Japão mira trabalho ilegal de estrangeiros com IA nas redes sociais

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Tóquio – O Japão pretende usar Inteligência Artificial (IA) e ferramentas privadas de análise para coletar e examinar informações em redes sociais relacionadas a estrangeiros em situação irregular, anúncios de contratação ilegal, falsificação de status de residência e intermediação de trabalho sem autorização. A previsão é de que a operação comece a partir de 2027. A medida, planejada pela Agência de Serviços de Imigração do Japão, faz parte de uma estratégia mais ampla de controle migratório.

O sistema deverá analisar postagens ligadas ao recrutamento ilegal de estrangeiros, à falsificação de documentos e à organização de trabalho irregular. A fiscalização não deve mirar apenas trabalhadores em situação irregular, mas também empresas, recrutadores, intermediários e pessoas que organizam ou facilitam esse tipo de contratação, conforme informações publicadas pelo The Yomiuri Shimbun.

O governo afirma que quer combater toda a rede conectada ao trabalho ilegal, incluindo exploração de mão de obra, más condições de trabalho, falsificação de documentos e falta de pagamento de impostos. Também há preocupação com estrangeiros que ultrapassam o prazo de permanência do visto e continuam trabalhando no país para garantir a própria subsistência, muitas vezes em situação vulnerável.

Segundo a Agência de Serviços de Imigração, em 2025, 18.442 estrangeiros foram submetidos a procedimentos de deportação ou ordem de saída por violação da Lei de Imigração. Desse total, 13.435 tiveram envolvimento confirmado com trabalho ilegal. A agência também localizou 1.837 pessoas em operações de fiscalização, um aumento de 459 em relação ao ano anterior.

Em 1º de janeiro de 2026, o Japão registrava 68.488 pessoas nessa condição, redução de 6.375 em comparação com a mesma data do ano anterior. Os maiores grupos eram de nacionalidade vietnamita, tailandesa, coreana, chinesa, filipina e indonésia.

A ação segue o anúncio feito pelo governo em 2025 do “Plano Zero de Permanência Ilegal para a Segurança e Tranquilidade da População” (国民の安全・安心のための不法滞在者ゼロプラン), criado para reduzir o número de estrangeiros em situação irregular e reforçar a deportação de pessoas que violam as regras migratórias. Em julho do mesmo ano, o governo também criou, dentro da Secretaria do Gabinete, o Escritório para Promoção de uma Sociedade de Convivência Ordenada com Estrangeiros (外国人との秩序ある共生社会推進室), uma estrutura de comando para coordenar políticas relacionadas a estrangeiros no país.

Monitoramento de todos os estrangeiros?

Embora o alvo declarado sejam casos de permanência irregular, emprego ilegal, falsificação de status de residência e intermediação irregular de mão de obra, ainda não está claro como o monitoramento será feito na prática. Entre as dúvidas estão quais plataformas serão analisadas, quais idiomas entrarão no sistema, se a coleta ficará restrita a publicações públicas, se haverá cruzamento com dados migratórios oficiais, por quanto tempo as informações serão armazenadas e quais empresas privadas participarão da operação.

Outra preocupação é que sistemas de IA podem cometer erros de interpretação. Publicações sobre trabalho, visto, moradia, documentos ou orientação a estrangeiros podem aparecer em vários contextos, como denúncia, alerta comunitário, pedido de ajuda, informação legítima, golpe ou anúncio irregular. Sem revisão humana cuidadosa, o uso desse tipo de ferramenta pode resultar em falsos positivos.

Também existe a dúvida sobre eventuais impactos no cotidiano de estrangeiros que vivem e trabalham legalmente no Japão. Comunidades estrangeiras costumam usar redes sociais para trocar informações sobre empregos, documentos, moradia, escolas, hospitais e serviços públicos. Dependendo da forma como o sistema foi configurado, conteúdos legítimos podem acabar entrando no radar das autoridades.

A iniciativa tomada pela província de Ibaraki mostra como esse tipo de política pode gerar críticas. Em maio de 2026, o governo provincial iniciou um sistema de denúncia sobre trabalho ilegal e um programa de recompensa. A província afirma que a medida tem como alvo empresas, intermediários e pessoas suspeitas de promover trabalho ilegal, e não trabalhadores estrangeiros individuais. Também informa que não aceita denúncias baseadas em aparência, nacionalidade, discriminação, calúnia ou informações falsas.

Mesmo assim, a iniciativa foi questionada por entidades civis, especialistas e associações de advogados, que apontaram risco de discriminação, divisão social e incentivo a denúncias motivadas por preconceito. O caso reforça a necessidade de regras claras quando governos usam tecnologia ou canais de denúncia para fiscalizar estrangeiros.

O Japão possui uma Lei de Proteção de Informações Pessoais e diretrizes nacionais sobre o uso de inteligência artificial pelo setor público. Ainda assim, a aplicação prática dessas regras será decisiva. Entre os pontos que devem ser observados estão a limitação da coleta de dados, a proteção de informações pessoais, a participação de empresas privadas, a possibilidade de contestação em caso de erro e a garantia de que a fiscalização não se transforme em vigilância indiscriminada sobre estrangeiros.

A questão não é apenas se o Japão pode usar tecnologia para combaten o trabalho ilegal, mas como fará isso sem comprometer direitos, privacidade e a convivência entre japoneses e estrangeiros em um país cada vez mais dependente da mão de obra internacional.

Foto: Canva

Antonio Carlos Bordin é jornalista há 40 anos. Iniciou na profissão em jornais diários no interior de São Paulo. Mora no Japão há mais de 20 anos, tempo em que trabalhou como editor de revistas e de sites da comunidade. Gosta de filmes de ação, de ficção científica e acredita em Astrologia. Tem bom humor e fé em Deus.

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