Quase 7 em cada 10 trabalhadores relatam forte estresse ligado ao emprego no Japão

2026/10/16 07:44
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Tóquio – Mais de dois terços dos trabalhadores no Japão afirmam sentir forte ansiedade, preocupação ou estresse relacionados ao trabalho ou à vida profissional, segundo o mais recente Livro Branco sobre Prevenção de Mortes por Excesso de Trabalho, divulgado pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar.

Em 2025, 67,5% dos trabalhadores pesquisados responderam que enfrentavam esse tipo de situação. O percentual apresentou pequena melhora em relação aos 68,3% registrados no ano anterior, mas permanece muito distante da meta estabelecida pelo governo.

O Plano Nacional de Prevenção de Mortes por Excesso de Trabalho prevê reduzir para menos de 50%, até 2027, a parcela de trabalhadores que afirmam sentir forte ansiedade, preocupação ou estresse relacionados ao trabalho. Mas o resultado também mostra que o problema não é recente.

Em 2002, por exemplo, 61,5% dos trabalhadores pesquisados relatavam forte estresse relacionado à atividade profissional. O índice oscilou ao longo dos anos e chegou a ultrapassar 80% em 2022 e 2023, embora mudanças metodológicas na pesquisa exijam cautela na comparação direta entre todos os períodos.

O que significa o percentual de 67,5%

O número não significa que 67,5% dos trabalhadores japoneses tenham depressão, transtorno de ansiedade ou outra doença mental diagnosticada. A pergunta feita na pesquisa é mais ampla. Ela procura saber se o trabalhador sente forte ansiedade, preocupação ou estresse em relação ao trabalho e à vida profissional.

Significa dizer que o dado mede a percepção de pressão psicológica e as dificuldades relacionadas ao emprego, e não um diagnóstico médico.

Uma pessoa pode enfrentar forte estresse no trabalho sem ter desenvolvido uma doença mental. Por outro lado, a exposição prolongada a condições de grande pressão pode aumentar os riscos à saúde e exige atenção das empresas e dos próprios trabalhadores.

O que provoca estresse no trabalho

As causas podem variar muito.

Entre os fatores normalmente identificados pelo Ministério em suas pesquisas e políticas de saúde ocupacional estão:

  • quantidade e conteúdo do trabalho;
  • responsabilidades atribuídas ao empregado;
  • relacionamento com colegas e superiores;
  • insegurança profissional;
  • pressão por resultados;
  • jornadas prolongadas;
  • assédio;
  • reclamações e comportamentos abusivos de clientes;
  • dificuldade para conciliar trabalho e vida pessoal.

O governo considera a saúde mental uma das áreas centrais de prevenção do karōshi e de outras doenças associadas ao excesso de trabalho.

O que é karōshi

O termo japonês karōshi é frequentemente traduzido como “morte por excesso de trabalho”, mas a definição legal utilizada pelo governo é mais ampla.

Ela abrange mortes provocadas por doenças cerebrais ou cardíacas relacionadas a uma carga excessiva de trabalho e suicídios relacionados a transtornos mentais causados por forte pressão psicológica decorrente da atividade profissional.

A legislação também inclui casos em que essas doenças são reconhecidas como relacionadas ao trabalho, mesmo quando não provocam a morte.

Por isso, o Livro Branco não trata apenas de pessoas que morreram. O documento acompanha jornada, saúde mental, pedidos de reconhecimento de acidentes de trabalho, doenças profissionais e medidas preventivas adotadas pelas empresas.

63% das empresas adotam alguma medida de saúde mental

Outro dado chama a atenção. Somente 63% dos estabelecimentos pesquisados afirmaram adotar alguma medida relacionada à saúde mental dos empregados.

O índice caiu ligeiramente em comparação com os 63,2% registrados no ano anterior. A meta do governo é chegar a pelo menos 80%.

Isso significa que mais de um terço dos estabelecimentos pesquisados ainda não implementava medidas que o governo enquadra como ações de saúde mental.

Essas iniciativas podem incluir, por exemplo, canais de consulta, treinamento dos gestores, sistemas de acompanhamento dos trabalhadores e realização de avaliações de estresse.

Empresas pequenas ficam muito atrás

A diferença é particularmente grande nas empresas menores. Entre estabelecimentos com menos de 50 funcionários, apenas 32,5% realizavam o chamado stress check em 2025.

O stress check é uma avaliação destinada a identificar o nível de estresse do trabalhador e ajudar a prevenir problemas de saúde mental.

O questionário procura identificar situações como pressão excessiva, falta de apoio no ambiente de trabalho e sinais de sobrecarga. O resultado é entregue ao próprio trabalhador.

Quando uma pessoa é classificada como apresentando alto nível de estresse e solicita avaliação médica, existem procedimentos previstos para que possa ser examinada por um médico e para que a empresa analise possíveis mudanças nas condições de trabalho.

Até agora, a obrigação legal do stress check atingia principalmente estabelecimentos com 50 ou mais trabalhadores. A legislação foi reformada para estender a exigência também às empresas menores, embora a implementação dependa do cronograma estabelecido pelo governo.

O percentual de apenas 32,5% ajuda a mostrar o tamanho da mudança necessária para que o sistema alcance os pequenos empregadores.

Considere o exemplo de uma fábrica com 35 empregados.

Um funcionário começa a trabalhar muitas horas extras, recebe novas responsabilidades e enfrenta dificuldades com seu supervisor. Ele passa a dormir mal, sente ansiedade antes de ir ao trabalho e percebe dificuldade para se concentrar.

Esses sinais não significam automaticamente que ele tenha uma doença mental diagnosticada. Mas eles podem indicar um nível elevado de estresse profissional.

Se a empresa realiza stress check, o questionário pode ajudar a identificar a situação antes que ela evolua.

Dependendo do resultado e do pedido do funcionário, poderá haver consulta com um médico e recomendação de medidas como redução das horas extras, mudança temporária de função ou outras adaptações.

A finalidade do sistema é justamente atuar antes que a situação provoque consequências mais graves.

Jornadas muito longas continuam existindo

O Livro Branco também acompanha o número de pessoas submetidas a jornadas extensas.

Em 2025, entre os empregados que trabalhavam pelo menos 40 horas semanais, 7,7% trabalhavam 60 horas ou mais por semana.

O percentual caiu em relação aos 8% registrados em 2024, mantendo uma tendência gradual de redução.

Apesar disso, o governo ainda está longe de sua meta. O objetivo é reduzir para 5% ou menos a proporção de empregados com jornada semanal de pelo menos 60 horas.

Uma semana de 60 horas corresponde, em média, a 12 horas de trabalho por dia em uma jornada de cinco dias.

Isso não significa necessariamente 12 horas registradas todos os dias, porque a distribuição pode variar, mas ajuda a visualizar a dimensão da carga horária.

Quando são considerados todos os empregados, inclusive aqueles que trabalham menos de 40 horas por semana, a participação dos que cumprem 60 horas ou mais é menor.

Por isso, é importante indicar claramente qual universo está sendo usado ao citar o percentual de 7,7%.

Longa jornada não é o único risco

O governo alerta que a prevenção do excesso de trabalho não pode ser limitada apenas à quantidade de horas. Fatores psicológicos também têm peso importante.

Assédio, responsabilidades excessivas, conflitos no ambiente de trabalho, mudanças bruscas de função e outros eventos podem gerar forte carga emocional mesmo quando a jornada não ultrapassa determinados limites.

O próprio conceito legal de doenças relacionadas ao excesso de trabalho inclui transtornos mentais causados por forte pressão psicológica decorrente da atividade profissional.

Pedidos de reconhecimento de doenças mentais relacionadas ao trabalho

Os dados mais recentes de compensação trabalhista mostram que o número de pedidos relacionados a transtornos mentais continua elevado.

O Ministério recebe todos os anos solicitações de reconhecimento pelo seguro contra acidentes de trabalho de casos em que trabalhadores ou familiares alegam que uma doença mental foi provocada pela atividade profissional.

Esses pedidos são avaliados individualmente.

A apresentação do pedido não significa que a doença será automaticamente reconhecida como decorrente do trabalho. O Ministério analisa as circunstâncias profissionais e a intensidade da carga psicológica antes de decidir sobre a concessão do benefício.

Onde o trabalhador pode buscar ajuda

O Ministério mantém o serviço Kokoro no Mimi, ou “Ouvidos do Coração”, voltado à saúde mental dos trabalhadores.

O portal reúne informações sobre estresse, depressão, excesso de trabalho e prevenção, além de canais de consulta.

Também existem serviços de orientação das Delegacias Regionais do Trabalho e dos Escritórios de Inspeção das Normas Trabalhistas.

Em situações relacionadas a assédio, jornada excessiva ou condições de trabalho, o trabalhador pode consultar os órgãos trabalhistas da província.

O governo também realiza todos os anos, em novembro, o Mês de Conscientização para a Prevenção de Mortes por Excesso de Trabalho.

Durante o período são promovidos seminários e ações de fiscalização voltadas à redução de jornadas excessivas e de horas extras não pagas, além de canais especiais de consulta.

Para brasileiros no Japão

Os dados também interessam aos trabalhadores estrangeiros. Brasileiros empregados em fábricas, transportadoras, construção, restaurantes, hospitais, serviços de cuidados de idosos e outros setores estão sujeitos às mesmas normas japonesas de segurança e saúde ocupacional. Problemas de idioma podem, contudo, dificultar a procura por ajuda.

Um trabalhador que não compreende integralmente as regras internas da empresa ou não consegue explicar adequadamente sua situação pode deixar de utilizar os serviços disponíveis.

Por isso, é importante conhecer os canais de consulta e, quando necessário, procurar atendimento em português ou com apoio de intérprete.

Também vale guardar registros de jornadas, escalas, mensagens, holerites e outros documentos quando houver problemas relacionados a excesso de horas ou condições de trabalho.

O quadro geral mostrado pelo Livro Branco é de pequena melhora em alguns indicadores, mas ainda distante das metas do governo.

A proporção de trabalhadores que relatam forte estresse caiu de 68,3% para 67,5%, e a participação dos empregados com jornadas semanais de 60 horas ou mais também apresentou redução.

Mesmo assim, quase sete em cada dez trabalhadores continuam relatando forte ansiedade, preocupação ou estresse relacionados à vida profissional, enquanto apenas 63% dos estabelecimentos adotam medidas de saúde mental.

Nas pequenas empresas, somente aproximadamente um em cada três realiza stress check.

Fonte: Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, Livro Branco sobre Prevenção de Mortes por Excesso de Trabalho de 2026.

Foto: Canva

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