Suspeitas de uso de IA em livros provocam reação de editoras

Paris – Com o avanço da inteligência artificial (IA) generativa, estão ganhando força as iniciativas para identificar livros escritos por humanos, e não por essa tecnologia. As ações surgem após polêmicas registradas na Europa, onde autores têm sido suspeitos de utilizar IA na produção de suas obras sem admitir o uso da tecnologia.
O problema ganhou destaque durante a maior feira editorial do mundo, realizada em Frankfurt, na Alemanha, com iniciativas na França, na própria Alemanha e na Grã-Bretanha para lançar selos que identifiquem obras escritas por humanos, e não por IA, noticiou a France Presse.
Escândalo
O escritor haitiano-canadense Thelyson Orelien é um dos autores suspeitos de utilizar IA, embora negue veementemente as acusações. Proprietários de editoras francesas consideraram o caso um verdadeiro terremoto no setor editorial.
A polêmica começou após um perfil anônimo no X afirmar que o escritor havia utilizado IA em seu romance “It Was Either That or Die”. Para sustentar a acusação, o responsável pelo perfil recorreu a ferramentas especializadas na detecção de textos gerados por inteligência artificial. Orelien manteve sua postura de negar ter utilizado IA e atribuiu as acusações a motivações raciais.
Outros casos também vieram à tona. A editora Hachette não apenas cancelou o lançamento do romance “Shy Girl”, da escritora americana Mia Ballard, como também retirou o livro de circulação na Grã-Bretanha após acusações de uso de IA.
Ballard negou ter utilizado a tecnologia em entrevista ao The New York Times, mas reconheceu que havia contratado um conhecido para editar o livro e que essa pessoa havia recorrido à IA durante o trabalho.
Editoras lançam selos
Na França, a editora Librinova administra um sistema pelo qual os autores podem submeter seus livros a uma avaliação e receber o selo de “criação humana”, mediante o pagamento de uma pequena taxa. Até agora, 200 obras receberam a certificação.
Os livros submetidos à Librinova passam pela análise de um software de detecção de IA e pela avaliação de um auditor. Os responsáveis pela editora comemoram a iniciativa, principalmente porque muitos escritores temem ser injustamente acusados de utilizar inteligência artificial.
Na Grã-Bretanha, a startup Books By People lançou uma certificação para obras escritas por humanos. Para receber o selo, os autores precisam cumprir determinados requisitos, entre eles garantir que o texto seja de sua própria autoria. No entanto, é permitido o uso limitado de IA em tarefas como revisão ortográfica e gramatical. A certificação também exige o pagamento de uma taxa.
Nos Estados Unidos, a organização de escritores Authors Guild introduziu um selo de certificação de “autoria humana”. Nesse sistema, os autores assinam um contrato de licença para utilizar o selo, que já está presente em 6.500 títulos.
Desconfiança
A reação do mercado editorial, com o lançamento de selos de certificação, porém, ainda não conseguiu dissipar as dúvidas entre os profissionais do setor.
Os sistemas de certificação admitem o uso limitado de IA em pesquisas e verificações gramaticais. Além disso, existe a preocupação de que os mecanismos de avaliação ainda estejam em estágio inicial e não ofereçam comprovação definitiva de que um texto foi produzido por inteligência artificial, o que torna importante distinguir suspeitas de casos efetivamente confirmados.
O presidente da Associação Alemã de Editores e Livreiros, Sebastian Guggolz, reconheceu que o setor editorial ainda não sabe como lidar com a situação.
Segundo ele, não existe uma solução simples baseada na classificação “com IA” ou “sem IA”. Por isso, defende que cada profissional e cada empresa do setor reflita sobre uma questão fundamental: “Como queremos tornar nossas práticas transparentes?”
Foto: Canva








































