Japão recorda o 11 de março e os impactos da catástrofe nuclear de Fukushima

2026/03/06 10:21
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Fukushima – Às 14h46 do dia 11 de março de 2011, o Japão enfrentou uma catástrofe tripla sem precedentes. A região de Tohoku foi atingida por um terremoto massivo de magnitude 9, com intensidade 7, o nível máximo na escala japonesa. O tremor desencadeou um tsunami que devastou comunidades costeiras inteiras, enquanto o país ainda lidava com o colapso da usina nuclear de Fukushima Daiichi. Relembre os principais fatos que marcaram aquele dia e os anos seguintes, em memória daqueles que lutaram por suas vidas.

O epicentro do Grande Terremoto do Leste do Japão ocorreu no Oceano Pacífico, a 130 quilômetros a leste da cidade de Sendai (Miyagi). O tremor foi tão intenso que abalou grande parte do arquipélago, incluindo Tóquio, situada a 370 quilômetros do hipocentro. Diversas áreas distantes, como a região de Tokai, também sentiram o forte impacto naquela tarde de 2011.

A magnitude do abalo foi percebida também em países vizinhos e gerou alertas de tsunami em várias regiões do Pacífico, incluindo o Havaí e a costa oeste dos Estados Unidos.

Tsunami

Após o forte abalo sísmico, as sirenes nas zonas costeiras de Tohoku dispararam, alertando os moradores para que buscassem refúgio em locais elevados. Uma massa colossal de água se deslocou, resultando em um tsunami de grandes proporções. Emissoras de TV transmitiram a chegada das ondas ao vivo, que atingiram o território japonês 40 minutos após o primeiro tremor.

Em certas áreas, as ondas ultrapassaram 10 metros de altura, mas na província de Miyagi houve registros de picos superiores a 15 metros. A costa foi castigada pela força das águas por diversas horas, sendo que, em muitos pontos, a terceira onda apresentou força superior à primeira.

Total de mortos e feridos

Cidades costeiras foram devastadas pela força marítima. Em áreas planas, a água avançou quilômetros continente adentro, arrastando barcos, navios, carros e edificações.

O total de vítimas fatais atingiu 19.729 pessoas, com 2.559 desaparecidos e 6.233 feridos, de acordo com dados da Reconstruction Agency do governo. Além das fatalidades causadas diretamente pelo tremor ou pelo tsunami, registraram-se óbitos decorrentes de suicídio e falta de assistência médica adequada após os processos de evacuação.

Pelo menos 121.996 edificações foram totalmente destruídas, enquanto 1.031.402 sofreram danos graves ou parciais.

Centenas de milhares de sobreviventes perderam moradias, bens, familiares e amigos. No ápice da crise, mais de 470 mil pessoas ocupavam abrigos temporários. Em maio de 2023, esse contingente foi reduzido para 30 mil pessoas.

Grupos de voluntários, incluindo comunidades de brasileiros, mobilizaram-se para visitar os abrigos e oferecer apoio aos sobreviventes, que enfrentavam a precariedade dos espaços compartilhados e a incerteza sobre a reconstrução de suas vidas.

Nos anos posteriores, o governo promoveu a construção de moradias temporárias e conjuntos habitacionais permanentes. Contudo, ainda existem cidadãos deslocados, especialmente devido à contaminação nuclear em cidades próximas à usina de Fukushima. Muitos residentes abandonaram seus lares apenas com a roupa do corpo.

Danos financeiros

Dados governamentais indicam que os danos financeiros diretos foram estimados em 16,9 trilhões de ienes em junho de 2011. Desse montante, 10,4 trilhões de ienes referem-se a danos em edifícios, 1,3 trilhão de ienes a serviços essenciais, 2,2 trilhões de ienes em infraestrutura social e 3 trilhões de ienes em outros setores.

O Banco Mundial calculou que o custo econômico total poderia alcançar US$ 235 bilhões, consolidando o evento como o desastre natural mais oneroso da história mundial.

Crise nuclear

Somando-se às consequências do terremoto e do tsunami, a população local enfrentou o comprometimento da usina Fukushima Daiichi. Os reatores foram desligados automaticamente após o abalo, porém o tsunami inundou os geradores a diesel responsáveis pelo sistema de resfriamento.

Sem a refrigeração necessária, três reatores sofreram fusão do núcleo nos dias subsequentes. Ocorreram explosões de hidrogênio nas unidades 1, 3 e 4, liberando material radioativo no meio ambiente.

Como resultado, mais de 150 mil residentes das proximidades foram evacuados imediatamente. O solo, a água e os alimentos sofreram contaminação. Barreiras de acesso foram instaladas, transformando cidades em locais desertos em poucas horas.

Surgiram assim as Zonas de Exclusão. Embora muitas áreas tenham sido reabertas após processos de descontaminação, cerca de 310 quilômetros quadrados ainda são classificados como “zonas de difícil retorno”.

O acidente em Fukushima atingiu o nível 7 na Escala Internacional de Eventos Nucleares, o mesmo patamar do desastre de Chernobyl, em 1986, na antiga União Soviética.

A operadora da usina deu início ao processo de descomissionamento dos reatores, tarefa que deve perdurar por várias décadas. O trabalho envolve a remoção do combustível nuclear derretido e a gestão de volumes significativos de água utilizada no resfriamento, que vem sendo tratada e liberada de forma gradual no oceano sob monitoramento internacional.

Outro desdobramento crítico foi a discriminação sofrida por moradores que se mudaram para outras regiões do Japão. Relatos indicam que crianças enfrentaram dificuldades nas escolas e adultos encontraram barreiras no mercado de trabalho e no acesso à moradia. Campanhas públicas foram implementadas para combater o estigma associado à radiação.

O que mudou no país

O desastre impulsionou o governo japonês a revisar padrões de construção, sistemas de alerta e protocolos de evacuação.

Mapas de risco de tsunami foram atualizados e barreiras costeiras foram ampliadas em regiões estratégicas. O país aprimorou a comunicação de crise e a coordenação entre as esferas governamentais.

Após o acidente, todos os reatores nucleares do Japão foram temporariamente paralisados para inspeções. Foram estabelecidas normas regulatórias rigorosas e criada uma autoridade nuclear independente.

Alguns reatores retomaram as atividades sob critérios severos, mas a participação da energia nuclear na matriz energética do país sofreu uma redução significativa. O debate público sobre o tema permanece intenso, equilibrando segurança, custos e riscos.

O evento de 11 de março de 2011 representou uma combinação de catástrofe natural e acidente tecnológico, com impactos humanos, ambientais e políticos que moldam o Japão contemporâneo. Em memória das vítimas, os residentes das áreas afetadas mantêm o costume de parar por um minuto a cada dia 11 de março, às 14h46, quando os alertas soam, desta vez em tributo aos que partiram.

Fotos: Canva

Composta por uma equipe trilíngue (português, japonês e inglês) com sólida trajetória nos setores privado e governamental do Japão, nossa Redação une domínio tecnológico à paixão genuína pela cultura nipônica, transitando do universo dos mangás às tradições milenares. Mais do que vivência, prezamos pela credibilidade: fugimos do "achismo" e fundamentamos todo o nosso conteúdo em fontes concretas e verificadas, garantindo informação precisa e segura para os nossos leitores.

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