
Em japonês, existe a palavra “kodokushi”, que significa morrer sozinho. Há casos em que a morte passa despercebida por dias ou semanas. Para Murayama, isso ocorre porque a sociedade japonesa vem perdendo sua coesão, com o enfraquecimento dos laços entre vizinhos.
Em 2024, a Agência Nacional de Polícia registrou mais de 28.000 idosos que viviam sozinhos encontrados mortos em suas residências entre janeiro e junho. Em muitos casos, as mortes só foram percebidas após duas semanas ou mais, o que indica a ausência de contatos sociais frequentes.
Iniciativas
Há alguns anos, existiam no país clubes com 5,9 milhões de idosos associados. O objetivo dessas iniciativas era incentivar a ajuda mútua e a contribuição para a comunidade local por meio de atividades voluntárias, segundo Murayama.
No entanto, programas liderados pelo governo “raramente são bem executados”, afirma o gerontologista, citando que o maior receio é o de invadir a privacidade das pessoas. “Mas, para combater o isolamento social, é preciso entrar na vida diária ou na privacidade de alguém”, diz Murayama.
O canal Abema News entrevistou um homem de 74 anos que relatou não ter falado com ninguém por mais de um ano. Ele contou que chegou a considerar convidar missionários religiosos para sua casa apenas para ter alguém com quem conversar, publicou o Japan Daily.
Esse tipo de situação aumenta o risco de mortes solitárias no país. Especialistas recomendam que as pessoas desenvolvam hábitos de interação social ou recebam treinamento nesse sentido e busquem ajuda antes de chegarem à terceira idade.
Em 2007, o município de Taketoyo, na província de Aichi, lançou os “Salões de Relaxamento” para apoiar os idosos em questões de saúde. A iniciativa também busca criar um ambiente social favorável e fortalecer a comunidade. Segundo relatos, alguns participantes passaram a se sentir mais felizes, fizeram novas amizades e aprenderam dicas de saúde.
Outras iniciativas incluem os “cafés comunitários”, abertos a qualquer pessoa, onde os participantes podem compartilhar ideias e interagir.
Há ainda programas que envolvem funcionários dos correios ou de empresas de gás, que observam o bem-estar de idosos residentes. Quando a caixa de correspondência permanece cheia por muito tempo, os funcionários relatam a situação às autoridades.
Outra ferramenta utilizada é a Inteligência Artificial no apoio aos idosos, por meio de interação e monitoramento. Aplicativos fazem perguntas sobre o estado de saúde ou o uso de medicamentos, e as respostas são enviadas às autoridades locais e a familiares que vivem em outras regiões. Caso não haja resposta em até 24 horas, as autoridades entram em contato ou visitam a residência para verificar o bem-estar do idoso.
Foto: Canva







































