Famílias no Japão ganham mais, mas poder de compra diminui

Tóquio – As famílias japonesas continuam reduzindo seus gastos, mesmo em um cenário de recuperação dos salários. É o que mostrou a Pesquisa de Orçamentos Familiares divulgada pelo Ministério de Assuntos Internos e Comunicações. O consumo médio das famílias com duas ou mais pessoas caiu 3,1% em agosto, na comparação com o mesmo mês de 2025, depois de descontada a inflação. Foi o nono mês consecutivo de queda.
A despesa média mensal ficou em 310.975 ienes por família. Em termos nominais, ou seja, sem descontar a inflação, a redução foi menor, de 1%. Isso significa que as famílias gastaram quase a mesma quantidade de dinheiro, mas conseguiram comprar menos bens e serviços devido ao aumento dos preços.
Basta considerar o caso de uma família que gastava 300 mil ienes por mês no ano passado. Se neste ano ela continuar desembolsando aproximadamente o mesmo valor, mas os alimentos, a energia, o transporte e outros produtos e serviços estiverem mais caros, seu consumo real diminuirá.
É justamente essa diferença que aparece quando o governo divulga a variação “real”, descontando o efeito dos preços. Por isso, uma queda real de 3,1% não significa necessariamente que todas as famílias reduziram em 3,1% o dinheiro gasto. Significa que, considerando a inflação, o volume de bens e serviços adquirido foi menor.
Pequena melhora em relação a julho
Embora o resultado anual continue negativo, houve uma pequena melhora em relação ao mês anterior. Na comparação com julho, depois do ajuste sazonal, as despesas aumentaram 0,1%.
Em julho, o consumo havia caído 3,6% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Em junho, a retração havia sido de 3,3%. Portanto, agosto continuou apresentando um resultado negativo, mas a queda anual foi um pouco menor do que nos dois meses anteriores.
O resultado também foi ligeiramente melhor do que o esperado por economistas consultados pela Reuters, que previam retração de 3,6%.
Renda sobe em ienes, mas cai em termos reais
Outro dado importante da pesquisa está relacionado à renda. Entre as famílias com duas ou mais pessoas que possuem pelo menos um integrante empregado, a renda média mensal chegou a 616.704 ienes. Esse valor representou um crescimento de 1,3% em termos nominais.
Depois de descontada a inflação, porém, a renda caiu 0,9%, considerando o índice de preços utilizado pelo governo nesse cálculo.
É importante entender que os 616.704 ienes não representam o salário médio de um trabalhador.
O número corresponde à renda total média das famílias com duas ou mais pessoas classificadas como famílias de trabalhadores assalariados. Em um lar no qual marido e mulher trabalham, por exemplo, os rendimentos dos dois podem entrar no cálculo.
Salário maior nem sempre significa poder de compra maior
Esse é um dos pontos mais importantes dos números divulgados pelo governo.
O salário e a renda podem aumentar em quantidade de ienes, mas isso não significa automaticamente que a família esteja conseguindo consumir mais.
Se a renda cresce 1,3%, mas os preços sobem mais do que isso, o poder de compra diminui.
É por essa razão que o governo e o Banco do Japão acompanham não apenas os salários nominais, mas também os chamados salários e rendimentos reais.
Outro levantamento do governo mostrou que o salário real dos trabalhadores no Japão cresceu 1,5% em agosto, na comparação anual, registrando o oitavo mês consecutivo de alta.
Os dois números não são contraditórios. Eles vêm de pesquisas diferentes e medem grupos e conceitos distintos.
A estatística salarial acompanha as remunerações pagas pelas empresas aos trabalhadores. Já a Pesquisa de Orçamentos Familiares analisa as receitas e despesas dos domicílios.
Alimentação representa a maior parcela das despesas
Historicamente, a alimentação representa a maior parcela das despesas das famílias japonesas.
Em 2025, por exemplo, famílias com duas ou mais pessoas gastaram, em média, 314.001 ienes por mês, dos quais 89.754 ienes foram destinados à alimentação, o equivalente a 28,6% de todas as despesas de consumo. Em seguida, apareciam outros gastos diversos, com 17,3%, e transporte e comunicação, com 14,5%.
Isso ajuda a explicar por que os aumentos dos preços dos alimentos têm impacto tão grande na percepção das famílias sobre o custo de vida.
Quando a alimentação representa quase um terço das despesas mensais, sucessivos aumentos nos preços do arroz, produtos processados, bebidas, temperos e refeições prontas podem pressionar significativamente o orçamento doméstico. E o Japão começou outubro com reajustes anunciados para mais de 3 mil produtos alimentícios e bebidas.
Banco do Japão acompanha os dados
Os números do consumo são acompanhados de perto pelo Banco do Japão porque o comportamento das famílias influencia diretamente a atividade econômica.
Quando os consumidores reduzem seus gastos, as vendas das empresas também podem perder força.
Por outro lado, uma recuperação do consumo pode estimular o comércio, os serviços e os investimentos.
Os números divulgados serão mais um elemento considerado pelo Banco do Japão nas próximas decisões de política monetária.
A instituição realizará sua próxima reunião de política monetária nos dias 29 e 30 de outubro.
O resultado isolado de agosto, porém, não permite concluir se haverá ou não alteração dos juros.
O que isso significa para os brasileiros
A pesquisa abrange as famílias residentes no Japão, independentemente da nacionalidade. Mesmo assim, os resultados retratam um ambiente econômico que também afeta os estrangeiros que vivem no país.
As famílias brasileiras enfrentam os mesmos reajustes nos preços dos alimentos, energia, gás, transporte, telecomunicações e outros serviços.
Para quem recebe salário fixo, o ponto mais importante é observar se o crescimento da renda está conseguindo acompanhar o aumento do custo de vida.
Uma família pode receber mais ienes do que no ano passado e, ainda assim, sentir que sobra menos dinheiro no fim do mês.
Os dados de agosto mostram que essa sensação tem uma base concreta: em média, o consumo real das famílias japonesas continuou diminuindo.
Fonte: Ministério de Assuntos Internos e Comunicações e Reuters.
Foto: Canva






































