Como um conflito em Taiwan pode atingir Japão, EUA e mercados globais

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Tóquio - Existe realmente risco de que a China invada a ilha democrática de Taiwan? Se sim, quais são os impactos sobre o Japão, a Ásia e à economia mundial? Antes de qualquer cenário, vale separar risco de conflito e risco de invasão.

Existe a chance de uma guerra aberta, mas no curto prazo o mais provável é que haja um aumento de ações coercitivas e de pressão militar chinesas sobre Taiwan, como exercícios militares, manobras, bloqueios parciais, ações cibernéticas e até intimidação marítima e aérea.

É possível que haja uma invasão anfíbia em grande escala, mas é uma operação complexa, longa e com alto risco para a China. Mesmo assim, existe o risco e é preciso colocar na balança fatores políticos e militares, como crises internas, avanços tecnológicos, acidentes militares, ou até uma mudança na postura dos Estados Unidos e de aliados na região.

Análise feita por IA

Em uma consulta à Inteligência Artificial (IA) generativa Gemini e ao ChatGPT, a resposta é que após uma invasão dessa magnitude, haverá um choque econômico mundial catastrófico, com potencial de iniciar um conflito direto entre China e Estados Unidos, sem falar em uma crise humanitária significativa.

A leitura de risco mais realista, por analistas e centros de estudo, costuma trabalhar com cenários graduais, que vão de um cerco econômico e marítimo até ataques limitados e, no extremo, uma invasão. Em termos de probabilidade, o cenário de maior chance, e também de maior utilidade estratégica para Pequim, é o da pressão contínua e escalonada.

A hipótese de conflito aumenta se houver uma tentativa de bloqueio do Estreito de Taiwan ou de “quarentena” marítima, porque isso cria um choque direto com interesses comerciais globais e torna mais difícil para outros países ficarem neutros.

Analistas calculam que o custo global de um conflito prolongado assim poderia chegar a US$ 10 trilhões, a começar pela escassez de semicondutores, item essencial em uma série de produtos, como smartphones, carros e até sistemas de defesa.

Produção de semicondutores

Taiwan é responsável por mais de 90% da produção de chips avançados mundial, e no decorrer de um conflito, sua produção será bloqueada, custando às empresas dependentes dessa tecnologia até US$ 1,6 trilhão em receita anual. No caso, as unidades da Taiwan Semiconductor Manufacturing Corporation (TSMC) ficariam inoperáveis. A empresa tem unidade no Japão.

Além da falta de semicondutores, um conflito teráa efeito em cascata sobre insumos industriais, logística, seguros marítimos, energia e confiança dos mercados. Mesmo um confronto limitado pode gerar picos de preços, interrupções de contratos e queda de investimento, porque empresas passam a operar com estoques de segurança, rotas mais longas e maior custo de capital. A magnitude do choque econômico depende do tipo de conflito. Um bloqueio já é suficiente para produzir disrupção relevante sem que haja desembarque de tropas.

Paralisia do comércio global

Outro ponto é a possível paralisação do comércio global, já que o Estreito de Taiwan é uma rota marítima por onde passa metade de todos os conteineres do mundo. A interrupção desse canal poderá levar à falta de peças e uma perda de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) global no primeiro ano do conflito.

Outros cenários possíveis são as sanções econômicas dos Estados Unidos e seus aliados à China, que poderão gerar um colapso do modelo de produção chinês e levar a distúrbios sociais internos no gigante da Ásia.

Outra consequência geopolítica é que um conflito poderá acelerar a fragmentação do comércio e da tecnologia em blocos, com controles de exportação, sanções cruzadas e uma reorganização forçada de cadeias produtivas. Os países serão pressionados a escolher lados em temas como semicondutores, telecomunicações, satélites, padrões industriais e defesa.

Envolvimento do Japão

Um possível envolvimento dos EUA na defesa de Taiwan poderá arrastar aliados regionais, como Japão e Austrália para um conflito militar direto com a China.

Do ponto de vista militar, o risco mais imediato para o Japão não é apenas a participação formal em combate, mas a possibilidade de que bases e infraestruturas militares utilizadas pelos Estados Unidos na região se tornem alvos, além de ataques cibernéticos e interferência em comunicações e satélites. Os Estados Unidos têm a Base Aérea de Kadena, em Okinawa, e a de Yokota, perto de Tóquio, além de Yamaguchi. Um conflito poderá aumentar a pressão sobre as ilhas do sudoeste japonês, por estarem próximas às áreas de operação e por serem relevantes para logística e vigilância.

Fala de Takaichi repercute

Recentemente, a primeira-ministra do Japão Sanae Takaichi disse que o Japão defenderá militarmente Taiwan em uma eventual invasão por parte da China, considerando que esse ato poderá representar uma “ameaça à existência do Japão”. Uma pesquisa feita pela Jiji Press mostrou que 40% dos japoneses apoiam as declarações da premiê do país.

Um conflito pode gerar deslocamento em massa, colapso de serviços essenciais, falta de medicamentos e interrupção de energia e água. Há também o risco de ataques a infraestrutura crítica, como cabos submarinos, portos, redes elétricas e sistemas de pagamento, o que amplia o impacto sobre civis e a duração da crise mesmo sem ocupação total do território.

O poderio militar chinês é respeitável, mas o caso de um fracasso na invasão ou de um conflito prolongado, além das baixas, as sanções econômicas poderão ameaçar o controle do Partido Comunista Chinês e levar a distúrbios internos.

Riscos para cada parte

Para a China, a decisão envolve risco militar elevado, risco econômico severo e risco político interno. Para Taiwan, envolve risco existencial. Para os Estados Unidos e aliados, envolve credibilidade estratégica, equilíbrio de poder na Ásia e proteção de cadeias críticas.

Isso cria um sistema de dissuasão mútua, mas também um ambiente perigoso, em que sinais ambíguos, decisões apressadas ou acidentes podem levar a escaladas rápidas. Em um cenário de escalada, a probabilidade de ataques cibernéticos, sabotagem informacional e ações na “zona cinzenta” costuma ser alta e pode anteceder qualquer choque armado.

Empresas já se posicionam

Diante da possibilidade de uma invasão de Taiwan pela China, as empresas japonesas de telecomunicações nas ilhas Sakishima, na província de Okinawa, situadas a leste da ilha democrática, começaram preparativos para este tipo de situação, segundo o Yomiuri.

As empresas buscarão diminuir o impacto negativo e manter os serviços em funcionamento no caso de uma “gray zone situation”, estágio que precede uma eventual contingência militar em Taiwan.

Neste cenário podem ocorrer ataques cibernéticos ou a disseminação intencional de informações falsas, interferindo nas telecomunicações de um país e atrasando uma resposta a um eventual ataque armado.

A Okinawa Cellular Telephone Co., subsidiária da KDDI Corp., planeja usar suas unidades como abrigo para proteção de civis. Cada departamento atuará de uma forma diferente. Mas a empresa já foi definida pelo governo de Okinawa como uma “instituição pública local designada”.

Impacto sobre as empresas

A Japan External Trade Organization (JETRO) fez uma pesquisa no primeiro semestre deste ano com 1.800 empresas japonesas que compram peças e materiais do exterior sobre os riscos geopolíticos de uma invasão de Taiwan afetar sua capacidade de obter suprimentos.

Os resultados foram: 76,4% apontaram que a China é a grande fornecedora de materiais, com Taiwan vindo em segundo lugar, com 73,5%.

O levantamento mostrou ainda que mais de 80% dos entrevistados que fazem negócios com empresas chinesas e mais de 70% dos que negociam com empresas taiwanesas afirmaram que já adotaram medidas ou iniciaram discussões sobre riscos geopolíticos. Entre as medidas estão a diversificação ou a mudança de fornecedores, além da revisão de locais de produção ou mercados de vendas.

Foto: Canva
Taipé, capital de Taiwan

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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